Se você acompanha as atualizações em pneumologia, já sabe que o relatório da Global Initiative for Asthma (GINA) é a principal referência mundial no manejo da asma. A edição do GINA 2026 acaba de ser publicada e traz mudanças relevantes como a redução do uso excessivo de SABA nas crises, novas metas para oxigenoterapia, ampliação do papel do ICS-formoterol e a inclusão de novas terapias biológicas.
A seguir, reunimos os principais destaques do GINA 2026 e o que você precisa saber na prática.
Confira a edição GINA 2026 na íntegra
Uma das principais novidades do GINA 2026 é a criação de quatro novos fluxogramas completos para manejo da exacerbação asmática, cobrindo:
Além disso, há uma padronização mais clara da gravidade (leve, moderada, grave e risco de vida), com recomendações específicas para cada cenário.
Outro ponto importante: passa a ser fortemente recomendado o uso de escores clínicos validados em pediatria, como o PRAM, para avaliar gravidade.
O GINA 2026 reforça uma mudança importante no manejo da exacerbação: menos broncodilatador nem sempre significa pior cuidado.
O documento revisa as doses de SABA utilizadas nas crises agudas, adotando uma abordagem mais conservadora devido ao risco de toxicidade associado ao uso excessivo. Entre os principais problemas relacionados estão:
Além disso, o relatório reforça a necessidade de reavaliar o paciente após a primeira administração do broncodilatador, evitando repetição automática de doses sem reavaliação clínica.
Na prática, o GINA 2026 reforça um conceito cada vez mais consolidado: o manejo da crise deve ser individualizado e guiado pela resposta clínica.
Outra mudança prática importante envolve a oxigenoterapia. Agora, o GINA 2026 recomenda suplementação de oxigênio apenas quando a saturação periférica estiver abaixo de 92%. As metas também foram revisadas:
O racional por trás da mudança é claro: hiperóxia não é inócua e o uso excessivo de oxigênio pode trazer efeitos adversos.
O papel do ICS-formoterol continua crescendo no GINA 2026. Além de permanecer como estratégia preferencial no Track 1, o esquema passa a ser incluído também nos fluxogramas de exacerbação leve, tanto na atenção primária quanto no pronto atendimento.
Na prática, isso significa que o ICS-formoterol pode ser iniciado já no contexto da crise como estratégia para reduzir novas exacerbações e introduzir tratamento anti-inflamatório precocemente.
O conceito reforçado pelo documento é claro: a asma deve ser tratada como doença inflamatória desde o início, inclusive durante as exacerbações.
Assim como nas versões anteriores, o GINA mantém o Track 1 (ICS-formoterol como manutenção e alívio) como abordagem preferida para adultos e adolescentes.
Os motivos são claros:
Uma das mudanças mais relevantes do GINA 2026 ocorre no Track 2. Agora, o uso de ICS-SABA conforme necessidade passa a ser incluído desde o Step 1 para adultos com asma mal controlada.
A mudança é sustentada por evidências recentes, incluindo o estudo BATURA, que demonstrou redução de aproximadamente 50% no risco de exacerbações graves quando comparado ao uso isolado de SABA.
O recado do documento é cada vez mais consistente: sempre que possível, deve-se evitar broncodilatador isolado sem terapia anti-inflamatória associada.
O GINA 2026 amplia as opções para asma grave com a inclusão de:
Além disso, o documento atualiza os critérios para escolha entre biológicos, considerando:
O GINA 2026 reforça fortemente o conceito de uso racional de corticosteroide oral (OCS stewardship). As recomendações incluem:
A diretriz reforça que minimizar exposição ao corticoide sistêmico é uma prioridade no manejo moderno da asma.
O documento também traz um ponto técnico importante relacionado ao diagnóstico da asma. O critério clássico de reversibilidade — aumento ≥12% e ≥200 mL no VEF1 — continua sendo considerado relevante.
Já o critério mais recente baseado em aumento >10% do previsto pode levar ao subdiagnóstico de alguns pacientes, especialmente indivíduos jovens.
Na prática, o GINA reforça a necessidade de interpretação clínica integrada, sem dependência exclusiva de um único parâmetro funcional.
O GINA 2026 introduz novos instrumentos:
Essas ferramentas ampliam a avaliação além dos sintomas tradicionais.
O relatório também reforça pontos frequentemente negligenciados:
Um dos pontos centrais do GINA 2026 é o reforço da importância do acesso universal aos medicamentos contendo corticosteroide inalatório (ICS).
O documento destaca que ampliar o acesso a estratégias baseadas em ICS, especialmente com ICS-formoterol, provavelmente terá o maior impacto global na redução de exacerbações, hospitalizações e mortalidade por asma.
As atualizações do GINA 2026 reforçam algumas mudanças de mentalidade importantes:
Mais do que novas recomendações isoladas, o documento consolida uma tendência: asma deve ser tratada como doença inflamatória desde o início, com abordagem personalizada e baseada em risco.
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Professor da Medway. Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Siga no Instagram: @djondamedway