GINA 2026: o que mudou e como isso impacta sua prática clínica

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Se você acompanha as atualizações em pneumologia, já sabe que o relatório da Global Initiative for Asthma (GINA) é a principal referência mundial no manejo da asma. A edição do GINA 2026 acaba de ser publicada e traz mudanças relevantes como a redução do uso excessivo de SABA nas crises, novas metas para oxigenoterapia, ampliação do papel do ICS-formoterol e a inclusão de novas terapias biológicas.

A seguir, reunimos os principais destaques do GINA 2026 e o que você precisa saber na prática.

Confira a edição GINA 2026 na íntegra

Manejo da exacerbação: novos fluxogramas e abordagem mais padronizada

Uma das principais novidades do GINA 2026 é a criação de quatro novos fluxogramas completos para manejo da exacerbação asmática, cobrindo:

  • Atenção primária (adultos e crianças)
  • Pronto atendimento / emergência
  • Crianças menores de 5 anos em diferentes cenários

Além disso, há uma padronização mais clara da gravidade (leve, moderada, grave e risco de vida), com recomendações específicas para cada cenário.

Outro ponto importante: passa a ser fortemente recomendado o uso de escores clínicos validados em pediatria, como o PRAM, para avaliar gravidade.

Menos SABA na crise aguda: risco de toxicidade ganha destaque

O GINA 2026 reforça uma mudança importante no manejo da exacerbação: menos broncodilatador nem sempre significa pior cuidado.

O documento revisa as doses de SABA utilizadas nas crises agudas, adotando uma abordagem mais conservadora devido ao risco de toxicidade associado ao uso excessivo. Entre os principais problemas relacionados estão:

  • Acidose láctica
  • Hiperventilação compensatória
  • Taquicardia e efeitos adversos cardiovasculares

Além disso, o relatório reforça a necessidade de reavaliar o paciente após a primeira administração do broncodilatador, evitando repetição automática de doses sem reavaliação clínica.

Na prática, o GINA 2026 reforça um conceito cada vez mais consolidado: o manejo da crise deve ser individualizado e guiado pela resposta clínica.

Oxigênio: hiperóxia também traz riscos

Outra mudança prática importante envolve a oxigenoterapia. Agora, o GINA 2026 recomenda suplementação de oxigênio apenas quando a saturação periférica estiver abaixo de 92%. As metas também foram revisadas:

  • Adultos e crianças ≥6 anos: SpO₂ até 95%
  • Crianças menores de 5 anos: manter ≥92%

O racional por trás da mudança é claro: hiperóxia não é inócua e o uso excessivo de oxigênio pode trazer efeitos adversos.

ICS-formoterol ganha ainda mais espaço

O papel do ICS-formoterol continua crescendo no GINA 2026. Além de permanecer como estratégia preferencial no Track 1, o esquema passa a ser incluído também nos fluxogramas de exacerbação leve, tanto na atenção primária quanto no pronto atendimento.

Na prática, isso significa que o ICS-formoterol pode ser iniciado já no contexto da crise como estratégia para reduzir novas exacerbações e introduzir tratamento anti-inflamatório precocemente.

O conceito reforçado pelo documento é claro: a asma deve ser tratada como doença inflamatória desde o início, inclusive durante as exacerbações.

Track 1 segue como estratégia preferencial

Assim como nas versões anteriores, o GINA mantém o Track 1 (ICS-formoterol como manutenção e alívio) como abordagem preferida para adultos e adolescentes.

Os motivos são claros:

  • Redução significativa de exacerbações graves
  • Menor necessidade de corticosteroide sistêmico
  • Regime mais simples (um único inalador)

Nova opção no Track 2: ICS + SABA como resgate

Uma das mudanças mais relevantes do GINA 2026 ocorre no Track 2. Agora, o uso de ICS-SABA conforme necessidade passa a ser incluído desde o Step 1 para adultos com asma mal controlada.

A mudança é sustentada por evidências recentes, incluindo o estudo BATURA, que demonstrou redução de aproximadamente 50% no risco de exacerbações graves quando comparado ao uso isolado de SABA.

O recado do documento é cada vez mais consistente: sempre que possível, deve-se evitar broncodilatador isolado sem terapia anti-inflamatória associada.

Asma grave: novas terapias biológicas

O GINA 2026 amplia as opções para asma grave com a inclusão de:

  • Depemokimab (anti-IL5 de longa duração, aplicação a cada 26 semanas)
  • Biossimilar de anti-IgE (omalizumabe)

Além disso, o documento atualiza os critérios para escolha entre biológicos, considerando:

  • Perfil inflamatório (especialmente inflamação tipo 2)
  • Comorbidades
  • Preferência do paciente
  • Questões práticas (custo, via e frequência de administração)

OCS stewardship: reduzir corticoide sistêmico é prioridade

O GINA 2026 reforça fortemente o conceito de uso racional de corticosteroide oral (OCS stewardship). As recomendações incluem:

  • Evitar uso crônico sempre que possível
  • Otimizar terapia inalatória antes de iniciar OCS
  • Monitorar exposição cumulativa ao corticosteroide sistêmico
  • Considerar terapias biológicas para reduzir necessidade de OCS

A diretriz reforça que minimizar exposição ao corticoide sistêmico é uma prioridade no manejo moderno da asma.

Diagnóstico: atenção aos critérios de reversibilidade

O documento também traz um ponto técnico importante relacionado ao diagnóstico da asma. O critério clássico de reversibilidade — aumento ≥12% e ≥200 mL no VEF1 — continua sendo considerado relevante.

Já o critério mais recente baseado em aumento >10% do previsto pode levar ao subdiagnóstico de alguns pacientes, especialmente indivíduos jovens.

Na prática, o GINA reforça a necessidade de interpretação clínica integrada, sem dependência exclusiva de um único parâmetro funcional.

Novas ferramentas de avaliação

O GINA 2026 introduz novos instrumentos:

  • CAAT (Chronic Airways Assessment Test) – avaliação global do estado de saúde respiratória
  • Peds-AIRQ – avaliação combinada de risco e controle em crianças

Essas ferramentas ampliam a avaliação além dos sintomas tradicionais.

Técnica inalatória: atenção redobrada

O relatório também reforça pontos frequentemente negligenciados:

  • Necessidade de treinar técnica com espaçador (pMDI)
  • Importância de agitar o inalador antes de cada jato
  • Erros técnicos continuam sendo uma das principais causas de falha terapêutica

Acesso ao ICS continua sendo prioridade global

Um dos pontos centrais do GINA 2026 é o reforço da importância do acesso universal aos medicamentos contendo corticosteroide inalatório (ICS).

O documento destaca que ampliar o acesso a estratégias baseadas em ICS, especialmente com ICS-formoterol, provavelmente terá o maior impacto global na redução de exacerbações, hospitalizações e mortalidade por asma.

O que isso muda na prática?

As atualizações do GINA 2026 reforçam algumas mudanças de mentalidade importantes:

  • Evitar SABA isolado
  • Introduzir tratamento anti-inflamatório precocemente
  • Usar menos oxigênio e menos broncodilatador na crise
  • Reduzir ao máximo o uso de corticoide sistêmico
  • Considerar biológicos mais cedo em casos selecionados

Mais do que novas recomendações isoladas, o documento consolida uma tendência: asma deve ser tratada como doença inflamatória desde o início, com abordagem personalizada e baseada em risco. 

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Djon Machado

Djon Machado

Professor da Medway. Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Siga no Instagram: @djondamedway