As emergências urológicas representam uma parcela significativa dos atendimentos em unidades de pronto-socorro. Entre elas, a cólica renal aguda e a retenção urinária aguda (RUA) destacam-se pela alta prevalência e pelo impacto imediato na qualidade de vida do paciente.
O manejo adequado vai além do alívio sintomático; envolve a identificação precoce de critérios de gravidade que impõem intervenções urológicas imediatas.
A cólica renal é frequentemente descrita como uma das dores mais intensas da medicina, comparável ao parto ou a fraturas extensas. Ela é a manifestação clínica clássica da obstrução aguda do trato urinário superior por um cálculo.
A dor da cólica renal não é causada pelo “atrito” do cálculo na parede do ureter, mas sim pelo aumento súbito da pressão intrapélvica devido à obstrução ao fluxo urinário.
Esse aumento de pressão provoca a distensão da cápsula renal e estimula a liberação local de prostaglandinas, que promovem vasodilatação renal e aumento da diurese, criando um ciclo vicioso de aumento de pressão e dor.
Os principais fatores de risco para a formação de cálculos (urolitíase) incluem:
O quadro clássico é de dor lombar súbita, paroxística, com irradiação para o flanco, fossa ilíaca e região inguinal (testículos ou grandes lábios), frequentemente acompanhada de náuseas e vômitos.
No exame físico, o sinal de Giordano (punho-percussão lombar) costuma ser positivo, assim como na pielonefrite (patologia esta que cursa tipicamente com quadro febril associado, podendo ser associada à nefro/ ureterolitíase nos casos obstrutivos).
Quanto à investigação complementar:
As diretrizes mais recentes (2024/2025) trazem mudanças importantes no manejo medicamentoso:
A maioria dos cálculos menores que 5 mm são eliminados espontaneamente. No entanto, a descompressão da via urinária (via cateter Duplo J ou Nefrostomia Percutânea) é mandatória em situações específicas:
Se sem sinais infecciosos e viabilidade a depender do tamanho e características do cálculo, pode ser feita a litotomia dos cálculos via extracorpórea por ondas de choque, laser ou mecanicamente com litotritor, mas o foco inicial é sempre a desobstrução.
A RUA é a incapacidade súbita e dolorosa de urinar, apesar de uma bexiga repleta. É a emergência urológica mais comum em homens idosos.
A causa pode ser classificada em:
O paciente apresenta-se com dor suprapúbica intensa, angústia e o “bexigoma” (bexiga palpável e dolorosa à percussão).
O tratamento imediato é o esvaziamento vesical, preferencialmente por cateterismo:
Após a drenagem, é crucial monitorar a diurese pós-obstrutiva (risco de distúrbios hidroeletrolíticos) e iniciar o tratamento medicamentoso com alfa-bloqueadores (como a tansulosina) para aumentar a taxa de sucesso na retirada da sonda após 3 a 7 dias.
O manejo das emergências urológicas exige uma abordagem sistemática baseada em evidências. Na cólica renal, o foco deve ser o controle álgico com AINHs e a identificação de sinais de infecção obstrutiva. Na retenção urinária, o alívio imediato da dor por meio da sondagem vesical deve ser seguido por uma investigação etiológica, visando o tratamento definitivo da causa base, como a HPB.
Para o estudante e o médico generalista, o domínio desses protocolos é o que garante a segurança do paciente e a preservação da sua função renal. E para a prova de residência é sempre importante dominar as condutas de urgência para resolução do quadro agudo conforme discutido acima, porque é o que as bancas gostam de cobrar.
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE UROLOGIA. Orientações sobre Urolitíase. Portugal: APU, 2018. Disponível em: https://apurologia.pt/wp-content/uploads/2018/10/Urolitiase.pdf.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA. Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento clínico da Nefrolitíase. Brazilian Journal of Nephrology, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbn/a/JCpb8h7v3FrNXFHbKBTjmbs/.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA. Urologia Fundamental. São Paulo: Planmark, 2010.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA. Diretrizes para os Sintomas do Trato Urinário Inferior Masculino. SBU, 2012 (Atualizado via Portal da Urologia 2024). Disponível em: http://sbu.org.br/pdf/guidelines_EAU/2012/135.pdf.
TELESSAÚDE RS-UFRGS. Protocolo de Nefrologia Adulto. Porto Alegre, 2025. Disponível em: https://telessauders.ufrgs.br/protocolos/.
Formado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Atualmente, residente em Cirurgia pela mesma instituição.