Cuidados paliativos na mídia: o que realmente sabemos sobre isso?

Conteúdo / Medicina de Emergência / Cuidados Paliativos, Terminalidade e Processo Ativo de Morte: Conceitos e Kalotanásia

Na área da saúde, o assunto de Cuidados Paliativos têm sido cada vez mais presente. Afinal, existe “paciente paliativo”? Cuidado paliativo é “quando não tem mais o que fazer?” A suspensão da quimioterapia, significa o início de cuidados paliativos? 

Vamos responder a essas perguntas e claro, embasar o conhecimento sobre esse assunto tão em voga! 

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O que são, afinal, Cuidados Paliativos (CP)?

O conceito mais atual da Organização Mundial de Saúde (OMS, 2018) define Cuidados Paliativos como a abordagem que busca a qualidade de vida para pacientes e seus familiares, que enfrentam comorbidades ameaçadoras a vida. 

O foco principal do Cuidados Paliativos é a prevenção e o alívio do sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação precisa e tratamento da dor e outras condições. A atuação é integral, englobando as necessidades:

  • Físicas (Controle de dor, náuseas, dispneia).
  • Psicossociais (Apoio emocional, manejo da ansiedade).
  • Espirituais (Suporte existencial).

O grande objetivo dos Cuidados Paliativos é promover a melhor qualidade de vida possível até o momento da morte.

CP não é “quando não há mais o que fazer”

Existe um mito comum no meio da saúde de que os Cuidados Paliativos seriam o início de um tratamento apenas quando a doença já está em fase avançada e não há mais opções curativas. Isso está incorreto.

A abordagem paliativa deve ser integrada precocemente no curso da doença que ameaça a vida, em conjunto com outras terapias que visam prolongar a vida, como quimioterapia, radioterapia ou hemodiálise.

Importante: A suspensão de um tratamento específico para a doença (como a quimioterapia) não significa, automaticamente, o início dos Cuidados Paliativos, mas sim uma adequação terapêutica conforme a evolução clínica do paciente. Conforme a doença avança e não há mais terapia modificadora de seu curso, a lógica do cuidado se volta a promover qualidade e dignidade no fim de vida, de acordo com os desejos e valores do paciente e de sua família.

Vale ressaltar que os Cuidados Paliativos não terminam na morte do paciente, dado que o cuidado envolve também a família e o processo de luto.

Cuidados paliativos e cuidados curativos. Fonte: Apostila Medway
Cuidados paliativos e cuidados curativos. Fonte: Apostila Medway

Terminalidade e processo ativo de morte 

A terminalidade ou fase final de vida é a etapa em que a morte é inevitável e está próxima, geralmente com expectativa de vida limitada a semanas ou meses, variando de acordo com o curso natural de cada doença. .

É crucial entender a diferença entre cuidados paliativos e terminalidade:

  • Cuidados Paliativos: Começam no diagnóstico de qualquer doença grave que ameace a vida, englobando a fase final da doença (terminalidade) e o luto após a morte.
  • Terminalidade: Refere-se especificamente à última fase da vida, nas ultimas semanas a meses, onde o foco se torna quase exclusivamente o conforto dado que  intervenções curativas ou de prolongamento da vida não são mais apropriadas ou desejadas.

Ademais, não confunda terminalidade com processo ativo de morte:

  • Processo ativo de morte: Refere-se às últimas horas a dias de vida, quando ocorrem uma série de mudanças fisiológicas e metabólicas que antecedem e acompanham o falecimento do paciente.

Portanto, a principal diferença é que a terminalidade abrange um período mais amplo, geralmente de meses, enquanto a fase final de vida refere-se aos últimos dias ou horas. Essa distinção é importante para o planejamento dos cuidados, comunicação com a família e tomada de decisões clínicas.

Processo ativo de morte: sinais clínicos

O processo ativo de morte é o estágio onde o corpo inicia o declínio final. O médico deve reconhecer e acolher os sinais clínicos, que incluem:

  • Alterações neurológicas:Piora progressiva do nível de consciência.Pupilas não reativas.
  • Diminuição ou suspensão da ingestão de alimentos e líquidos. Sialorréia.
  • Alterações respiratórias (respiração de Cheyne-Stokes, sororoca/gasping).
  • Alterações circulatórias (pele fria, cianose, hipotensão, pulso radial ausente, redução da diurese).

Vale ressaltar que nesta fase não está mais indicada coleta de exames, pois não alterarão nossa conduta. Logo não há um parâmetro laboratorial para acompanhar este processo.

O manejo desta fase busca o ótimo controle de sintomas e desconfortos, com medidas farmacológicas (ex:uso de morfina para controle de dor e dispneia) e não farmacológicas (ex:posicionamento adequado no leito para aliviar sororoca) garantindo a dignidade do paciente.

O conceito de Kalotanásia

O termo Kalotanásia se refere à morte digna ou “boa morte”.

Diferentemente da eutanásia (ato de antecipar a morte) ou da distanásia (prolongamento fútil da vida), a kalotanásia busca o equilíbrio. Ela assegura que o processo ativo de morte ocorra no seu tempo natural, com o máximo conforto possível, evitando a obstinação terapêutica e o sofrimento desnecessário.

A quem beneficia e a abordagem multidisciplinar?

A abordagem dos Cuidados Paliativos beneficia o paciente e sua família, e deve ser aplicada em todos os níveis de atenção à saúde, desde a atenção primária até a alta complexidade.

A prática é responsabilidade de toda a equipe de saúde, que deve ter um treinamento básico adequado. Casos mais complexos ou especializados devem ser conduzidos por equipe especializada em medicina paliativa, que é essencialmente multidisciplinar, envolvendo:

  • Médicos
  • Enfermeiros
  • Psicólogos
  • Nutricionistas
  • Farmacêuticos
  • Assistentes sociais
  • Outros profissionais de saúde

A prática de CP consiste em cuidar de forma integral do paciente e família, utilizando recursos diagnósticos e terapêuticos sempre de forma proporcional à fase da doença e aos desejos do paciente, evitando medidas fúteis e que potencialmente tragam sofrimento.

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A Redação

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