GINA 2026: o que mudou e como isso impacta sua prática clínica

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Conteúdo atualizado em: 19/05/2026   Se você acompanha as atualizações em pneumologia, já sabe que o relatório da Global Initiative for Asthma (GINA) é a principal referência mundial no manejo da asma. A edição do GINA 2026 acaba de ser publicada e traz mudanças relevantes como a redução do uso excessivo de SABA nas crises, novas metas para oxigenoterapia, ampliação do papel do ICS-formoterol e a inclusão de novas terapias biológicas.

A seguir, reunimos os principais destaques do GINA 2026 e o que você precisa saber na prática.

Confira a edição GINA 2026 na íntegra

O que é asma?

A asma é uma doença heterogênea, caracterizada por inflamação crônica das vias aéreas. É definida pela combinação de:

  • história de sintomas respiratórios variáveis — sibilos, dispneia, aperto no peito e tosse — que variam em intensidade e ao longo do tempo
  • evidência de limitação variável ao fluxo expiratório, documentada objetivamente

A variabilidade é o traço central: sintomas que pioram à noite ou de manhã cedo, desencadeados por exercício, infecções virais, alérgenos ou ar frio, e que melhoram espontaneamente ou com medicação.

Ponto-chave: O GINA 2026 reforça: confirme o diagnóstico antes de iniciar ICS, porque após o início do tratamento a confirmação objetiva fica mais difícil. Teste antes de tratar, sempre que possível.

Como diagnosticar?

O diagnóstico é clínico + funcional. Os dois pilares são:

1. História de sintomas variáveis típicos

Padrões que aumentam a probabilidade de asma:

  • sintomas noturnos ou ao acordar
  • desencadeamento por exercício, risos, alérgenos, infecções virais
  • melhora após parar o exercício (muito sugestivo)
  • variação sazonal ou relacionada ao ambiente

2. Limitação variável ao fluxo expiratório, documentada por:

  • Prova broncodilatadora positiva: aumento ≥ 12% e ≥ 200 mL no VEF1 ou CVF após broncodilatador (adultos); ≥ 12% do predito em crianças
  • Variabilidade de PFE > 10% em adultos (> 13% em crianças) ao longo de 2 semanas
  • Aumento do VEF1 ≥ 12% e ≥ 200 mL após 4 semanas de ICS
  • Prova de broncoprovocação positiva

Atualização GINA 2026: O critério do VEF1 > 10% do predito, proposto em 2022 como alternativa ao critério clássico, foi oficialmente abandonado.

Grandes bancos de dados mostraram que seu uso levaria ao subdiagnóstico, especialmente em homens jovens com alta carga respiratória. O GINA 2026 reafirma o critério ERS/ATS 2005: aumento ≥ 12% e ≥ 200 mL em relação ao valor pré-BD. Para maior confiança diagnóstica: ≥ 15% e ≥ 400 mL.

Se espirometria não estiver disponível, use PFE, menos preciso, mas melhor do que basear o diagnóstico só nos sintomas.

Como avaliar o controle da asma?

O controle da asma tem duas dimensões, e as duas precisam ser avaliadas em toda consulta:

Dimensão 1: Controle de sintomas (últimas 4 semanas)

PerguntaBem controladaParcialmente controladaNão controlada
Sintomas diurnos > 2x/semana?Nenhum1–2 itens3–4 itens
Acorda à noite por asma?Não
Usa broncodilatador de resgate > 2x/semana?Não
Alguma limitação de atividade por asma?Não

Dimensão 2: Risco futuro de desfechos adversos

Fatores de risco para exacerbação mesmo com sintomas bem controlados:

  • uso excessivo de SABA (≥ 3 frascos de 200 doses/ano)
  • ICS insuficiente ou ausente
  • má técnica inalatória ou baixa adesão
  • obesidade, sinusite crônica, DRGE, gravidez
  • tabagismo, exposição a alérgenos
  • VEF1 baixo ou história de exacerbação grave no último ano

Cai na prova

Paciente com sintomas bem controlados ainda pode ter risco elevado de exacerbação. Controle de sintomas ≠ ausência de risco. O GINA avalia os dois domínios separadamente — e isso é o que a banca explora.

Escada de tratamento: adultos e adolescentes

O GINA 2026 organiza o tratamento em dois Tracks e 5 degraus. O Track 1 é o preferido para a maioria dos pacientes.

A diferença central entre os dois Tracks é o broncodilatador de resgate:

  • Track 1 (preferido): resgate com ICS-formoterol em baixa dose (anti-inflammatory reliever — AIR)
  • Track 2 (alternativa): resgate com SABA — mas nunca SABA “nu”. O GINA é taxativo: sempre que o paciente usar SABA para alívio, deve associar uma dose de ICS, seja em inalador combinado ICS-SABA ou em dispositivos separados usados juntos. Isso vale desde o Degrau 1. Na prática, não existe mais espaço para SABA isolado puro em nenhum degrau da escada.

Por que o Track 1 é preferido?

Porque o uso de ICS-formoterol como resgate reduz em 55% o risco de exacerbações graves em adultos e adolescentes, comparado com SABA isolado — com controle de sintomas semelhante. Além disso, o paciente usa um único medicamento, um único dispositivo e uma única dose em todos os degraus. Menos confusão, mais adesão.

Degraus do Track 1 (preferido)

  • Degrau 1–2 — AIR isolado (sem manutenção): ICS-formoterol em baixa dose apenas quando necessário para alívio dos sintomas. Indicado para sintomas infrequentes (≤ 2 dias/semana) ou como step-down de quem está controlado.
  • Degrau 3 — MART em baixa dose: ICS-formoterol como manutenção diária + como resgate (MART: maintenance-and-reliever therapy). Indicado para sintomas frequentes (≥ 4 dias/semana) ou despertar noturno ≥ 1x/semana. O MART com ICS-formoterol reduz em 29% o risco de exacerbação grave comparado a escalar para Degrau 4 com SABA.

Pegadinha clássica MART só funciona com formoterol, pelo seu início de ação rápido. Não pode ser feito com salmeterol, vilanterol ou outros LABAs de início lento. ICS-formoterol é o único ICS-LABA que pode ser usado tanto como manutenção quanto como resgate no mesmo inalador.

  • Degrau 4 — MART em dose média: Dobrar as inalações de manutenção de ICS-formoterol. Antes de escalar, sempre verificar: técnica inalatória, adesão, exposições ambientais e se os sintomas são realmente de asma.
  • Degrau 5 — Encaminhamento para especialista + fenotipagem + terapia add-on: Sintomas persistentes ou exacerbações apesar do Degrau 4 com boa técnica e adesão. Opções incluem LAMA add-on (tiotrópio ou triple inhaler) e biológicos (anti-IgE, anti-IL-5, anti-IL-4/13, anti-TSLP) conforme fenótipo. Corticosteroide oral em dose baixa apenas como último recurso, com counseling obrigatório sobre efeitos adversos cumulativos.

Resumo prático da escada: Degraus 1–2: AIR isolado (ICS-formoterol SOS). Degrau 3: MART baixa dose. Degrau 4: MART dose média. Degrau 5: especialista + fenotipagem + biológico. Em nenhum degrau existe espaço para SABA isolado puro.

O que o GINA 2026 muda no manejo de exacerbações

Essa é a principal novidade estrutural do GINA 2026, quatro novos fluxogramas padronizados para exacerbações:

  • adultos/adolescentes/crianças ≥ 6 anos na atenção primária
  • adultos/adolescentes/crianças ≥ 6 anos na emergência
  • crianças ≤ 5 anos na atenção primária
  • crianças ≤ 5 anos na emergência

Cada fluxograma traz critérios explícitos para classificar a gravidade (leve, moderada, grave, risco de vida) e orienta tratamento e seguimento.

Mudanças relevantes no GINA 2026

  • Oxigênio: não recomendado se saturação ≥ 92%. Se ofertado, os alvos são:
    • Adultos e adolescentes: SpO2 92–95%
    • Crianças de 6 a 11 anos: SpO2 94–98%
  • SABA: doses mais conservadoras do que no passado — evidência crescente de sobretratamento nas exacerbações
  • Anaphylaxis + asma: epinefrina primeiro, depois broncodilatador
  • Espirometria/PFE: fortemente recomendada em todos (exceto pré-escolares ou apresentações com risco de vida) — antes do tratamento e antes da alta
  • OCS stewardship: o GINA 2026 reforça o uso criterioso do corticosteroide oral — indicado em exacerbações moderadas a graves, na menor dose eficaz e pelo menor tempo necessário. A prioridade é otimizar a terapia inalatória (e biológico quando indicado) para reduzir a necessidade de OCS. Monitorar uso cumulativo.

O que levar para a prova de residência médica

  • Diagnóstico de asma = sintomas variáveis típicos + limitação variável ao fluxo expiratório documentada objetivamente.
  • O critério VEF1 > 10% do predito foi abandonado no GINA 2026 por risco de subdiagnóstico. Critério correto: ≥ 12% e ≥ 200 mL em relação ao pré-BD.
  • Controle da asma tem dois domínios: sintomas recentes (4 semanas) e risco futuro. Os dois precisam ser avaliados.
  • Track 1 é o preferido: ICS-formoterol como resgate em todos os degraus.
  • Track 2 usa SABA como resgate — mas sempre com ICS associado. SABA isolado puro não tem mais lugar em nenhum degrau.
  • MART = ICS-formoterol como manutenção + resgate no mesmo inalador. Só funciona com formoterol — pegadinha clássica.
  • Degrau 5: encaminhar ao especialista, fenotipar, considerar biológico. OCS apenas como último recurso.
  • Oxigênio nas exacerbações: iniciar só se SpO2 < 92%. Alvo 92–95% em adultos/adolescentes; 94–98% em crianças de 6 a 11 anos.
  • Todo paciente com asma deve ter plano de ação escrito — adaptado ao seu esquema de resgate.

Conclusão

O GINA 2026 consolida o que vem sendo construído nos últimos anos: ICS-formoterol como backbone do tratamento em todos os degraus, eliminação definitiva do SABA isolado puro e foco crescente em prevenção de exacerbações e stewardship de corticosteroide oral. Para a prova, dominar a lógica dos dois Tracks — e entender por que o Track 1 é preferido — é o diferencial. Para a prática, os novos fluxogramas de exacerbação trazem critérios mais claros e condutas mais padronizadas.

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Rafael Alves Banzati Viana

Rafael Alves Banzati Viana

Entusiasta de café, formado pela Universidade de Taubaté em 2020, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Ipiranga (2023-2025). Atualmente, residente de Reumatologia no IAMSPE.