A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma emergência neurológica caracterizada por uma polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda. O reconhecimento precoce é vital, dado que a falência respiratória e as disautonomias são as principais causas de óbito nesta condição.
Definição e fisiopatologia da Síndrome de Guillain-Barré
A SGB é uma condição autoimune que acomete os nervos periféricos. O processo é classicamente marcado pela desmielinização aguda, embora possa haver lesão axonal associada.
Mecanismo de lesão
Gatilho Infeccioso: Em até 75% dos casos, identifica-se uma infecção prévia nas últimas 4 semanas.
Mimetismo Molecular: Ocorre uma reação cruzada entre anticorpos produzidos contra patógenos e antígenos dos nervos periféricos.
Diferente das lesões de 1º neurônio motor (córtex e feixe córtico-espinhal), que geram espasticidade e hiperreflexia, a SGB atinge o 2º neurônio motor:
Localização: O corpo celular reside no corno anterior da medula.
Manifestação: A lesão resulta em paralisia flácida e arreflexia, pois perde-se o comando final ao músculo e a referência do arco reflexo.
Quadro clínico e evolução da Síndrome de Guillain-Barré
O quadro típico apresenta-se como uma paresia/paralisia ascendente, simétrica e arreflexia.
Progressão: Inicia-se nos membros inferiores e progride no sentido caudal-cranial.
Pares Cranianos: Acometidos em 50% dos casos, destacando-se a diplegia facial (paralisia facial bilateral periférica).
Disautonomia: Manifesta-se por íleo adinâmico, labilidade pressórica, arritmias e retenção urinária.
Temporalidade: O pico dos sintomas ocorre entre 14 e 28 dias. Se a progressão exceder 8 semanas, considera-se o diagnóstico de polirradiculoneuropatia inflamatória crônica.
Diagnóstico diferencial e exames complementares da SGB
O diagnóstico baseia-se na clínica associada a exames complementares específicos.
Análise do Líquor (LCR)
Dissociação Proteíno-Citológica: Presença de níveis elevados de proteína (45-200 mg/dL) com contagem de células normal (< 5 células/mm³).
Observação:
O líquor pode estar normal na primeira semana de sintomas, o que não exclui a doença. Para ser mais preciso, a dissociação albumino-citológica está presente , em média, em 57% dos casos ≤4 dias do início da fraqueza e 84% após 4 dias.
Contagens > 50 células/mm³ sugerem diagnósticos alternativos, como HIV.
Eletroneuromiografia (ENMG)
Fundamental para confirmar o padrão de polirradiculoneuropatia desmielinizante e avaliar o prognóstico (presença de lesão axonal).
Diagnósticos diferenciais
Botulismo: Fraqueza descendente e midríase.
Síndrome de Miller-Fisher: Tríade de ataxia, oftalmoparesia e arreflexia.
Mielites: Sugeridas por nível sensitivo ou alterações esfincterianas graves precoces (sinais que falam contra SGB).
Critérios de gravidade e suporte clínico para Síndrome de Guillain-Barré
O suporte ventilatório é necessário em 10% a 30% dos casos.
Sinais de Alerta para Intubação (IOT)
A IOT deve ser imediata se houver:
Frequência respiratória > 30 irpm.
Fraqueza: Incapacidade de contar até 15 em uma única respiração. Incapacidade de elevar a cabeça da cama. Fraqueza bulbar e facial.
SatO2 < 92% ou pCO2 > 50 mmHg.
Disfunção autonômica
Nota Técnica: Evite o uso de succinilcolina na indução, devido ao alto risco de hipercalemia nesses pacientes.
Tratamento modificador da doença
Indicado para pacientes com evolução < 4 semanas e incapacidade de deambular ou sinais de insuficiência respiratória/bulbar.
Terapia
Posologia/Protocolo
Observações
Imunoglobulina IV
0,4g/Kg/dia por 5 dias
Preferencial pela facilidade logística.
Plasmaférese
~6 sessões em até 10 dias
Eficácia equivalente à imunoglobulina.
Restrição Absoluta: O uso de corticoides não possui benefício demonstrado na SGB e não deve ser realizado.
Prognóstico e vacinação para a SGB
Recuperação: Aproximadamente 20% não conseguem andar independentemente após 6 meses e 5% morrem mesmo com tratamento adequado. Aos 12 meses, 81% conseguem andar independentemente.
Pior Prognóstico: Idade > 60 anos, progressão fulminante (< 7 dias) e padrão axonal na ENMG.
Orientações sobre Vacinas
O risco de a infecção natural desencadear a SGB é superior ao risco vacinal.
Contraindicação Temporária: Se o episódio de SGB ocorreu em até 6 semanas após uma vacina específica, esta deve ser evitada.
Pós-SGB: Recomenda-se postergar novas imunizações por 3 a 12 meses após o início dos sintomas.
COVID-19: Vacinas liberadas, exceto a da Janssen (Ad.26COV2.S) para quem já teve a síndrome.
Referências Bibliográficas
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MURLEY A.S; et al. Guillain-Barré syndrome in adults: Treatment and prognosis. UpToDate, 2022.
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AL-HAKEM, H.; DOETS, A. Y.; STINO, A. M. et al. CSF findings in relation to clinical characteristics, subtype, and disease course in patients with Guillain-Barré syndrome. Neurology, 2023.
GALASSI, G.; MAZZOLI, M.; ARIATTI, A. et al. Predictors of respiratory failure in Guillain-Barré syndrome: a 22-year cohort study from a single Italian centre. European Journal of Neurology, 2024.
Mineiro de Uberlândia, nascido em 1995, formado pela Universidade Federal de Uberlândia. Residência em Clínica Médica no Hospital de Clínicas da USP de Ribeirão Preto.