Conteúdo atualizado em: 12/05/2026 – O diagnóstico da síndrome vestibular aguda é uma etapa crítica na emergência, porque uma queixa aparentemente inespecífica de tontura pode representar desde uma neurite vestibular até um AVC de circulação posterior.
A principal armadilha é tratar toda tontura como vertigem periférica benigna. Em pacientes com vertigem contínua, náuseas, vômitos, nistagmo e instabilidade de marcha, a prioridade é diferenciar causa periférica de causa central.
Na prática clínica e em provas, o ponto central é reconhecer quando aplicar o HINTS, interpretar seus achados corretamente e saber quando acionar protocolo de AVC, solicitar neuroimagem e manter o paciente em observação.
Síndrome vestibular aguda é um quadro de início agudo, com vertigem ou tontura persistente, geralmente acompanhada de náuseas, vômitos, nistagmo, intolerância ao movimento cefálico e instabilidade postural.
O quadro costuma durar horas a dias e está presente no momento da avaliação.
As duas principais hipóteses no primeiro episódio de síndrome vestibular aguda são:
A síndrome vestibular aguda deve ser diferenciada de quadros episódicos e desencadeados, como vertigem posicional paroxística benigna, doença de Ménière, migrânea vestibular, síncope, pré-síncope e causas metabólicas.
O equilíbrio depende da integração entre sistema vestibular periférico, tronco encefálico, cerebelo, visão e propriocepção.
A vertigem ocorre quando há assimetria entre os sinais vestibulares direito e esquerdo ou quando há lesão em vias centrais responsáveis por processar esses sinais.
O sistema vestibular periférico inclui:
Lesões periféricas produzem assimetria vestibular, gerando vertigem intensa, náuseas, vômitos, nistagmo e instabilidade. A neurite vestibular é o exemplo clássico.
As estruturas centrais envolvidas incluem:
Lesões centrais, especialmente isquemia ou hemorragia em circulação posterior, podem simular uma vestibulopatia periférica.
O risco é maior em lesões envolvendo:
A circulação posterior irriga tronco encefálico, cerebelo, tálamo, lobos occipitais e parte dos lobos temporais.
Quando a lesão acomete regiões vestibulares centrais ou cerebelares, o paciente pode apresentar vertigem, náuseas, vômitos e ataxia sem hemiparesia, afasia ou sinais corticais típicos.
Por isso, ausência de déficit motor ou alteração de fala não exclui AVC de circulação posterior.
As causas de síndrome vestibular aguda podem ser periféricas ou centrais.
As principais causas periféricas são:
A neurite vestibular costuma cursar com vertigem contínua, náuseas, vômitos, nistagmo unidirecional e marcha instável, sem sintomas neurológicos focais e sem perda auditiva nova importante.
As principais causas centrais são:
Na emergência, o diagnóstico central de maior impacto imediato é o AVC de fossa posterior.
A probabilidade de AVC aumenta na presença de:
A ausência desses fatores não exclui AVC, especialmente em pacientes jovens com dissecção vertebral ou causas embólicas.
O primeiro passo é caracterizar a queixa de “tontura”, porque esse termo pode significar sintomas diferentes.
Vertigem é a sensação ilusória de movimento, geralmente rotatória.
Pode vir acompanhada de:
A síndrome vestibular aguda pertence principalmente ao grupo dos pacientes com vertigem ou tontura vestibular persistente.
Desequilíbrio é dificuldade para manter postura ou marcha.
Pode ocorrer em:
Desequilíbrio isolado, especialmente com incapacidade de marcha, deve levantar suspeita de causa central.
Pré-síncope é sensação iminente de desmaio, geralmente descrita como escurecimento visual, fraqueza súbita ou sensação de “apagar”.
Sugere abordagem diferente, voltada para:
A síndrome vestibular aguda pode incluir:
O paciente costuma estar sintomático durante o exame. Esse detalhe é essencial, porque o HINTS só deve ser aplicado quando há síndrome vestibular aguda em curso, especialmente com nistagmo espontâneo.
Sugerem causa central:
Qualquer sinal neurológico focal deve direcionar o atendimento para protocolo de AVC.
O diagnóstico da síndrome vestibular aguda é clínico e depende de anamnese estruturada, exame neurológico, exame vestibular e decisão adequada sobre neuroimagem.
A abordagem mais segura usa o paradigma de tempo e gatilhos, em vez de confiar apenas na palavra “tontura”.
O modelo TiTrATE avalia:
Com esse raciocínio, os pacientes são organizados em síndromes vestibulares:
É definida por vertigem ou tontura persistente, de início agudo, durando horas a dias, com sintomas presentes no momento da avaliação.
Principais diagnósticos:
Exame central:
Caracteriza-se por episódios breves, desencadeados por mudança de posição da cabeça.
Principal hipótese:
Exame central:
O HINTS não é indicado para vertigem posicional episódica desencadeada.
Caracteriza-se por episódios recorrentes sem gatilho posicional obrigatório.
Principais hipóteses:
Nesse grupo, o paciente pode estar assintomático no momento do exame, o que reduz a utilidade do HINTS.
O exame deve incluir:
A incapacidade de sentar ou caminhar sem apoio é sinal de alto risco para causa central, mesmo sem outros déficits evidentes.
O HINTS é uma bateria de três testes à beira-leito para diferenciar síndrome vestibular aguda periférica de central.
O acrônimo significa:
Deve ser aplicado apenas em paciente com síndrome vestibular aguda em curso, geralmente com nistagmo espontâneo, e por profissional treinado.
O Head Impulse test avalia o reflexo vestíbulo-ocular.
Como realizar:
Resultado periférico:
Resultado central:
Ponto de prova: em síndrome vestibular aguda, Head Impulse normal é achado perigoso, porque favorece causa central.
O nistagmo deve ser avaliado em posição primária e com olhar para direita e esquerda.
Sugere causa periférica:
Sugere causa central:
Ponto de prova: nistagmo que muda de direção é central até prova em contrário.
O Test of Skew pesquisa desalinhamento vertical ocular.
Como realizar:
Resultado normal:
Resultado alterado:
O skew desviado é achado de alto risco para causa central.
O HINTS sugere causa periférica quando há:
O HINTS sugere causa central se houver qualquer um dos seguintes:
Em pacientes adequadamente selecionados e examinadores treinados, o HINTS pode ter alta acurácia para diferenciar AVC de causa periférica, inclusive com desempenho superior à ressonância magnética muito precoce em alguns cenários. Essa acurácia cai quando o teste é aplicado por profissionais sem treinamento ou em pacientes fora da indicação correta.
O HINTS-plus acrescenta avaliação auditiva ao HINTS.
A perda auditiva unilateral nova em paciente com síndrome vestibular aguda aumenta a suspeita de AVC, especialmente no território da artéria cerebelar ântero-inferior.
A avaliação pode incluir:
Ponto de prova: vertigem aguda com perda auditiva unilateral nova não deve ser automaticamente rotulada como labirintite; AVC em território AICA deve ser considerado.
A marcha é parte essencial do exame.
Achados preocupantes:
Pacientes com causa periférica podem ter instabilidade, mas geralmente conseguem permanecer sentados e caminhar com algum auxílio. Incapacidade franca de marcha sugere causa central.
A neuroimagem deve ser solicitada quando houver suspeita de causa central, sinais neurológicos focais, HINTS central, HINTS inconclusivo, examinador não treinado, impossibilidade de exame adequado ou fatores de alto risco.
A tomografia sem contraste é útil para excluir hemorragia, massas volumosas e algumas emergências estruturais.
No entanto, tem baixa sensibilidade para AVC isquêmico precoce de fossa posterior.
Uma TC normal não exclui AVC posterior.
A ressonância magnética com difusão é mais sensível para AVC isquêmico de fossa posterior, mas pode ser falso-negativa nas primeiras 24 a 48 horas.
Se a suspeita clínica permanecer alta, deve-se manter vigilância, repetir imagem ou prosseguir investigação vascular conforme o caso.
A avaliação vascular deve ser considerada quando houver suspeita de:
Deve-se acionar protocolo de AVC em:
A vertigem isolada não exclui AVC e não deve atrasar avaliação neurológica quando o padrão clínico for sugestivo.
O tratamento depende da causa provável e da gravidade do quadro.
Na emergência, a prioridade é identificar pacientes com risco de AVC e evitar alta inadequada de casos centrais.
A abordagem inicial inclui:
Quando houver suspeita de AVC de circulação posterior, a conduta deve seguir protocolo institucional de AVC.
Inclui:
Pacientes com sintomas transitórios sugestivos de AIT de circulação posterior também exigem investigação urgente e estratificação de risco.
Quando o quadro é compatível com neurite vestibular e causa central foi adequadamente afastada, o tratamento é sintomático e funcional.
Pode incluir:
Supressores vestibulares, como anti-histamínicos vestibulares ou benzodiazepínicos, devem ser usados pelo menor tempo possível, porque podem atrasar compensação vestibular se mantidos por muitos dias.
Corticosteroides podem ser considerados em casos selecionados de neurite vestibular, especialmente quando iniciados precocemente, mas o benefício funcional de longo prazo não é absoluto.
A decisão deve considerar:
Não se deve iniciar corticoide para vertigem aguda sem avaliação adequada de causa central.
Antibióticos não são indicados na neurite vestibular isolada.
Devem ser considerados apenas quando houver evidência de infecção bacteriana, como otite média complicada, mastoidite, meningite ou outra infecção definida.
Antivirais não são recomendados rotineiramente para neurite vestibular.
Se a história for de episódios breves, desencadeados por mudança de posição, o diagnóstico provável é VPPB, não síndrome vestibular aguda.
A conduta inclui:
Nesses casos, HINTS não deve ser usado como teste principal.
Observação prolongada ou internação deve ser considerada em:
A alta pode ser considerada quando:
Orientações de retorno devem incluir piora da vertigem, incapacidade de andar, fraqueza, dormência, diplopia, disartria, disfagia, cefaleia intensa, perda auditiva nova, confusão ou síncope.
O prognóstico para diagnóstico da síndrome vestibular aguda depende da etiologia.
Na neurite vestibular, o quadro costuma melhorar gradualmente em dias a semanas. Náuseas e vômitos tendem a melhorar primeiro, enquanto desequilíbrio e intolerância ao movimento podem persistir por mais tempo.
A reabilitação vestibular acelera a recuperação funcional e reduz tontura residual.
No AVC de fossa posterior, o prognóstico depende de:
Atraso no diagnóstico aumenta risco de deterioração neurológica, herniação, incapacidade permanente e morte.
O diagnóstico da síndrome vestibular aguda exige abordagem estruturada, porque o AVC de circulação posterior pode se manifestar apenas com vertigem, náuseas, vômitos e instabilidade.
A avaliação correta começa pela definição do padrão temporal e dos gatilhos. Em pacientes com vertigem persistente e nistagmo espontâneo, o HINTS é uma ferramenta central quando aplicado por examinador treinado.
O erro mais importante é confiar excessivamente em uma tomografia normal ou aplicar o HINTS fora do contexto correto. Em caso de sinais centrais, exame inconclusivo, incapacidade de marcha ou alto risco vascular, o paciente deve ser manejado como possível AVC até esclarecimento adequado.
A conduta segura combina exame clínico qualificado, estratificação de risco, uso criterioso de neuroimagem e tratamento direcionado à etiologia.
Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway