Amenorreia: conheça o quadro clínico e o tratamento

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Conteúdo atualizado em: 14/05/2026 – A amenorreia é definida como a ausência de menstruação e deve sempre ser encarada como um sinal clínico, não um diagnóstico. Sua investigação é essencial, pois pode refletir desde condições fisiológicas até doenças endócrinas, genéticas ou estruturais relevantes.

Situações como gestação, lactação e uso de métodos hormonais contínuos podem justificar amenorreias fisiológicas e/ou iatrogênicas, mas, na ausência dessas condições, a investigação é mandatória.

Definição da Amenorreia

Amenorreia primária

  • Ausência de menarca
  • Critérios:
    – 13 anos sem caracteres sexuais secundários
    – 15 anos com caracteres sexuais secundários
    – Ausência de menstruação até 3 anos após telarca

Amenorreia secundária

  • Ausência de menstruação após menarca
  • Critérios:
    – ≥ mais de 3 meses em mulheres com ciclos regulares
    – ≥ 6 meses em mulheres com ciclos irregulares

Fisiopatologia da Amenorreia

Do ponto de vista fisiopatológico, a amenorreia geralmente resulta de alterações no eixo hipotálamo-hipófise-ovário, conhecido como eixo HHO, ou de alterações anatômicas no trato genital. 

Entre os principais mecanismos envolvidos estão o hipogonadismo hipogonadotrófico, de origem central, o hipogonadismo hipergonadotrófico, relacionado a falência ovariana, a anovulação crônica e as alterações estruturais que impedem a saída do fluxo menstrual.

Etiologia da Amenorreia

As causas variam conforme o tipo de amenorreia. As etiologias se diferenciam em causas anatômicas, causas gonadais, endócrinas e centrais. 

Amenorreia primária

Causas anatômicas

  • Hímen imperfurado
  • Septo vaginal transverso
  • Síndrome de Rokitansky (46,XX, ausência de útero)
  • Síndrome de Morris (46,XY, insensibilidade androgênica)

Causas gonadais

  • Síndrome de Turner (45,X0)
  • Disgenesia gonadal

Causas endócrinas

Amenorreia secundária

Causas anatômicas

  • Síndrome de Asherman
  • Estenose cervical

Causas ovarianas

Causas centrais

  • Hiperprolactinemia
  • Síndrome de Sheehan
  • Estresse, anorexia, exercício excessivo

Vamos agora chamar a atenção para algumas das entidades etiológicas que mais são cobradas em provas e na prática clínica!

Síndrome de Morris

A paciente tem genoma masculino (Cariótipo 46, XY) mas o corpo dela não responde aos hormônios “masculinos” (andrógenos). A consequência disso é o cariótipo masculino, presença de testículos intrapélvicos, genitália externa feminina, ausência de pelos pubianos e desenvolvimento de mamas normal. 

A maior parte das pacientes descobre só quando chega na adolescência, já tem mamas desenvolvidas, mas não tem pêlos pubianos ou axilares e também não menstrua.

Síndrome de Rokitansky

Aqui a paciente tem cariótipo feminino (46, XX), tem genitália externa feminina porém não desenvolve útero e nem terço superior da vagina. 

Ela apresenta pêlos pubianos e axilares normalmente e tem desenvolvimento das mamas normal.

Hiperplasia adrenal congênita

Aqui o corpo não tem uma das enzimas importantes para produzir de cortisol e aldosterona, isso aumenta muito a produção de testosterona, o que causa sintomas de hiperandrogenismo. Cursa com clitoromegalia, hirsutismo, acne e disfunção ovariana.

Existem 3 apresentações:

  1. Perdedora de sal: o paciente não tem atividade enzimática. Quadro grave, geralmente diagnosticado em situação de urgência 1-4 semanas após o nascimento. Cursa com desidratação, hiponatremia, hipercalcemia, hipotensão e hipoglicemia. Amenorreia primária e genitália ambígua.
  2. Virilizante simples: as enzimas funcionam um pouquinho. Hiperandrogenismo + genitália ambígua. Causa amenorreia primária.
  3. Não clássica: as enzimas funcionam parcialmente. Hiperandrogenismo com genitália externa feminina.

Síndrome de Turner

Paciente com cariótipo 45,X0. Baixa estatura, pescoço alado, infantilismo sexual, baixa implantação de cabelo na região da nuca, mamas pouco desenvolvidas. Ao exame de imagem os ovários são rudimentares, “ovários em fita”. Pode cursar com amenorreia primária ou secundária.

Hiperprolactinemia

Pode cursar com amenorreia primária ou secundária. A paciente pode apresentar galactorreia, ressecamento vaginal, disfunção sexual e redução da densidade mineral óssea, associados a irregularidade menstrual. A tríade clássica é galactorreia, amenorreia e infertilidade.

As causas:

Principal: prolactinomas (adenomas de hipófise produtores de prolactina). Importante que eles podem cursar com sintomas visuais. Quando afetam o quiasma óptico podem causar principalmente perda visual dos campos periféricos.

  • Macroadenomas: >1 cm.
  • Microadenomas: <1 cm.

Outras causas:

  • Secundário a medicamentos: antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoaminoxidase,  antipsicóticos típicos e alguns antipsicóticos atípicos
  • Lesões infiltrativas, vasculares, hipotireoidismo primário, pós-radioterapia e sela vazia também podem causar hiperprolactinemia. 

Síndrome de Asherman (Sinéquias uterinas)

A paciente vai ter cólicas, porém a menstruação não é exteriorizada. Geralmente  é sequela de curetagem uterina. As paredes internas do útero estão “grudadas” uma nas outras e isso impede a menstruação de exteriorizar. Diagnóstico padrão ouro é com histeroscopia.

Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)

A associação entre amenorreia/irregularidade menstrual, hiperandrogenismo e ovários policísticos ao ultrassom! 

Lembre-se: o diagnóstico é dado através da presença 2 desses 3 critérios.

Síndrome de Sheehan

Isquemia hipofisária causando pan-hipopituitarismo. Na história a paciente vai relatar hemorragia pós-parto importante e início dos sintomas após esse episódio.

Quadro clínico da Amenorreia

A avaliação clínica deve ser sempre detalhada, pois alguns sinais e sintomas associados ajudam a direcionar o diagnóstico. Dor pélvica cíclica pode sugerir obstrução do trato de saída; galactorreia levanta suspeita de hiperprolactinemia; hirsutismo e acne apontam para hiperandrogenismo; fogachos indicam hipoestrogenismo; e anosmia é sugestiva da síndrome de Kallmann. 

Achados específicos, como ausência de pelos pubianos, baixa estatura com dismorfismos ou genitália ambígua, também são pistas importantes para diagnósticos específicos.

Algumas correlações clínicas e etiológicas

  • Dor pélvica cíclica → obstrução do trato de saída
  • Galactorreia → hiperprolactinemia
  • Hirsutismo/acne → hiperandrogenismo
  • Fogachos → hipoestrogenismo
  • Anosmia → síndrome de Kallmann

Achados direcionadores

  • Ausência de pelos pubianos → síndrome de Morris
  • Baixa estatura + dismorfismos → Turner
  • Genitália ambígua → hiperplasia adrenal congênita

Diagnóstico da Amenorreia

O diagnóstico deve seguir uma sequência lógica, sendo a exclusão de gestação o primeiro passo obrigatório em qualquer caso de amenorreia em idade reprodutiva. Em seguida, realiza-se a avaliação hormonal inicial com dosagens de FSH, LH, prolactina e TSH. 

A interpretação desses exames fornece pistas valiosas: níveis elevados de FSH sugerem falência ovariana, enquanto níveis baixos indicam origem central; prolactina elevada exige investigação de prolactinoma; e alterações no TSH indicam disfunção tireoidiana.

Interpretação clínica da Amenorreia

  • FSH alto → falência ovariana
  • FSH baixo → causa central
  • Prolactina elevada → investigar prolactinoma
  • TSH alterado → disfunção tireoidiana

Os exames de imagem também têm papel fundamental. A ultrassonografia pélvica permite avaliar a anatomia uterina e ovariana, enquanto a ressonância magnética da sela túrcica é indicada principalmente nos casos de hiperprolactinemia. 

Exames adicionais, como cariótipo ou histeroscopia, podem ser necessários conforme a suspeita clínica.

Tratamento da Amenorreia

O tratamento da amenorreia é geralmente direcionado à causa de base. Na hiperprolactinemia, utilizam-se agonistas dopaminérgicos como cabergolina ou bromocriptina. 

Na SOP, o manejo envolve mudanças no estilo de vida, contraceptivos hormonais e, em alguns casos, metformina. 

Disfunções tireoidianas são tratadas com reposição hormonal adequada, como a levotiroxina no hipotireoidismo. A hiperplasia adrenal congênita pode exigir uso de corticosteroides. 

Já as causas anatômicas frequentemente necessitam de correção cirúrgica, enquanto a falência ovariana prematura demanda terapia hormonal.

Conclusão

A amenorreia exige abordagem sistemática baseada no eixo HHO e na anatomia do trato reprodutivo. A identificação da causa é essencial para direcionar o tratamento, prevenir complicações e orientar fertilidade.

Por fim, é essencial lembrar que a amenorreia não é apenas um sintoma isolado, mas pode estar associada a consequências significativas, como infertilidade, osteoporose e alterações metabólicas. Por isso, uma abordagem sistemática e bem estruturada é fundamental para o diagnóstico correto, tratamento adequado e orientação reprodutiva das pacientes.

Referências

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Daniela Simões Simonian

Daniela Simões Simonian

Graduada em Medicina pela PUC Campinas. Realizou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição e se subespecializou em Medicina Fetal pela USP-RP.