Defeitos do tubo neural: causas, prevenção e manifestações clínicas

Conteúdo / Medicina de Emergência / Defeitos do tubo neural: causas, prevenção e manifestações clínicas

Os defeitos do tubo neural (DTN) constituem um grupo de malformações congênitas graves que acometem o sistema nervoso central e resultam de falhas no fechamento do tubo neural durante o desenvolvimento embrionário inicial. 

São condições de grande relevância clínica, epidemiológica e social, pois estão associadas a elevada morbimortalidade, impacto funcional ao longo da vida e importantes implicações para o aconselhamento pré-natal. 

Compreender os mecanismos, fatores de risco, estratégias de prevenção e manifestações clínicas dos DTN é fundamental tanto para a prática clínica quanto para a formação em obstetrícia, pediatria e genética médica.

Formação do tubo neural: bases embriológicas

O tubo neural se origina a partir da ectoderme embrionária, durante o processo de neurulação, que ocorre muito precocemente na gestação, entre a 3ª e a 4ª semana após a concepção (aproximadamente entre o 22º e o 28º dia pós-fertilização). Nesse período, a placa neural sofre invaginação e fechamento progressivo, formando o tubo neural, que dará origem ao cérebro e à medula espinhal.

O fechamento do tubo neural inicia-se na região cervical e progride simultaneamente em direção cranial e caudal. O fechamento completo das extremidades, chamadas de neuroporo cranial e neuroporo caudal, é essencial para o desenvolvimento normal do sistema nervoso central. A falha nesse processo, em qualquer ponto, resulta nos defeitos do tubo neural.

Esse aspecto embriológico explica por que a prevenção deve ocorrer antes da gestação ou nas primeiras semanas, muitas vezes antes mesmo de a mulher saber que está grávida.

O que são os defeitos do tubo neural?

Os defeitos do tubo neural são malformações estruturais do cérebro, da medula espinhal ou de ambos, decorrentes do fechamento incompleto do tubo neural. Eles variam amplamente em gravidade, desde condições incompatíveis com a vida até formas mais leves, compatíveis com sobrevida prolongada, porém frequentemente associadas a sequelas neurológicas.

De acordo com descrições clássicas e revisões modernas, os principais DTN incluem:

  • Anencefalia
  • Espinha bífida (nas formas aberta e fechada)
  • Encefalocele

Essas malformações podem ocorrer isoladamente ou associadas a outras anomalias congênitas.

Principais tipos de defeitos do tubo neural

Anencefalia

A anencefalia resulta da falha de fechamento do neuroporo cranial. Nessa condição, há ausência parcial ou total do cérebro e da calota craniana. O tecido cerebral remanescente é rudimentar e não funcional.

Clinicamente, trata-se de uma malformação letal, sendo incompatível com a vida extrauterina. A maioria dos fetos evolui para óbito intrauterino ou falece poucas horas ou dias após o nascimento.

No pré-natal, a anencefalia pode ser diagnosticada precocemente por ultrassonografia, já no primeiro trimestre, pela ausência de estruturas cranianas e pela exposição do tecido neural.

Espinha bífida

A espinha bífida decorre da falha de fechamento do neuroporo caudal e é o defeito do tubo neural mais frequente entre os recém-nascidos vivos.

Ela pode ser classificada em duas grandes categorias:

Espinha bífida aberta

Caracteriza-se pela exposição do tecido neural, sem cobertura adequada por pele ou osso. As principais formas são:

  • Mielomeningocele: protrusão da medula espinhal e das meninges através de um defeito ósseo da coluna vertebral. É a forma mais grave e clinicamente relevante.
  • Meningocele: protrusão apenas das meninges, sem envolvimento direto da medula.
Espinha bífida aberta
Fonte imagem: Fetali – Medicina Fetal e Ultrassonografia (https://fetali.com.br/mielomeningocele-ou-espinha-bifida/)

A mielomeningocele está frequentemente associada a outras alterações do sistema nervoso central, como a malformação de Chiari II, pé torto congênito e a ventriculomegalia cerebral.

Espinha bífida fechada

Também chamada de espinha bífida oculta, apresenta defeito ósseo coberto por pele. São exemplos: lipomielocele, lipoma do filum terminale, diastematomielia. Pode estar associada a alterações cutâneas locais, como tufos de pelos, hemangiomas ou lipomas.

Encefalocele

A encefalocele é caracterizada pela herniação de tecido cerebral e meninges através de um defeito ósseo do crânio. Pode ocorrer em diferentes localizações, sendo mais comum na região occipital.

Encefalocele
Fonte imagem: Dr. Marcos Devanir Silva da Costa (https://drmarcosdevanir.com.br/encefalocele-o-que-e-e-possibilidades-de-tratamento-cirurgico/)

A gravidade clínica depende da quantidade de tecido neural herniado e das estruturas envolvidas. Diferentemente da anencefalia, algumas encefaloceles são compatíveis com sobrevida, embora frequentemente associadas a déficits neurológicos.

Causas e fatores de risco

Os defeitos do tubo neural têm etiologia multifatorial, envolvendo fatores genéticos e ambientais. Entre os principais fatores de risco descritos na literatura, destacam-se:

  • Deficiência de ácido fólico
  • História prévia de feto com DTN
  • Diabetes mellitus materno
  • Obesidade materna
  • Uso de medicamentos anticonvulsivantes (especialmente ácido valproico e carbamazepina)
  • Exposição a hipertermia no início da gestação
  • Fatores genéticos e polimorfismos relacionados ao metabolismo do folato

Entre todos esses fatores, a deficiência de ácido fólico é, comprovadamente, o mais relevante e modificável.

Prevenção dos defeitos do tubo neural

Papel do ácido fólico

A suplementação de ácido fólico é a principal estratégia de prevenção dos DTN. O ácido fólico atua no metabolismo dos nucleotídeos e na metilação do DNA, processos essenciais para a divisão celular e o fechamento adequado do tubo neural.

Estudos populacionais demonstram que a suplementação adequada pode reduzir em até 70% a incidência dos defeitos do tubo neural.

As recomendações mais aceitas incluem:

  • Mulheres em idade fértil: 0,4 mg (400 mcg) de ácido fólico por dia
  • Mulheres com alto risco (história prévia de DTN, uso de anticonvulsivantes, diabetes): doses mais elevadas, geralmente 4 a 5 mg/dia, iniciadas antes da concepção

É fundamental enfatizar que a suplementação deve começar antes da gravidez, idealmente pelo menos três meses antes da concepção, e ser mantida até o final do primeiro trimestre. Nos casos com alto risco, iniciar a prevenção 6 meses antes da gravidez. 

Fortificação alimentar

Além da suplementação individual, a fortificação obrigatória de alimentos com ácido fólico, adotada em diversos países, incluindo o Brasil, contribuiu significativamente para a redução da incidência de DTN na população geral.

Diagnóstico pré-natal

O diagnóstico pré-natal dos defeitos do tubo neural é um dos grandes avanços da medicina fetal. Ele pode ser realizado por meio de:

  • Ultrassonografia obstétrica
  • Ressonância magnética fetal em casos selecionados

A ultrassonografia morfológica do segundo trimestre é a principal ferramenta de rastreamento. Achados indiretos, como o sinal do limão e da banana na mielomeningocele, são amplamente descritos em manuais de imagem obstétrica.

Cirurgia intrauterina fetal nos defeitos de fechamento do tubo neural

O avanço da medicina fetal nas últimas décadas permitiu o desenvolvimento da cirurgia intrauterina fetal como opção terapêutica para casos selecionados de defeitos de fechamento do tubo neural, especialmente a mielomeningocele aberta.

Essa abordagem representa uma mudança de paradigma, pois busca tratar a malformação antes do nascimento, reduzindo danos neurológicos progressivos que ocorrem ao longo da gestação.

Cirurgia intrauterina fetal nos defeitos de fechamento do tubo neural
Fonte imagem: Dr. José Aloysio – Neurocirurgião Pediátrico (http://josealoysio.com.br/index.php/como-posso-ajudar/cirurgia-fetal/)

Indicações da cirurgia intrauterina fetal

A cirurgia fetal não é indicada para todos os defeitos do tubo neural, sendo restrita a casos criteriosamente selecionados. As principais indicações incluem:

  • Mielomeningocele aberta
  • Defeito localizado entre T1 e S1
  • Idade gestacional geralmente entre 19 e 26 semanas
  • Presença de malformação de Chiari II e ventriculomegalia cerebral
  • Função cardíaca fetal normal

É importante reforçar que anencefalia, encefalocele extensa e espinha bífida fechada não são indicações para cirurgia intrauterina.

Principais contraindicações

As contraindicações podem ser divididas em fetais, maternas e obstétricas.

Contraindicações fetais

  • Aneuploidias ou síndromes genéticas
  • Outras malformações graves associadas
  • Cifose fetal acentuada
  • Hidrocefalia severa já estabelecida
  • Mielomeningocele muito extensa ou com ruptura complexa

Contraindicações maternas

  • Doenças que aumentem risco cirúrgico (cardiopatias, pneumopatias graves)
  • Infecções ativas
  • Índice de massa corporal extremamente elevado
  • Histórico de parto prematuro 
  • Alterações uterinas significativas e cicatrizes uterinas

Contraindicações obstétricas

  • Placenta prévia
  • Insuficiência cervical significativa
  • Gestação múltipla
  • Rotura prematura de membranas

A seleção inadequada aumenta significativamente o risco materno-fetal e compromete os benefícios da cirurgia.

Benefícios comprovados da cirurgia intrauterina

Estudos comparativos entre cirurgia pré-natal e pós-natal demonstraram benefícios importantes da abordagem intrauterina, entre eles:

  • Redução da necessidade de derivação ventriculoperitoneal
  • Melhora da função motora dos membros inferiores
  • Redução da gravidade da malformação de Chiari II
  • Maior chance de deambulação independente
  • Melhores desfechos neurológicos a médio prazo

Esses benefícios reforçam que a cirurgia fetal não é apenas corretiva, mas modificadora do curso natural da doença.

Conclusão

Os defeitos do tubo neural representam um importante problema de saúde pública, com impacto significativo para o indivíduo, a família e o sistema de saúde. Para o estudante de medicina, dominar esse tema envolve compreender a embriologia, reconhecer fatores de risco, valorizar a prevenção com ácido fólico e identificar as principais manifestações clínicas.

Mais do que um conteúdo teórico, os DTN reforçam a importância do cuidado pré-concepcional, da atenção básica e da integração entre obstetrícia, pediatria, genética e medicina fetal. A prevenção adequada continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir a incidência dessas malformações potencialmente devastadoras.

Referências utilizadas

  • Manual MSD – Defeitos do tubo neural e espinha bífida.
  • Woodward PJ, Kennedy A, Sohaey R et al. Diagnostic Imaging: Obstetrics. 4ª ed. Elsevier, 2021 [LIVRO] Woodward – Diagnostic I…
  • Organização Mundial da Saúde. Guidelines on folic acid supplementation.

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
Daniela Simões Simonian

Daniela Simões Simonian

Graduada em Medicina pela PUC Campinas. Realizou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição e se subespecializou em Medicina Fetal pela USP-RP.