Genograma: o que é, como fazer e sua importância na abordagem da saúde familiar

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O Genograma é uma ferramenta gráfica fundamental e amplamente utilizada na Medicina da Família e Comunidade, pois oferece uma representação visual do sistema familiar, permitindo que o profissional de saúde compreenda não apenas as doenças genéticas, mas também as complexas relações e a estrutura do ambiente no qual o paciente está inserido. Vocês lembram quando falamos sobre determinação social de saúde?

Então, é aqui que vemos a materialização desses fatores. Ao identificar fragilidades, vulnerabilidades e patologias prevalentes, o genograma torna-se um instrumento chave para a criação de um vínculo mais forte e a prestação de um cuidado em saúde mais efetivo.

Mas antes de tudo, bora entender o que é o genograma de fato?

O Genograma é um instrumento de representação gráfica do sistema familiar: guardem essa informação porque ela nos ajuda a diferenciar de outros instrumentos de abordagem familiar, à exemplo do ecomapa, o qual também é uma representação gráfica mas da rede de apoio, comunidade e instituições do meio em que o paciente vive e com as quais se relaciona. 

Dentro dessa representação gráfica, são utilizados símbolos para traduzir a composição e dinâmica das relações familiares de maneira padronizada, em geral utilizando pelo menos 3 gerações (embora isso não impeça de encontrarmos genogramas com menos gerações). 

Embora o genograma simples funcione como uma “foto” de um determinado momento, ele deve ser reformulado quando ocorrem mudanças significativas na estrutura familiar. Lembre-se: as famílias e relações mudam com o tempo, portanto o genograma deve ser revisto e reformulado à medida que a família é acompanhada pela equipe. 

Por que realizar um genograma?

Na prática médica, o genograma é essencial porque não permite mais ignorar que a estrutura familiar de uma pessoa é fundamental para o processo de desenvolvimento de saúde e de doenças. Ele é muito útil para situações mais complexas, nas quais as ações de cuidado não serão puramente biológicas. Ao enxergar a pessoa como um tudo, com quem ela convive, como é a sua rede de apoio e os pontos de vulnerabilidade, ele permite que a gente possa ter um olhar integral das pessoas. 

Então, ao olhar um genograma conseguimos enxergar:

  1. Doenças Genéticas, padrões de saúde e adoecimento ao longo das gerações: ajuda a identificar as características genéticas de algumas doenças, a recorrência de doenças crônicas, transtornos mentais, uso de álcool e drogas, morte, violências, etc. 
  2. Estrutura familiar: quem compõe o núcleo familiar, as relações de parentescos, os arranjos familiares e ciclos de vida de cada membro. 
  3. Padrões, vínculos e dinâmicas transgeracionais: isso é, os comportamentos entre os familiares, os papéis adotados e os padrões de cuidado (abandono, violência, etc) que compõem a rede do paciente. 
  4. Rede de apoio: mostrando quem costuma assumir o papel de cuidador, quem é referência afetiva, quem pode participar do plano terapêutico e quais relações podem ser mobilizadas para fortalecer a adesão e o cuidado longitudinal.

Por abordar temas sensíveis (como violências, conflitos, abuso e uso de drogas) é importante que ele seja construído com consentimento e respeito. Além disso, é necessário que o profissional pratique a escuta ativa e tenha paciência na construção do vínculo, uma vez que pode ser que nem sempre a gente consiga obter todas as informações necessárias para sua construção em uma única consulta. 

Interpretando os símbolos e linhas gráficas

Como dissemos anteriormente, o genograma utiliza símbolos padronizados para representar a estrutura e as dinâmicas familiares. Por isso, para interpretá-los (tanto na prova quanto na vida prática), é importante que vocês estejam familiarizados com eles!

As representações são utilizadas para identificar os membros da família, o paciente (índice), as relações entre os indivíduos e as patologias prevalentes.

  1. Representação das pessoas: além da representação dos indivíduos, as idades podem ser inseridas dentro dos símbolos ou ao lado. 
  • Quadrado: homem;
  • Círculo: mulher;
  • Triângulo: sexo indefinido;
  • Dupla borda/contorno: pessoa índice (foco do cuidado)
  • Símbolo com X: óbito
Fonte: Apostila Medway (adaptado de Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso)
  1. Relações e vínculos: as relações entre as pessoas são representadas em linhas, cujo formato podem traduzir significados das relações. Além disso, quando um casal tem filhos, a disposição dos filhos inicia-se por ordem cronológica de nascimento (do mais velho para o mais novo) na representação. 
Fonte: Apostila Medway (adaptado de Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso)
Fonte: Apostila Medway (adaptado de Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso)
Fonte: Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso
  1. Condições específicas: existem também alguns símbolos para identificação uso de álcool e condições de saúde mental
Fonte: Apostila Medway (adaptado de Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso)
  1. Núcleo familiar: a representação de quem reside na moradia também é feita através de um contorno entre os moradores. 
Fonte: Apostila Medway (adaptado de Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Gusso)

Embora as equipes de saúde não realizem intervenções terapêuticas familiares complexas, o genograma lhes dá condições de identificar pontos de conflito que podem estar prejudicando o tratamento ou o vínculo do paciente com a unidade de saúde.

Dica para leitura nas provas: o primeiro passo é sempre identificar o paciente índice! Após, façam a leitura cautelosa das alternativas identificando corretamente cada um dos indivíduos e a relação citada. Fiquem atentos na representação do sexo, idade e com quem o indivíduo citado se relaciona porque aqui é onde as bancas costumam criar pegadinhas!

O impacto do genograma na abordagem familiar

O Genograma faz parte de um conjunto de ferramentas de abordagem familiar que têm como principal objetivo facilitar a criação de vínculo com os pacientes, proporcionando maior efetividade na resolução dos casos.

A utilização dessas ferramentas permite a identificação de:

  • Fragilidades e Vulnerabilidade: Expondo pontos fracos do sistema familiar.
  • Patologias Prevalentes: Visualizando padrões de doenças ao longo das gerações.
  • Funcionalidades da Família: Entendendo como a família se organiza e interage.
  • Barreiras ao Cuidado: Identificando as causas que distanciam o paciente do cuidado oferecido pela Unidade de Saúde.

Em muitos casos, a falta de preparo dos profissionais de saúde em conduzir situações complexas e particulares exige grande dedicação e persistência. O genograma, ao trazer um diagnóstico situacional, é um passo para superar essas dificuldades, apoiando a longitudinalidade ao ajudar a compreender a trajetória das famílias. 

Além disso, a aplicação da ferramenta, e principalmente as ações realizadas após o diagnóstico que ela fornece, são importantes para fortalecer o vínculo do paciente com os profissionais da equipe de referência e garantir a coordenação do cuidado.

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Jéssica Silva Aguiar

Jéssica Silva Aguiar

Nascida em Ribeirão Preto, interior de São Paulo desde 1991. Formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá (CBM). Residência em Medicina de Família e Comunidade na Faculdade Medicina de Ribeirão Preto (FMUSP-RP).