Desnutrição infantil: diagnóstico, classificação e tratamento dietético

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A desnutrição infantil é um importante problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento, e está associada a aumento da morbimortalidade, imunossupressão, prejuízo no crescimento e no desenvolvimento neuropsicomotor. 

Reconhecer precocemente essa condição é fundamental tanto para o manejo clínico quanto para o desempenho em provas de residência médica.

Na prática, trata-se de um tema recorrente nas provas e que exige domínio não apenas de conceitos, mas também na abordagem diagnóstica e terapêutica. 

Vamos revisar os principais aspectos da desnutrição infantil, incluindo avaliação antropométrica, classificação, diagnóstico e as fases do tratamento hospitalar

O que é desnutrição infantil? 

A desnutrição infantil é definida como um estado resultante da ingestão insuficiente de nutrientes (causa primária) ou da incapacidade do organismo em utilizá-los adequadamente (causa secundária), levando a prejuízos no crescimento e no desenvolvimento.

Embora o termo desnutrição também possa abranger distúrbios relacionados ao excesso nutricional, como sobrepeso e obesidade, neste contexto o foco será a subnutrição.

A principal classificação, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é a divisão em:  

  • Aguda (Wasting): relacionada exclusivamente à perda de peso
  • Crônica (Stunting): associada ao comprometimento da estatura 

Como diagnosticar a desnutrição infantil? 

O diagnóstico é baseado na associação de: Avaliação antropométrica, exame físico e a história clínica e alimentar 

Os principais índices de avaliação utilizados são: 

  • Peso para idade (P/I) Classificação de Gomez 
  • Estatura para idade (E/I) Classificação de Gomez-Waterlow 
  • Circunferência do Braço
  • Peso para estatura (P/E): 
Fonte: World Health Organization
  • IMC para idade

Z-score < -2: Magreza 

Z-score < -3: Magreza Acentuada 

 A OMS classifica da seguinte forma:

  • Crianças de 6 a 59 meses
Desnutrição Aguda Moderadacircunferência do braço entre 115 a 124 mmpeso para estatura (P/E) entre o escore Z -2 e -3.
Desnutrição Aguda Gravecircunferência do braço menor que 115 mmpeso para estatura (P/E) menor que escore Z -3, presença de edema. 
Desnutrição Crônica (Parada do crescimento) nanismo moderado (estatura ou comprimento entre o escore Z -2 e -3) nanismo grave (estatura ou comprimento menor que escore Z -3).
  • Crianças > 59 meses:  Índice de Massa Corpórea (IMC). 

Apresentações clínicas de desnutrição infantil:

Marasmo

O marasmo está relacionado à deficiência global de energia e nutrientes, resultando em um estado de desnutrição calórico-proteica grave.

Caracteriza-se por:

  • Perda ponderal importante
  • Redução acentuada do tecido adiposo e da massa muscular
  • Atrofia muscular e subcutânea, conferindo aspecto de emagrecimento extremo
  • Fácies senil (“aspecto de velho”)
  • Ausência de edema
Marasmo - apresentação clínica de desnutrição infantil
Fonte: Zitelli and Davis’ Atlas of Pediatric Physical Diagnosis, 8th edition

Kwashiorkor 

Está associado principalmente à deficiência proteica, levando à redução da síntese de proteínas plasmáticas, especialmente a albumina. Como consequência, ocorre diminuição da pressão oncótica, favorecendo o extravasamento de líquido para o interstício e resultando em edema.

Caracteriza-se por: 

  • Edema (principal marcador clínico) 
  • Preservação relativa do tecido subcutâneo 
  • Alterações cutâneas e capilares (dermatose e despigmentação dos cabelos)
  • Hepatomegalia (por infiltração gordurosa)
  • Apatia e Irritabilidade 
Kwashiorkor - apresentação clínica de desnutrição infantil
Fonte: Zitelli and Davis’ Atlas of Pediatric Physical Diagnosis, 8th edition

Tratamento para desnutrição infantil

O tratamento da desnutrição infantil, especialmente nos casos graves, deve seguir etapas bem definidas. 

Fase 1: Estabilização 

Objetivo: tratar complicações agudas e reduzir o risco imediato de mortalidade.

Essa fase geralmente dura cerca de 5 a 7 dias.

Principais condutas: 

  • Correção de hipoglicemia 
  • Correção de hipotermia 
  • Tratamento de infecções 
  • Correção de distúrbios hidroeletrolíticos 
  • Início de dieta com baixa osmolaridade e baixa carga proteica
  • Dieta hipocalórica até tornar normocalórica em uma meta de 100 Kcal/Kg/dia 

Atenção à síndrome da realimentação:

A reintrodução da alimentação, especialmente de forma rápida, estimula a liberação de insulina, promovendo o deslocamento intracelular de eletrólitos. 

Esse processo pode levar a distúrbios hidroeletrolíticos importantes, como:

  • Hipofosfatemia (alteração mais comum)
  • Hipocalemia
  • Hipomagnesemia

Essas alterações podem resultar em complicações graves, incluindo insuficiência cardíaca, arritmias e disfunção neurológica.

Além disso, a deficiência de tiamina, associada ao aumento do metabolismo da glicose, pode levar à síndrome de Wernicke-Korsakoff.

Fase 2: Reabilitação 

Objetivo: promover a recuperação nutricional e o ganho ponderal adequado. 

Principais condutas

  • Aumento progressivo da oferta calórica
  • Introdução de dieta hipercalórica (ex: fórmula F-100)
  • Estímulo ao ganho ponderal

Fase 3: Acompanhamento

Objetivo: prevenir recaídas e garantir a manutenção da recuperação nutricional.

Principais condutas

  • Educação nutricional da família
  • Monitoramento contínuo do crescimento e desenvolvimento
  • Avaliação de fatores sociais e ambientais associados

Desnutrição infantil nas provas de residência

A desnutrição infantil é um tema frequente nas provas de residência médica, com alguns pontos clássicos que devem ser lembrados:

  • Edema → pensar em kwashiorkor
  • Z-score < -3 → desnutrição grave (magreza acentuada)
  • Peso/estatura → melhor indicador de desnutrição aguda
  • Tratamento estruturado em três fases (estabilização → reabilitação → acompanhamento) 

Fique atento: muitas questões exploram a diferenciação entre Marasmo e Kwashiorkor, além das condutas iniciais no manejo da desnutrição grave.

Conclusão

A desnutrição infantil é uma condição de grande relevância tanto na prática clínica quanto nas provas médicas. Seu reconhecimento precoce, associado a uma abordagem estruturada e baseada em protocolos, é fundamental para reduzir complicações e melhorar o prognóstico dos pacientes.

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Júlia Borges Camargo

Júlia Borges Camargo

Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Atualmente é residente de Pediatria pelo Hospital Sírio-Libanês (HSL).