Síndrome Anticolinérgica: reconhecimento de toxidromes e manejo clínico

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Conteúdo atualizado em: 12/05/2026

A Síndrome Anticolinérgica decorre da inibição da neurotransmissão colinérgica nos receptores muscarínicos, seja por superdosagem acidental, tentativa de autoextermínio ou interação medicamentosa. 

Devido à ampla disponibilidade de fármacos com propriedades anticolinérgicas (venda livre), é uma intoxicação frequente no pronto-socorro.

Mecanismo de ação e agentes causadores da Síndrome Anticolinérgica

Principais fármacos envolvidos:

  • Antihistamínicos: Difenidramina, hidroxizina.
  • Antidepressivos Tricíclicos: Amitriptilina, nortriptilina.
  • Antiespasmódicos: Escopolamina (Buscopan).
  • Antipsicóticos: Quetiapina, olanzapina.
  • Plantas: Datura stramonium (Zabumba/Trombeteira).

Manifestações clínicas (toxidrome clássica) da Síndrome Anticolinérgica

A apresentação clínica da síndrome antimuscarínica é variável. A tríade clássica (taquicardia + secreções diminuídas + midríase) foi encontrada em apenas 28,2% dos casos, porém menos um desses três sinais estava presente em 94% dos pacientes.

A apresentação pode ser memorizada pela mnemônica clássica da toxicologia (em tradução livre):

  • “Quente como uma lebre”: Hipertermia (por inibição da sudorese).
  • “Cego como um morcego”: Midríase paralítica e visão turva.
  • “Seco como um osso”: Boca seca (xerostomia) e pele seca.
  • “Vermelho como uma beterraba”: Vasodilatação cutânea (Flushing).
  • “Louco como um chapeleiro”: Delírio, alucinações, agitação e confusão mental.

Achados adicionais importantes da  Síndrome Anticolinérgica

  • Cardiovascular: Taquicardia sinusal (achado mais precoce e comum).
  • Gastrintestinal/Urina: Íleo paralítico (ausência de ruídos hidroaéreos) e retenção urinária aguda.

Diagnóstico diferencial da  Síndrome Anticolinérgica

O principal diferencial deve ser feito com a Síndrome Simpaticomimética (cocaína, anfetaminas). 

A presença ou ausência de sudorese é o diferencial mais confiável entre as duas síndromes.

Sinal ClínicoSíndrome AnticolinérgicaSíndrome Simpaticomimética
SudoresePele seca (Anidrose)Diaforese (Pele úmida/suada)
Ruídos HidroaéreosDiminuídos ou ausentesAumentados
PupilasMidríaseMidríase

Abordagem terapêutica

O tratamento baseia-se em suporte rigoroso e descontaminação.

  1. Estabilização (ABCDE): Monitorização cardíaca contínua, acesso venoso e oximetria.
  2. Descontaminação Gastrointestinal:
    – Carvão Ativado (1g/kg): Indicado se o paciente estiver com via aérea protegida e a ingestão for recente (< 1-2 horas). Devido ao íleo paralítico, o esvaziamento gástrico pode ser retardado, estendendo a janela de benefício em alguns casos. Contraindicações: Via aérea não protegida ou comprometida, obstrução intestinal e perfuração intestinal
  3. Controle da Agitação e Convulsões:
    – Benzodiazepínicos (Midazolam ou Diazepam): São a droga de escolha. Devem ser usados agressivamente para controlar a agitação e a hipertermia.
    – Evitar: Antipsicóticos (haloperidol), pois podem baixar o limiar convulsivo e piorar os efeitos anticolinérgicos.
  4. Antídoto Específico (Fisostigmina):
    – Inibidor da acetilcolinesterase que cruza a barreira hematoencefálica.
    – Indicação: Toxicidade central grave (delírio intratável ou convulsões) que não responde a benzodiazepínicos.
    – Contraindicação Absoluta: Suspeita de intoxicação por tricíclicos (risco de assistolia e bloqueios cardíacos).

Referências Bibliográficas

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Alexandre Remor

Alexandre Remor

Foi residente de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) de 2016 a 2018. É um dos cofundadores da Medway e hoje ocupa o cargo de Chief Executive Officer (CEO). Siga no Instagram: @alexandre.remor