Síndrome de Guillain-Barré: conceitos básicos e essenciais

Conteúdo / Medicina de Emergência / Síndrome de Guillain-Barré: conceitos básicos e essenciais

A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma emergência neurológica caracterizada por uma polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda. O reconhecimento precoce é vital, dado que a falência respiratória e as disautonomias são as principais causas de óbito nesta condição.

Definição e fisiopatologia da Síndrome de Guillain-Barré

A SGB é uma condição autoimune que acomete os nervos periféricos. O processo é classicamente marcado pela desmielinização aguda, embora possa haver lesão axonal associada.

Mecanismo de lesão

  • Gatilho Infeccioso: Em até 75% dos casos, identifica-se uma infecção prévia nas últimas 4 semanas.
  • Mimetismo Molecular: Ocorre uma reação cruzada entre anticorpos produzidos contra patógenos e antígenos dos nervos periféricos.
  • Agentes Comuns: Campylobacter jejuni (mais frequente), Influenza, SARS-CoV-2, HIV, Zika e Citomegalovírus.

Anatomia do segundo neurônio motor

Diferente das lesões de 1º neurônio motor (córtex e feixe córtico-espinhal), que geram espasticidade e hiperreflexia, a SGB atinge o 2º neurônio motor:

  • Localização: O corpo celular reside no corno anterior da medula.
  • Manifestação: A lesão resulta em paralisia flácida e arreflexia, pois perde-se o comando final ao músculo e a referência do arco reflexo.

Quadro clínico e evolução da Síndrome de Guillain-Barré

O quadro típico apresenta-se como uma paresia/paralisia ascendente, simétrica e arreflexia.

  • Progressão: Inicia-se nos membros inferiores e progride no sentido caudal-cranial.
  • Pares Cranianos: Acometidos em 50% dos casos, destacando-se a diplegia facial (paralisia facial bilateral periférica).
  • Disautonomia: Manifesta-se por íleo adinâmico, labilidade pressórica, arritmias e retenção urinária.
  • Temporalidade: O pico dos sintomas ocorre entre 14 e 28 dias. Se a progressão exceder 8 semanas, considera-se o diagnóstico de polirradiculoneuropatia inflamatória crônica.

Diagnóstico diferencial e exames complementares da SGB

O diagnóstico baseia-se na clínica associada a exames complementares específicos.

Análise do Líquor (LCR)

  • Dissociação Proteíno-Citológica: Presença de níveis elevados de proteína (45-200 mg/dL) com contagem de células normal (< 5 células/mm³).

Observação: 

  • O líquor pode estar normal na primeira semana de sintomas, o que não exclui a doença. Para ser mais preciso, a dissociação albumino-citológica está presente , em média, em 57% dos casos ≤4 dias do início da fraqueza e 84% após 4 dias.
  • Contagens > 50 células/mm³ sugerem diagnósticos alternativos, como HIV.

Eletroneuromiografia (ENMG)

Fundamental para confirmar o padrão de polirradiculoneuropatia desmielinizante e avaliar o prognóstico (presença de lesão axonal).

Diagnósticos diferenciais

  • Botulismo: Fraqueza descendente e midríase.
  • Síndrome de Miller-Fisher: Tríade de ataxia, oftalmoparesia e arreflexia.
  • Mielites: Sugeridas por nível sensitivo ou alterações esfincterianas graves precoces (sinais que falam contra SGB).

Critérios de gravidade e suporte clínico para Síndrome de Guillain-Barré

O suporte ventilatório é necessário em 10% a 30% dos casos.

Sinais de Alerta para Intubação (IOT)

A IOT deve ser imediata se houver:

  • Frequência respiratória > 30 irpm.
  • Fraqueza: Incapacidade de contar até 15 em uma única respiração. Incapacidade de elevar a cabeça da cama. Fraqueza bulbar e facial.
  • SatO2 < 92% ou pCO2 > 50 mmHg.
  • Disfunção autonômica

Nota Técnica: Evite o uso de succinilcolina na indução, devido ao alto risco de hipercalemia nesses pacientes.

Tratamento modificador da doença

Indicado para pacientes com evolução < 4 semanas e incapacidade de deambular ou sinais de insuficiência respiratória/bulbar.

TerapiaPosologia/ProtocoloObservações
Imunoglobulina IV0,4g/Kg/dia por 5 diasPreferencial pela facilidade logística.
Plasmaférese~6 sessões em até 10 diasEficácia equivalente à imunoglobulina.

Restrição Absoluta: O uso de corticoides não possui benefício demonstrado na SGB e não deve ser realizado.

Prognóstico e vacinação para a SGB

  • Recuperação: Aproximadamente 20% não conseguem andar independentemente após 6 meses e 5% morrem mesmo com tratamento adequado. Aos 12 meses, 81% conseguem andar independentemente.
  • Pior Prognóstico: Idade > 60 anos, progressão fulminante (< 7 dias) e padrão axonal na ENMG.

Orientações sobre Vacinas

  • O risco de a infecção natural desencadear a SGB é superior ao risco vacinal.
  • Contraindicação Temporária: Se o episódio de SGB ocorreu em até 6 semanas após uma vacina específica, esta deve ser evitada.
  • Pós-SGB: Recomenda-se postergar novas imunizações por 3 a 12 meses após o início dos sintomas.
  • COVID-19: Vacinas liberadas, exceto a da Janssen (Ad.26COV2.S) para quem já teve a síndrome.

Referências Bibliográficas

  1. CHANDRASHEKHAR. S; et al. Guillain-Barré syndrome in adults: Pathogenesis, clinical features, and diagnosis. UpToDate, 2022.
  2. MURLEY A.S; et al. Guillain-Barré syndrome in adults: Treatment and prognosis. UpToDate, 2022. 
  3. Guillain-Barré Syndrome.  SHAHRIZAILA, N.; LEHMANN, H. C.; KUWABARA, S. Guillain-Barré syndrome. Lancet, 2021.
  4. AL-HAKEM, H.; DOETS, A. Y.; STINO, A. M. et al. CSF findings in relation to clinical characteristics, subtype, and disease course in patients with Guillain-Barré syndrome. Neurology, 2023.

GALASSI, G.; MAZZOLI, M.; ARIATTI, A. et al. Predictors of respiratory failure in Guillain-Barré syndrome: a 22-year cohort study from a single Italian centre. European Journal of Neurology, 2024.

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
Lucas Faria

Lucas Faria

Mineiro de Uberlândia, nascido em 1995, formado pela Universidade Federal de Uberlândia. Residência em Clínica Médica no Hospital de Clínicas da USP de Ribeirão Preto.