As diretrizes ESC/EAS para manejo de dislipidemias acabaram de ganhar uma atualização importante em 2025! E você, que precisa estar sempre atualizado com as melhores práticas para seus pacientes, não pode ficar de fora dessa.
A nova atualização focada das diretrizes de 2019 traz mudanças significativas que vão impactar diretamente sua prática clínica.
Por que essa atualização é tão importante? Simples: ela incorpora evidências robustas publicadas até março de 2025, refinando estratégias de avaliação de risco cardiovascular e ampliando o arsenal terapêutico disponível.
Mas antes de mergulharmos nas novidades, é importante entender o contexto: enquanto as diretrizes anteriores focaram principalmente no risco de mortalidade cardiovascular usando o algoritmo SCORE e tinham opções terapêuticas mais limitadas, a nova atualização expande significativamente nossa capacidade de predizer e tratar o risco cardiovascular total. Bora mergulhar nessas novidades juntos?
Para entender completamente o impacto dessas mudanças, precisamos olhar para trás. Antes de 2025, nossa abordagem do manejo das dislipidemias se baseava em:
Com a atualização de 2025, evoluímos para o seguinte manejo das dislipidemias:
Essa evolução não é apenas técnica, representa uma mudança de paradigma de como enxergamos e tratamos o risco cardiovascular.
A grande revolução está na implementação definitiva dos algoritmos SCORE2 e SCORE2-OP em substituição ao SCORE tradicional. Essa não é apenas uma mudança cosmética – representa uma evolução conceitual fundamental na predição de risco.
O SCORE2 é aplicado para pessoas de 40 a 69 anos, enquanto o SCORE2-OP é específico para aqueles entre 70 e 89 anos. A grande vantagem? Esses novos algoritmos estimam o risco combinado de eventos cardiovasculares fatais e não fatais em 10 anos, oferecendo uma visão mais completa do risco real do paciente.
Outra mudança importante: agora utilizamos o colesterol não-HDL em vez do colesterol total no cálculo. Isso reflete melhor a carga aterogênica real circulante.
As categorias de risco permanecem as mesmas, mas agora baseadas nos novos algoritmos:
Risco muito alto: SCORE2 ≥20% ou SCORE2-OP ≥15% Risco alto: SCORE2 10-19% ou SCORE2-OP 7.5-14% Risco moderado: SCORE2 5-9% ou SCORE2-OP 2.5-7.4% Risco baixo: SCORE2 <5% ou SCORE2-OP <2.5%
É fundamental lembrar que pacientes com doença cardiovascular estabelecida, diabetes com lesão de órgão-alvo ou doença renal crônica grave já são automaticamente classificados como de muito alto risco.
Os objetivos de LDL-colesterol permanecem inalterados desde 2019:
Porém, a novidade está nos limiares para início de farmacoterapia na prevenção primária:
Lembrando sempre: LDL-C ≥190 mg/dL define pelo menos risco alto e requer tratamento imediato!
Uma das principais novidades é a posição mais robusta do ácido bempedoico. Este inibidor da ATP-citrato liase agora é recomendado (Classe I, Nível B) para pacientes intolerantes a estatinas, baseado no estudo CLEAR Outcomes que demonstrou redução de 13% nos eventos cardiovasculares maiores.
Além disso, sua adição à dose máxima tolerada de estatina (com ou sem ezetimiba) deve ser considerada (Classe IIa, Nível C) em pacientes de alto ou muito alto risco que não atingem as metas.
Para pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigótica (HoFH) com 5 anos ou mais que não atingem as metas apesar da terapia máxima, o evinacumab – um anticorpo monoclonal contra ANGPTL3 – deve ser considerado (Classe IIa, Nível B). Este medicamento pode reduzir o LDL-C em até 50%, mesmo em casos refratários.
A atualização traz uma recomendação importante para pacientes internados por síndrome coronariana aguda: deve-se considerar o início de terapia combinada com estatina de alta intensidade mais ezetimiba durante a hospitalização para pacientes virgens de tratamento quando não se espera atingir a meta apenas com estatina (Classe IIa, Nível B).
A Lp(a) ganhou espaço importante na atualização. Níveis elevados estão fortemente associados à doença cardiovascular aterosclerótica e estenose aórtica, com risco clinicamente relevante acima de 50 mg/dL (105 nmol/L).
A medição da Lp(a) deve ser considerada pelo menos uma vez na vida adulta, especialmente em:
Pessoas vivendo com HIV ≥40 anos agora têm indicação específica para estatinas em prevenção primária, baseada no estudo REPRIEVE que demonstrou benefício cardiovascular durante cinco anos de tratamento.
A diretriz estabelece recomendações para uso de estatinas em pacientes com câncer em alto ou muito alto risco de toxicidade cardiovascular relacionada à quimioterapia, reconhecendo a cardio-oncologia como área emergente.
A atualização enfatiza o uso de modificadores de risco para reclassificar pacientes no limite das decisões terapêuticas (Classe IIa, Nível B):
A atualização também é clara sobre o que NÃO funciona: suplementos alimentares e vitaminas não são recomendados como estratégia hipolipemiante. Essa posição firme ajuda a orientar pacientes que frequentemente perguntam sobre alternativas “naturais”.
Para hipertrigliceridemia, as estatinas permanecem como primeira linha, com objetivos claros:
| Categoria de risco | Limiar para farmacoterapia | Meta LDL-C |
| Muito alto | ≥70 mg/dL | <55 mg/dL |
| Alto | ≥100 mg/dL | <70 mg/dL |
| Moderado | ≥100 mg/dL* | <100 mg/dL |
| Baixo | ≥116 mg/dL** | <116 mg/dL |
*Considerar (Classe IIa) **Considerar (Classe IIb)
Essas atualizações representam um salto qualitativo na nossa capacidade de:
Essas mudanças têm impacto direto no dia a dia:
A atualização das diretrizes ESC/EAS 2025 representa um marco na evolução do manejo das dislipidemias. Mais do que simples ajustes, estas mudanças refletem nossa crescente compreensão sobre a aterosclerose como processo dinâmico e nossa capacidade expandida de intervir de forma mais precisa e eficaz.
A transição do SCORE para SCORE2/SCORE2-OP, a incorporação de novos agentes terapêuticos como o ácido bempedoico, o reconhecimento da importância da Lp(a), e a atenção específica a populações antes negligenciadas demonstram como a cardiologia preventiva continua evoluindo.
Para nós, clínicos, isso significa ferramentas mais precisas, mais opções terapêuticas e, consequentemente, melhores desfechos para nossos pacientes. O desafio agora é integrar essas inovações em nossa prática diária, sempre mantendo o foco na individualização do cuidado.
Gostou do conteúdo? Para ficar por dentro das principais atualizações médicas, continue acompanhando nosso blog!
Fonte: 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, 2025.
Nascido em 1993, em Maringá, se formou em Medicina pela UEM (Universidade Estadual de Maringá). Residência em Medicina de Emergência pelo Hospital Israelita Albert Einstein.