A Síndrome Anticolinérgica decorre da inibição da neurotransmissão colinérgica nos receptores muscarínicos, seja por superdosagem acidental, tentativa de autoextermínio ou interação medicamentosa.
Devido à ampla disponibilidade de fármacos com propriedades anticolinérgicas (venda livre), é uma intoxicação frequente no pronto-socorro.
Mecanismo de ação e agentes causadores da Síndrome Anticolinérgica
Manifestações clínicas (toxidrome clássica) da Síndrome Anticolinérgica
A apresentação clínica da síndrome antimuscarínica é variável. A tríade clássica (taquicardia + secreções diminuídas + midríase) foi encontrada em apenas 28,2% dos casos, porém menos um desses três sinais estava presente em 94% dos pacientes.
A apresentação pode ser memorizada pela mnemônica clássica da toxicologia (em tradução livre):
“Quente como uma lebre”: Hipertermia (por inibição da sudorese).
“Cego como um morcego”: Midríase paralítica e visão turva.
“Seco como um osso”: Boca seca (xerostomia) e pele seca.
“Vermelho como uma beterraba”: Vasodilatação cutânea (Flushing).
“Louco como um chapeleiro”: Delírio, alucinações, agitação e confusão mental.
Achados adicionais importantes da Síndrome Anticolinérgica
Gastrintestinal/Urina: Íleo paralítico (ausência de ruídos hidroaéreos) e retenção urinária aguda.
Diagnóstico diferencial da Síndrome Anticolinérgica
O principal diferencial deve ser feito com a Síndrome Simpaticomimética (cocaína, anfetaminas).
A presença ou ausência de sudorese é o diferencial mais confiável entre as duas síndromes.
Sinal Clínico
Síndrome Anticolinérgica
Síndrome Simpaticomimética
Sudorese
Pele seca (Anidrose)
Diaforese (Pele úmida/suada)
Ruídos Hidroaéreos
Diminuídos ou ausentes
Aumentados
Pupilas
Midríase
Midríase
Abordagem terapêutica
O tratamento baseia-se em suporte rigoroso e descontaminação.
Estabilização (ABCDE): Monitorização cardíaca contínua, acesso venoso e oximetria.
Descontaminação Gastrointestinal: – Carvão Ativado (1g/kg): Indicado se o paciente estiver com via aérea protegida e a ingestão for recente (< 1-2 horas). Devido ao íleo paralítico, o esvaziamento gástrico pode ser retardado, estendendo a janela de benefício em alguns casos. Contraindicações: Via aérea não protegida ou comprometida, obstrução intestinal e perfuração intestinal
Controle da Agitação e Convulsões: – Benzodiazepínicos (Midazolam ou Diazepam): São a droga de escolha. Devem ser usados agressivamente para controlar a agitação e a hipertermia. – Evitar: Antipsicóticos (haloperidol), pois podem baixar o limiar convulsivo e piorar os efeitos anticolinérgicos.
Antídoto Específico (Fisostigmina): – Inibidor da acetilcolinesterase que cruza a barreira hematoencefálica. – Indicação: Toxicidade central grave (delírio intratável ou convulsões) que não responde a benzodiazepínicos. – Contraindicação Absoluta: Suspeita de intoxicação por tricíclicos (risco de assistolia e bloqueios cardíacos).
Foi residente de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) de 2016 a 2018. É um dos cofundadores da Medway e hoje ocupa o cargo de Chief Executive Officer (CEO). Siga no Instagram: @alexandre.remor