Polilaminina: o que se sabe até agora sobre o tratamento experimental para lesão medular

Conteúdo / Medicina de Emergência / Polilaminina: o que se sabe até agora sobre o tratamento experimental para lesão medular

Nos últimos meses, a polilaminina voltou ao centro das discussões na medicina brasileira. A substância, que promete auxiliar na recuperação de movimentos após lesões na medula espinhal, é fruto de décadas de pesquisa acadêmica. 

O projeto é desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica brasileira Cristália, e tem como principal liderança a bióloga e professora Tatiana Coelho Sampaio, responsável por coordenar os estudos ao longo dos últimos anos.

O avanço recente ocorreu após autorização da Anvisa para o início da fase 1 de estudo clínico em humanos, marco importante na trajetória da pesquisa.

Contexto sobre a pesquisa

A investigação sobre a polilaminina começou há cerca de 30 anos. Inicialmente, os estudos concentraram-se em compreender o papel da laminina, proteína presente no organismo humano, na regeneração neural. A partir desse conhecimento, pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório uma estrutura semelhante, chamada polilaminina.

Os estudos pré-clínicos envolveram experimentos in vitro e em modelos animais, com resultados considerados promissores na recuperação de movimentos após lesão medular. Casos experimentais em humanos também foram divulgados, embora fora do contexto de ensaios clínicos randomizados.

O que é a polilaminina

A laminina é uma proteína fundamental no desenvolvimento embrionário do sistema nervoso, formando uma espécie de “malha” que orienta o crescimento dos neurônios. A polilaminina é uma forma sintetizada dessa proteína, produzida em laboratório a partir de derivados placentários.

A hipótese científica é que essa substância possa recriar um ambiente favorável para que neurônios lesionados estabeleçam conexões interrompidas.

Como funciona o tratamento

O tratamento consiste na aplicação única da substância na área da lesão medular, geralmente associada a procedimento cirúrgico. Após a administração, o paciente segue com reabilitação intensiva.

Estudos sugerem que a intervenção precoce, idealmente nas primeiras horas após o trauma, pode aumentar as chances de resposta clínica.

Estudos experimentais

Em estudos experimentais, cerca de 10 pacientes conseguiram recuperar movimentos após o uso da substância. Entre os casos divulgados está o de um jovem de 31 anos que sofreu trauma em acidente de trânsito, uma mulher de 27 anos vítima de queda e Bruno Drummond de Freitas, que recebeu o tratamento 24 horas após um acidente de carro que causou extensa lesão medular. No caso de Bruno, houve recuperação completa dos movimentos.

Além dos relatos em humanos, também foram realizados testes em animais com lesões graves. Em um dos estudos, 4 dos 6 cães tratados apresentaram recuperação dos movimentos.

O que a Anvisa autorizou

Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde e a Anvisa anunciaram a aprovação do estudo clínico de fase 1. Esta etapa tem como principal objetivo avaliar a segurança da substância.

O estudo envolverá cinco pacientes voluntários, com lesões medulares torácicas agudas, submetidos à intervenção em até 72 horas após o trauma. Apenas após a conclusão dessa fase será possível avançar para estudos maiores que avaliem a eficácia.

Debates e pontos de cautela

Apesar do entusiasmo, especialistas alertam que ainda é cedo para classificar a polilaminina como tratamento revolucionário. A fase 1 não avalia eficácia, mas sim segurança. Ainda não existem estudos clínicos cegos, controlados e randomizados comprovando benefício clínico definitivo para a população geral.

A trajetória da polilaminina representa um marco importante para a pesquisa científica brasileira e reacende a esperança no tratamento de lesões medulares, uma das condições mais desafiadoras da neurologia. 

Os resultados preliminares são animadores, mas o caminho até a comprovação definitiva de segurança e eficácia ainda exige etapas rigorosas, transparência e tempo.

Quer continuar por dentro das principais atualizações sobre inovação médica, pesquisas promissoras e o que realmente muda na prática clínica? Acompanhe o blog! 

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
Igor Alves

Igor Alves

Paraense, pai de pet e professor da Medway. Formado pela Universidade do Estado do Pará, Residência em Clínica Médica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Siga no Instagram: @igor.medway