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5 questões de Epidemiologia comentadas

Fala moçada, tudo certo? Se ajeita aí que tá na hora de resolver algumas questões! Alguns de vocês já devem conhecer nossa série de textos em que trazemos 5 questões de diferentes áreas médicas com comentários dos nossos professores para você testar seus conhecimentos e ainda receber aquela assistência para qualquer dúvida que surgir. E hoje é a vez de trazer 5 questões de Epidemiologia comentadas!

Tudo pronto? Então bora lá!

Questão 1

Unifesp 2018 – Para investigar se há associação entre infecção pelo vírus Zika e microcefalia, foram comparadas as proporções de infecção pelo vírus Zika entre neonatos com microcefalia (n = 65) e neonatos sem microcefalia (n = 62). Observou-se que a infecção pelo Zika vírus ocorreu entre 80% dos neonatos com microcefalia e 60% dos neonatos sem microcefalia. O delineamento do estudo epidemiológico e a medida de associação mais apropriada para este tipo de estudo, respectivamente, são:

A. Caso-controle e odds ratio.

B. Transversal e odds ratio.

C. Observacional e razão de prevalência.

D. Caso-controle e razão de prevalência.

E. Coorte e razão de chances.

Comentário

A questão começou falando de estabelecer relação entre desfecho e exposição? Saiba que estamos diante de um estudo de caso-controle ou de coorte, e a diferenciação será pelo ponto de partida: se for do desfecho, será caso controle; se for da exposição, coorte.

Aqui, temos que, a partir do desfecho (microcefalia), investigou-se a exposição (zyka), ou seja, um estudo do tipo caso-controle. A medida de associação desse tipo de estudo é o odds ratio ou razão de chances!

A. Correta. Conforme explicado acima, temos essa como correta.

B. Incorreta. O desenho de estudo não é um transversal, ao qual é um bom estudo para investigar a prevalência de doenças, mas não é o que está sendo investigado aqui. Odds ratio estaria correto

C. Incorreta. Caso-controle é um tipo de estudo observacional, pois não há intervenção, mas não é a razão de prevalência que está sendo investigada aqui, pois no próprio desenho de estudo o pesquisador determina quem será incluído, e isso gera viés que não permite investigar a prevalência.

D. Incorreta. Caso-controle estaria correto, mas razão de prevalência não é ligada a esse tipo de estudo.

E. Incorreta. Já estaria errado por ser coorte a resposta, e a medida de associação desse tipo de estudo é o risco relativo.

Visão do aprovado: esse tipo de questão é bastante comum nas provas, e o examinador sempre tenta embaralhar para confundir. Saber qual o ponto de partida, se desfecho ou exposição, é a chave para matar aqui!

Nível de dificuldade: fácil

Gabarito: alternativa A

Questão 2

IAMSPE 2019 – São exemplos de medidas de tendência central:

A. Mediana, moda e desvio padrão.

B. Amplitude, variância e mediana.

C. Moda, variância e mediana.

D. Média aritmética, mediana e moda.

E. Amplitude, variância e desvio padrão.

Comentário

Questão extremamente conceitual, da época de vestibular, mas que novamente tem sido cobrada nas provas de residência. As medidas de tendência central referem-se àquelas do centro de um gráfico de distribuição, representado, por exemplo, por uma curva de Gauss.

Gráfico da segunda de 5 questões de epidemiologia comentadas

As medidas mais próximas ao centro, ao pico do gráfico, seriam então:

Média: soma de todos os valores dividido pelo número de valores. é uma medida que pode coincidir com o centro da amostra, mas pode apresentar desvio quando houver valores muito extremos (ou seja, se a amplitude dos valores for alta).

Mediana: valor que divide a amostra ao meio, representando o centro da amostra.

Moda: valor que aparece com maior frequência no conjunto de dados, sendo esse o valor do pico do gráfico de distribuição, por justamente aparecer mais vezes.

Além das medidas de tendência central, existem também as medidas de dispersão, que seriam amplitude, variância e desvio padrão

A.  Incorreta. Desvio-padrão é uma medida de dispersão, portanto incorreta

B. Incorreta. Amplitude e variância são medidas de dispersão, portanto incorreta

C. Incorreta. Variância é uma medida de dispersão, portanto incorreta

D. Correta. Conforme explicado acima, média, mediana e moda são as medidas de tendência central

E. Incorreta. Todas aqui são medidas de dispersão, portanto incorreta.

Visão do aprovado: mesmo que o termo “medida de tendência central” não fosse do domínio, algo que poderia ajudar é a palavra central, ou seja, qual a medida do centro? A mediana é sempre a mais central de todas e a mais lembrada. Logo, eliminaremos E. Amplitude não parece ser algo de centro, não é mesmo? Eliminamos B. Desvio-padrão e variância referem-se ao desvio dos valores da média, ou seja, também não parecem ser do centro, e logo eliminamos A e C, sobrando D como única possível.

Nível de dificuldade: fácil

Gabarito: alternativa D

Questão 3

USP-RP 2018 – Uma determinada vacina (Y) foi introduzida no ano de 2010 para prevenção de uma determinada doença (X). O impacto clínico da vacina (Y) foi monitorado no período de 2010 a 2016, tendo-se o coeficiente da doença (X), por 100.000 pessoas, como o desfecho primário. Observe no gráfico abaixo a representação gráfica do resultado observado entre 2010 e 2016. Análise de correlação entre cobertura vacinal e coeficiente de incidência/100.000 da doença (X) entre 2010 e 2016.

A. O aumento da cobertura vacinal teve efeito na diminuição do coeficiente de incidência da doença.

B. A diminuição da cobertura vacinal teve efeito na diminuição do coeficiente de incidência da doença

C. O aumento da cobertura vacinal não teve nenhum efeito no coeficiente de incidência da doença

D. O aumento da cobertura vacinal teve efeito no aumento do coeficiente de incidência da doença

Comentário

A análise “seca” do gráfico, antes de ler as alternativas pode gerar um pouco de desespero, né? Fórmulas para cálculo de Y, n, r… Mas os gráficos são aliados importantes nas questões de Preventiva. Um dos passos indispensáveis para a resolução desse tipo de questão é verificar o que está sendo medido no eixo vertical e o que está sendo medido no eixo horizontal. Nessa questão o eixo Y (vertical) expressa o coeficiente de incidência por 100.000 habitantes da doença em análise e o eixo X (horizontal) mostra a cobertura vacinal em porcentagem. E analisando o gráfico, a única coisa que percebemos é que à medida que a cobertura vacinal foi aumentando em porcentagem, o coeficiente de incidência da doença foi diminuindo proporcionalmente. Com esse raciocínio, vamos à análise das alternativas para encontrar nossa resposta.

A. Correta. Exatamente como dito acima, a análise do gráfico nos mostra que o aumento da cobertura vacinal teve efeito na diminuição do coeficiente de incidência da doença.

B. Incorreta. A diminuição da cobertura vacinal (mais próximo do 0 no eixo X) acarreta no aumento da incidência da doença.

C. Incorreta. O aumento da cobertura vacinal teve como consequência a diminuição da incidência da doença.

D. Incorreta.  O aumento da cobertura vacinal teve como consequência a diminuição da incidência da doença, e não o aumento, como consta na alternativa.

Visão do aprovado: lembrem-se que o gráfico é aliado de vocês nesse tipo de questão, pessoal. Analisem com calma e muito cuidado com as alternativas semelhantes. Mesmo analisando uma alternativa e acreditando que ela possa ser o gabarito, não deixe de conferir se as outras estão realmente incorretas.

Nível de dificuldade: fácil

Gabarito: alternativa A

Questão 4

USP-SP 2020 – No sentido de quantificar a associação entre consumo de laticínios, doença cardiovascular e óbito foi realizado um estudo multicêntrico, que acompanhou por 15 anos um grupo de 136.000 indivíduos entre 35 e 70 anos de idade, em 21 países. Os participantes foram divididos entre os que não consumiram laticínios e aqueles que os consumiram. Os dados que seguem resumem os principais resultados do estudo. Tabela X. Associação entre consumo diário de laticínios (CDL) e eventos clínicos. Obs: *= intervalo de 95% de confiança; # = Hazard ratio; &= grupo de referência para HR; Fonte: Lancet 2018; 392: 2288-97. Qual é a alternativa correta quanto ao consumo de laticínios?

A. Aumentou o risco de óbito.

B. Aumentou o risco de insuficiência cardíaca.

C. Reduziu o risco de doença cardiovascular grave.

D. Diminuiu o risco de infarto do miocárdio.

Comentário

Temos um estudo prospectivo, observacional, ou seja, uma coorte prospectiva, o qual avaliou os resultados do consumo de leite (exposição) e sua relação com doenças cardiovasculares (desfecho) a partir do hazard ratio. Temos uma tabela com os números do estudo e a síntese dos resultados. Devemos lembrar que hazard ratio (HR) é uma medida muito próxima ao risco relativo, mas que mede desfechos negativos, sendo a exposição protetora quando menor que 1, nula quando igual a 1, e danosa quando maior do que 1. Outro conceito é o do intervalo de confiança (IC), que só terá significância estatística quando diferente de um (ou seja, maior ou menor do que 1, mas nunca tendo o 1 incluído em seus valores). 

A. Incorreta. O risco de óbito, ou mortalidade total, teve um HR=0,83, o que significa que diminuiu mortalidade, mas com IC entre 0,72-0,96, abaixo de 1, o que é significativo. 

B. Incorreta. O HR para insuficiência cardíaca é de 1,06, o que significa que aumentou, mas o IC está entre  0,71-1,57, ou seja, cruza o 1, o que não dá significância estatística.

C. Correta. Temos um HR=0,78, o que significa proteção, com um IC entre 0,67-0,90, ou seja, abaixo de 1, o que significa que o resultado é estatisticamente significativo.

D. Incorreta. Temos HR=0,89, o que significa proteção, mas com IC 0,71-1,11, ou seja, cruzando o 1, o que não dá a significância estatísticas necessária para considerar o efeito

Visão do aprovado: interpretação de OR, RR e HR, além de IC, são recorrentes nas provas. Saber se o valor de 1 está incluído ou não no resultado observado é fundamental para não cair em pegadinhas.

Nível de dificuldade: moderado

Gabarito: alternativa C

Questão 5

SCMSP 2016 – Novos medicamentos com finalidade terapêutica ou preventiva são avaliados por meio de ensaios clínicos. Nesses estudos os participantes são alocados no grupo que receberá o novo medicamento, ou no grupo controle ao acaso e recomenda-se que durante o estudo os participantes e os pesquisadores responsáveis pela coleta de informações não saibam a que grupo os participantes pertencem. Esse procedimento metodológico é chamado de cegamento (blinding) e sobre ele é correto afirmar que: 

A. Trata-se de uma maneira de evitar a ocorrência de viés (bias) de seleção, pois dessa forma os participantes dos dois grupos terão características semelhantes.

B. É especialmente eficiente nos ensaios clínicos para avaliação de dieta, psicoterapia e medicamentos com efeitos colaterais importantes.

C. Não é importante nas situações em que o efeito do tratamento não depende de avaliação subjetiva (por exemplo, análises bioquímicas).

D. Não é muito importante porque a análise estatística consegue corrigir todos os problemas decorrentes da ausência de cegamento.

E. Deve ser usado apenas quando o ensaio clínico avaliar intervenções terapêuticas, pois não é importante para a avaliação de intervenções preventivas, tais como vacinas.

Comentário

Questão bem bacana sobre as características do estudo do tipo ensaio clínico. A questão contextualiza sobre aspectos do estudo, mas foca principalmente no cegamento (blinding) dos participantes e dos pesquisadores responsáveis pela coleta de informações no estudo. 

Essa é uma característica muito importante do estudo, pois evita o erro de aferição. Se os sujeitos do estudo estiverem cientes do tratamento que receberão, poderão modificar seu comportamento ou o modo como relatam desfechos (incluindo eventos adversos). Se tiverem conhecimento que receberão um novo tratamento experimental poderão criar expectativas favoráveis. Se forem direcionados para um grupo placebo, poderão se sentir discriminados e reagir negativamente. 

Da mesma maneira, os investigadores também podem relatar resultados de maneira tendenciosa se souberem qual tratamento estão avaliando. Poderão superestimar o efeito da intervenção se tiverem conhecimento de que examinam o grupo teste, assim como podem subestimar o efeito quando examinam o grupo controle. Com essas informações iniciais, vamos à análise das alternativas em busca da correta:

A. Incorreta. Como descrito acima, o cegamente serve para evitar o viés de aferição e não de seleção. Uma das ferramentas que diminui o viés de seleção e a randomização, por exemplo.

B. Incorreta. Pessoal, nos estudos para avaliação de dieta, psicoterapia  e medicamentos com efeitos colaterais importantes, o cegamento é praticamente impossível de ser realizado, pois são características onde o participante sabe ativamente se está ou não ingerindo um determinado tipo de alimento, se está ou não realizando psicoterapia e se está ou não sentindo o efeito colateral importante. Seria tão difícil quanto tentar realizar cegamento em um estudo que compare tratamento cirúrgico com tratamento clínico, sendo que o paciente dificilmente não perceberia a diferença entre as abordagens.

C. Correta. Como explicamos acima, o cegamento serve principalmente para evitar que as subjetividades interfiram na análise dos resultados do estudo. Em análises onde essas subjetividades não consigam interferir no resultado, o cegamento torna-se menos importante.

D. Incorreta. É importante demais realizar esse processo. É justamente ele que aumenta a acurácia da análise estatística citada na alternativa.

E. Incorreta. As intervenções preventivas também são beneficiadas pelo efeito do cegamento. É o que ocorre, por exemplo, ao analisar-se os efeitos colaterais de uma vacina em teste.

Visão do aprovado: é muito importante entender os tipos de vieses que podem ocorrer nos estudos e quais são as estratégias utilizadas pelos pesquisadores para resolver esses problemas. Em algumas instituições esse é um tema muito frequente nas provas. O estudo sobre os estudos epidemiológicos não se resume a saber classificá-los!

Nível de dificuldade: difícil

Gabarito: alternativa C

E aí, o que achou das questões de Epidemiologia comentadas?

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É isso galera! Até a próxima!

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AlexandreRemor

Alexandre Remor

Nascido em 1991, em Florianópolis, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da FMUSP (HC-FMUSP) e Residência em Administração em Saúde no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Fanático por novos aprendizados, empreendedorismo e administração.