Durante a gestação, o corpo da mulher passa por uma série de transformações para proteger e nutrir o bebê. No entanto, algumas infecções podem atravessar a placenta e atingir o feto, causando desde pequenas alterações até graves complicações, como malformações e restrição de crescimento.
Por isso, o acompanhamento pré-natal tem papel fundamental não apenas para avaliar a saúde materna, mas também para prevenir, identificar e tratar infecções que podem ser transmitidas ao bebê.
Entre as infecções que merecem atenção especial estão as chamadas STORCHES, um acrônimo que representa os principais agentes infecciosos associados a complicações congênitas:
S – Sífilis
T – Toxoplasmose
O – “Outros” (como HIV, hepatites, varicela e parvovírus B19)
R – Rubéola
C – Citomegalovírus (CMV)
H – Herpes simples (HSV)
E – Enterovírus e outras causas emergentes, como Zika vírus
Cada uma delas tem particularidades clínicas, formas de transmissão e estratégias de prevenção, diagnóstico e manejo. Conhecer essas doenças é essencial tanto para os profissionais que acompanham o pré-natal quanto para as gestantes, que podem, com medidas simples, reduzir significativamente o risco de transmissão vertical.
A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum e continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil.
A transmissão para o feto pode ocorrer em qualquer fase da gestação, especialmente quando a mãe não é diagnosticada ou tratada adequadamente, podendo levar a graves consequências fetais relacionadas à sífilis congênita.
Toda gestante deve ser testada no início do pré-natal, no terceiro trimestre e no momento do parto. O diagnóstico é feito por testes sorológicos: VDRL (teste não treponêmico, usado para triagem e seguimento) e FTA-Abs ou TPHA (treponêmicos, usados para confirmação).
Quando ocorre infecção fetal, o ultrassom pode mostrar hepatomegalia, ascite, espessamento placentário, hidropisia fetal e restrição de crescimento. Esses sinais indicam a necessidade de intervenção urgente.
O tratamento é simples, seguro e altamente eficaz: penicilina benzatina é o único medicamento capaz de prevenir a transmissão vertical. A dose e o esquema dependem da fase da doença. É fundamental também tratar o parceiro e garantir o acompanhamento com exames de controle.
É muito importante entender alguns detalhes a respeito do tratamento da sífilis na gestação!
O tratamento da sífilis na gestação deve sempre ser feito com penicilina benzatina, único medicamento capaz de atravessar a placenta e tratar também o feto, prevenindo a sífilis congênita. A dose e o esquema variam conforme a fase da infecção.
Na sífilis primária, secundária ou latente recente (menos de 1 ano de evolução), a dose recomendada é de 2,4 milhões de unidades por via intramuscular, em dose única, dividida em duas aplicações de 1,2 milhão em nádegas diferentes.
Já na sífilis latente tardia (mais de 1 ano) ou de duração ignorada, o esquema é de 7,2 milhões de unidades, aplicadas como 2,4 milhões por semana, durante três semanas consecutivas.
O parceiro sexual deve sempre ser tratado simultaneamente, recebendo o mesmo esquema terapêutico da gestante, de acordo com a fase clínica identificada, para evitar reinfecção.
O seguimento sorológico é essencial para avaliar a resposta ao tratamento e deve ser feito com o VDRL mensal durante a gestação. Segundo o Ministério da Saúde, considera-se que a sífilis foi adequadamente tratada quando:
A toxoplasmose é causada pelo protozoário Toxoplasma gondii e é adquirida principalmente pela ingestão de carne crua ou malpassada, água e alimentos contaminados ou contato com fezes de gatos infectados.
O diagnóstico baseia-se na sorologia para IgM e IgG. Gestantes suscetíveis (IgG e IgM negativos) devem ser orientadas quanto à prevenção e reavaliadas periodicamente. Quando há soroconversão durante a gestação, indica-se tratamento imediato para reduzir o risco de infecção fetal.
Os achados mais sugestivos incluem calcificações intracranianas, ventriculomegalia, hepatomegalia, ascite e restrição de crescimento fetal.
No primeiro momento do pré-natal (preferencialmente na primeira consulta) solicita-se sorologia para IgG e IgM contra T. gondii. A seguir estão os três cenários principais e as condutas recomendadas:
1. IgG negativo / IgM negativo
2. IgG positivo / IgM negativo
3. IgG positivo e IgM positivo (ou só IgM positivo)
Quando se confirma ou se presume infecção materna recente (baixa avidez ou soroconversão) durante a gestação, o manejo segue da seguinte forma:
Definição da conduta após o PCR:
A rubéola, causada por um vírus do gênero Rubivirus, é hoje rara graças à vacinação em massa. No entanto, a infecção durante o primeiro trimestre pode causar o síndrome da rubéola congênita, caracterizada por microcefalia, cardiopatias e catarata congênita.
O diagnóstico é feito por sorologia (IgM e IgG). A presença de IgM indica infecção recente, enquanto o aumento do título de IgG entre duas coletas pode sugerir infecção aguda.
Podem incluir restrição de crescimento intrauterino, microcefalia, calcificações intracranianas e anomalias cardíacas.
Não existe tratamento específico para rubéola durante a gestação. O foco está na prevenção: mulheres em idade fértil devem estar com o esquema vacinal em dia antes da concepção. Durante a gravidez, a vacina é contraindicada, devendo ser aplicada após o parto.
O CMV é o agente viral mais frequentemente associado a infecção congênita. A maioria das infecções maternas é assintomática, o que torna o diagnóstico um desafio.
O diagnóstico é feito por sorologia (IgM e IgG) e avaliação da avidez de IgG, que ajuda a distinguir infecção recente de antiga. Quando há suspeita de infecção fetal, indica-se amniocentese para PCR de CMV.
Os achados incluem microcefalia, calcificações periventriculares, ventriculomegalia, ascite, hepatomegalia e restrição de crescimento intrauterino.
Não existe tratamento amplamente eficaz para uso materno, mas estudos sugerem benefícios do uso de imunoglobulina específica em casos selecionados. O acompanhamento pré-natal deve ser reforçado, com ultrassons seriados e monitoramento fetal rigoroso.
A prevenção é baseada em medidas de higiene, especialmente para gestantes que convivem com crianças pequenas (principais fontes de contágio): lavar as mãos com frequência e evitar contato com secreções orais e urinárias.
A infecção pelo vírus herpes simples (HSV-1 e HSV-2) é bastante comum, e o risco de transmissão ao bebê é maior durante o parto vaginal, principalmente quando a infecção materna é primária e ativa.
O diagnóstico é clínico, com base nas lesões vesiculares dolorosas em região genital. Testes laboratoriais como PCR e sorologia podem confirmar o tipo de vírus.
A infecção congênita é rara, mas pode causar microcefalia, calcificações intracranianas e hepatoesplenomegalia.
O uso de aciclovir é seguro durante a gestação e deve ser iniciado em infecções primárias ou recorrentes graves. A partir de 36 semanas, recomenda-se profilaxia antiviral para reduzir o risco de recidiva no parto.
Se houver lesões ativas no momento do parto, o parto cesáreo é indicado para evitar transmissão neonatal.
O rastreio é obrigatório no pré-natal. A transmissão vertical é prevenível com terapia antirretroviral combinada, parto conforme carga viral e não amamentação quando indicado.
A hepatite B pode ser prevenida com vacinação e, quando a mãe é portadora, o recém-nascido deve receber imunoglobulina específica e vacina nas primeiras 12 horas de vida.
A hepatite C, por sua vez, não possui profilaxia específica, mas o diagnóstico durante o pré-natal permite seguimento e planejamento do parto e do acompanhamento neonatal.
A infecção por varicela durante o primeiro trimestre pode causar síndrome da varicela congênita, com malformações e cicatrizes cutâneas. Gestantes suscetíveis expostas ao vírus devem receber imunoglobulina antivaricela-zóster o mais rápido possível.
Esse vírus pode causar anemia fetal grave e hidropisia não imune. O diagnóstico é feito por sorologia e o acompanhamento deve incluir Doppler da artéria cerebral média para avaliar anemia fetal. Quando necessário, realiza-se transfusão intrauterina.
O grande diferencial no enfrentamento das infecções congênitas está na prevenção e no rastreamento precoce. Um pré-natal de qualidade inclui:
As infecções congênitas representam um desafio importante no acompanhamento pré-natal. Felizmente, a maioria pode ser prevenida, diagnosticada precocemente e tratada de forma eficaz, desde que o cuidado seja contínuo e atento.
Mais do que exames e medicamentos, o pré-natal é um momento de educação em saúde: orientar a gestante, garantir vacinação adequada, investigar sintomas e promover medidas simples de prevenção fazem toda a diferença.
Cada consulta é uma oportunidade de proteger duas vidas — a da mãe e a do bebê — e garantir que o nascimento aconteça com a melhor chance de um começo saudável e seguro.
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Professor da Medway. Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com Residência em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialização em Ginecologia Endócrina e Reprodução Humana pela USP-RP. Siga no Instagram: @dr.marcelomontenegro