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Torção testicular: tudo que você precisa saber

Fala, galera! Apresentaremos a vocês um pouco sobre a torção testicular, patologia extremamente comum na população pediátrica, mas que também pode acometer adultos. Por si só, já vale a pena sabermos um pouco mais sobre o assunto, como diagnosticar e tratar, porque temos certeza de que pelo menos um paciente com suspeita de torção testicular vocês irão ter contato na vida! E aí, preparados? Então só bora!

Mas antes de tudo… anatomia testicular

Vamos revisar um aspecto importantíssimo para entender a doença e como ela se desenvolve: a anatomia testicular. Para simplificar, vamos lembrar que o testículo é recoberto por 7 camadas sendo 2 túnicas. De fora para dentro temos: a pele do escroto, a túnica de Dartos (fáscia superficial do escroto), fáscia espermática externa, músculos e fáscia cremastérica, fáscia espermática interna, lâmina parietal da túnica vaginal e por último, a lâmina visceral da túnica vaginal.

Imagem ilustrativa da anatomia testicular.
Imagem ilustrativa da anatomia testicular.

Além das camadas que revestem os testículos, temos que lembrar dos elementos do cordão espermático (sim, aquele com várias estruturas!), que são: ducto deferente, artéria e veia deferencial, artéria testicular, artéria cremastérica, plexo pampiniforme, ramo genital do nervo genito-femoral, plexos nervosos do sistema nervoso autônomo, vasos linfáticos, cordão fibroso. Não se preocupe em decorar todas as estruturas. Grave que o cordão espermático é o grande responsável pela irrigação, retorno venoso do testículo e que contém o ducto deferente, responsável pela condução dos espermatozóides do epidídimo até a vesícula seminal. 

Agora que revisamos a anatomia, estamos preparados para entender a torção testicular!

O que é torção testicular? A torção testicular é a interrupção do suprimento sanguíneo testicular causada pela rotação do cordão espermático.

Temos dois tipos de torção: a extravaginal e a intravaginal. A primeira é mais comum no período neonatal, e ocorre durante a descida dos testículos antes da sua fixação na túnica vaginalis. Já a segunda, muito mais comum em crianças antes dos 3 anos ou após a puberdade, está relacionada com a falha na fixação do testículo na túnica vaginal. 

Muitas mães irão te perguntar: Mas Dr(a), por que o testículo se torce? Na maioria dos casos, a torção testicular é predisposta por essa falha na fixação do testículo na túnica vaginal. Estando o testículo mais “frouxo”, alguns outros fatores como a rápida contração cremastérica, trauma local podem culminar com a torção testicular.

A torção testicular intravaginal corresponde a aproximadamente 90% dos casos. 

Imagem ilustrativa de torção testicular.
Imagem ilustrativa de torção testicular. Legenda – A: extravaginal / B: intravaginal

E a clínica? O que esse paciente irá apresentar? 

Bem, a rotação do cordão espermático, leva a redução do retorno venoso, prejudicando a circulação arterial, e que se não for revertida, pode culminar com isquemia e necrose tecidual.

Portanto, a queixa principal do paciente será a dor testicular unilateral (por falta do suprimento sanguíneo), na grande maioria das vezes, de forma súbita, intensa que pode se irradiar para região inguinal ipsilateral. Geralmente é associada com náuseas ou vômitos

Ao exame físico, encontramos, a depender do tempo de evolução, edema testicular, testículo endurecido, elevado e horizontalizado (sinal de Angel), reflexo cremastérico ausente. Esse último é avaliado com estímulo tátil na face medial da parte mais proximal da coxa. Uma resposta normal seria a contração do músculo cremastérico e elevação do testículo à estimulação.

Já o famoso sinal de Prehn, nesses casos, é negativo, ou seja, o paciente não apresenta melhora com a elevação mecânica do testículo afetado, diferentemente dos pacientes com epididimite, os quais costumam apresentar melhora com a elevação testicular.

Diagnóstico da torção testicular

Para simplificar e guiar as nossas condutas, foi criado o “Twist Score”, que nada mais é que uma pontuação dos principais sintomas associados à escala de desenvolvimento puberal de Tanner. 

Os sintomas que recebem pontuação são: inchaço testicular (2), testículo endurecido (2), náuseas ou vômitos (1), elevação testicular (1) e ausência do reflexo cremastérico (1). Portanto, a pontuação máxima é 7. 

"Twist Score", ou seja, pontuação dos sintomas associados à escala de desenvolvimento puberal de Tanner.
“Twist Score”, ou seja, pontuação dos sintomas associados à escala de desenvolvimento puberal de Tanner.

Já a escala de desenvolvimento puberal de Tanner varia de 1 a 5, conforme a figura. 

 escala de desenvolvimento puberal de Tanner
Escala de desenvolvimento puberal de Tanner.

Associando uma informação com a outra, chegamos a um fluxograma para guiar nossa conduta frente a uma suspeita de torção testicular.

Na imagem: fluxograma de diagnóstico de torção testicular.
Na imagem: fluxograma de diagnóstico de torção testicular.

Então, nos casos em que há dúvida diagnóstica, solicitamos o ultrassom doppler, sem que esse atrase a conduta cirúrgica. 

Por exemplo, em regiões onde o US doppler não é disponível, deve-se sempre encaminhar o quanto antes a um centro de referência para avaliação do cirurgião.

Diagnóstico feito, agora bora pro tratamento!

O tratamento da torção testicular é a sua distorção, seja manual (geralmente girando o testículo de “medial para lateral” ou como se fosse folhear um livro aberto) ou a exploração cirúrgica, na grande maioria dos casos. 

E quantas horas temos do início dos sintomas até a cirurgia para tentarmos salvar o testículo? Há um número mágico de 6 horas. Estudos revelam que quanto mais precoce a abordagem cirúrgica, maior a viabilidade testicular, porém independente do tempo de história, o tratamento será sempre a cirurgia. 

Portanto, um paciente com mais de 6 horas de história também deve ser tratado o mais urgente possível, pois na torção testicular, tempo é testículo.

Exploração testicular: quadro de duração da torção e taxas de salvamento testicular.
Na imagem: quadro de duração da torção e taxas de salvamento testicular.

Realizada a exploração testicular, avalia-se no intraoperatório a viabilidade do testículo. Caso este seja viável, realiza-se a distorção e sua fixação associada à fixação do testículo contralateral, a fim de evitar novos episódios. Por outro lado, caso o testículo seja inviável, ou seja, já apresente grau importante de necrose, prossegue-se então com a orquiectomia e a fixação do testículo contralateral, a qual é realizada fixando-se o testículo à túnica vaginal.

Bom, pessoal, espero que tenham gostado e aprendido um pouquinho! Nunca se esqueçam, “tempo é testículo!” , então estejam preparados e ajam rápido! Tenho certeza de que agora estão mais do que aptos para lidarem com uma suspeita de torção testicular!

É isso!

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*Autor: Lucas Konji

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LucasKoji

Lucas Koji

Nascido em Londrina-PR, é formado médico e cirurgião geral pela Faculdade de Medicina de Botucatu ( FMB - UNESP). Atualmente é residente de Cirurgia Pediátrica pelo Hospital do Pequeno Príncipe.