Pólipo endometrial: diagnóstico, investigação e abordagem clínica

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Conteúdo atualizado em: 29/05/2026 – Antes de falarmos especificamente sobre o diagnóstico de pólipo endometrial, vale a pena relembrar rapidamente o conceito de sangramento uterino anormal (SUA), já que essa é a principal manifestação clínica relacionada aos pólipos endometriais.

O sangramento uterino anormal é uma das queixas ginecológicas mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva e também na pós-menopausa. Atualmente, consideramos como SUA qualquer padrão de sangramento que esteja fora dos parâmetros esperados para frequência, duração, regularidade e volume menstrual. 

Apesar de muitas vezes não representar uma emergência, o quadro pode impactar significativamente a qualidade de vida da paciente, causando desconforto, insegurança e anemia em alguns casos.

Para facilitar a investigação etiológica do SUA, utilizamos a conhecida classificação PALM-COEIN, que divide as causas em estruturais e não estruturais. Dentro das causas estruturais, encontramos os pólipos endometriais, uma das alterações mais prevalentes do endométrio.

Mas afinal, o que são os pólipos endometriais?

Os pólipos endometriais são formações focais da mucosa uterina compostas por proliferação glandular, estromal e vascular. Na prática, funcionam como projeções do endométrio para dentro da cavidade uterina, podendo apresentar implantação pediculada ou séssil, com base larga.

Essas lesões podem ser únicas ou múltiplas e variar bastante de tamanho, desde pequenos pólipos milimétricos até formações maiores ocupando parte importante da cavidade uterina. Histologicamente, podem conter tecido endometrial funcional ou não funcional.

Apesar de geralmente serem benignos, existe um pequeno risco de malignidade associado aos pólipos endometriais, estimado entre 0,5% e 3% dos casos. Esse risco é maior principalmente em mulheres na pós-menopausa, em pacientes com sangramento persistente e naquelas que apresentam fatores de risco associados.

Os pólipos podem acometer cerca de 25% das mulheres ao longo da vida e sua incidência aumenta com a idade, especialmente após a menopausa.

Por que os pólipos endometriais surgem?

A fisiopatologia dos pólipos endometriais ainda não é completamente compreendida, mas sabe-se que existe participação hormonal importante no desenvolvimento dessas lesões.

Os pólipos estão relacionados a um crescimento focal anormal do endométrio, envolvendo hiperplasia monoclonal do tecido endometrial, aumento da expressão de aromatase e alterações gênicas que favorecem proliferação celular local. Além disso, essas lesões apresentam receptores hormonais para estrógeno e progesterona, sofrendo influência direta do estímulo hormonal.

De forma geral, acredita-se que o estímulo estrogênico contínuo, especialmente quando não adequadamente contraposto pela progesterona, favoreça o aparecimento e crescimento dos pólipos.

Entre os principais fatores de risco para desenvolvimento de pólipos endometriais, destacam-se:

E o que o tamoxifeno tem a ver com os pólipos?

O tamoxifeno merece atenção especial. Muito utilizado como terapia adjuvante no câncer de mama, ele atua como antagonista estrogênico no tecido mamário, mas apresenta efeito agonista parcial sobre o endométrio. 

Como consequência, até 36% das mulheres em uso da medicação podem desenvolver pólipos endometriais. Nesses casos, os pólipos frequentemente são maiores, múltiplos e associados a maior preocupação clínica.

Quais são os sintomas do pólipo endometrial?

Na maioria das vezes, os pólipos endometriais são assintomáticos. Muitos deles são descobertos incidentalmente durante exames de imagem realizados por outros motivos, principalmente na ultrassonografia transvaginal.

Quando sintomáticos, o quadro clínico mais característico é o sangramento uterino anormal. O padrão mais comum é o sangramento intermenstrual, geralmente em pequena quantidade, manifestando-se apenas como spotting. Em alguns casos, entretanto, podem ocorrer sangramentos mais volumosos ou menorragia.

O mecanismo do sangramento está relacionado principalmente à congestão estromal e necrose apical do pólipo.

Além do sangramento, os pólipos endometriais também podem estar associados à infertilidade. Isso ocorre especialmente quando a lesão distorce a cavidade uterina, dificulta a implantação embrionária ou atua como barreira mecânica à ascensão dos espermatozoides, principalmente nos casos próximos ao canal endocervical.

Mais raramente, o pólipo pode se tornar prolapsado através do colo uterino. Nessas situações, a lesão pode ser visualizada ao exame especular como uma estrutura globular, friável e pediculada, além de eventualmente ser palpada ao toque vaginal.

Como é feito o diagnóstico do pólipo endometrial?

O diagnóstico do pólipo endometrial envolve integração entre história clínica, exame físico e métodos de imagem. A suspeita costuma surgir diante de quadros de sangramento uterino anormal, especialmente intermenstrual.

O exame físico geralmente é normal, exceto nos raros casos de pólipo prolapsado.

Ultrassonografia transvaginal

A ultrassonografia transvaginal é o principal exame inicial na investigação dos pólipos endometriais. Idealmente, deve ser realizada durante a fase proliferativa do ciclo menstrual, quando o endométrio se encontra mais fino, facilitando a visualização das lesões intracavitárias.

Na ultrassonografia, o pólipo costuma aparecer como:

  • Espessamento endometrial focal;
  • Lesão homogênea e bem delimitada;
  • Aspecto isoecogênico ao endométrio;
  • Preservação da interface endométrio-miométrio.

O Doppler colorido aumenta significativamente a especificidade diagnóstica. O achado clássico é a presença de um vaso nutridor único central, bastante sugestivo de pólipo endometrial.

Histeroscopia: o padrão ouro

A histeroscopia é considerada o método padrão ouro para o diagnóstico dos pólipos endometriais. O exame permite visualização direta da cavidade uterina e avaliação detalhada da lesão, incluindo tamanho, localização, base de implantação e aspecto superficial.

Além do diagnóstico, a histeroscopia também possui importante papel terapêutico. Durante o procedimento é possível realizar biópsia dirigida e polipectomia simultaneamente, tornando o método extremamente eficiente.

Essa combinação entre diagnóstico e tratamento no mesmo procedimento é uma das grandes vantagens da abordagem histeroscópica.

Diagnóstico diferencial

Nem todo espessamento focal do endométrio corresponde a um pólipo. Entre os principais diagnósticos diferenciais das causas estruturais de sangramento uterino anormal, devemos lembrar de:

  • Mioma submucoso;
  • Hiperplasia endometrial;
  • Câncer de endométrio;
  • Adenomiose focal.

A diferenciação adequada entre essas condições é fundamental para definição da conduta e avaliação do risco de malignidade.

Como é feito o tratamento?

A abordagem terapêutica depende principalmente do tamanho do pólipo, da presença de sintomas, idade da paciente, fatores de risco para malignidade e desejo reprodutivo.

De maneira geral, pólipos sintomáticos possuem indicação de remoção. Em mulheres na pós-menopausa, a retirada costuma ser recomendada mesmo em lesões assintomáticas devido ao maior risco de transformação maligna.

Em relação ao tamanho, pólipos acima de 1,5 cm a 2 cm costumam ter indicação mais forte de remoção, mesmo em pacientes assintomáticas, porque apresentam menor chance de regressão espontânea e maior possibilidade de sintomas. Já pólipos pequenos (<1 cm) em mulheres jovens, assintomáticas e sem fatores de risco podem ser apenas acompanhados.

Pacientes com infertilidade também podem se beneficiar da polipectomia, especialmente quando existe distorção da cavidade uterina.

Polipectomia histeroscópica

A polipectomia histeroscópica é considerada o tratamento de escolha.

Entre suas principais vantagens, destacam-se:

  • Diagnóstico e tratamento simultâneos;
  • Alta taxa de resolução dos sintomas;
  • Baixa taxa de complicações;
  • Recuperação rápida;
  • Possibilidade de análise histopatológica completa.

Conduta expectante

Em alguns casos selecionados, pode-se optar por acompanhamento clínico e ultrassonográfico, principalmente em pacientes:

  • Assintomáticas;
  • Com pólipos pequenos;
  • Sem fatores de risco para malignidade;
  • Em pré-menopausa.

Nessas situações, o seguimento deve ser individualizado.

Prognóstico

O prognóstico dos pólipos endometriais costuma ser bastante favorável. A maioria das pacientes apresenta resolução completa dos sintomas após a polipectomia, com baixa taxa de complicações.

Embora o risco de malignidade seja baixo, ele não deve ser negligenciado, especialmente em mulheres na pós-menopausa, usuárias de tamoxifeno ou com sangramento persistente.

Além disso, existe possibilidade de recorrência dos pólipos em alguns casos, tornando o acompanhamento importante em pacientes selecionadas.

Pontos-chave sobre pólipo endometrial

  • É uma causa estrutural de sangramento uterino anormal dentro do PALM-COEIN;
  • O principal sintoma é o sangramento intermenstrual;
  • A ultrassonografia transvaginal é o principal exame inicial;
  • O Doppler colorido pode demonstrar vaso nutridor único central;
  • A histeroscopia é o padrão ouro diagnóstico;
  • A polipectomia histeroscópica é o tratamento de escolha;
  • O tamoxifeno aumenta significativamente o risco de pólipos;
  • A maioria das lesões é benigna;
  • Pode haver associação com infertilidade.

Conclusão

O pólipo endometrial é uma condição frequente e muitas vezes subdiagnosticada na prática ginecológica. Apesar de frequentemente benigno e assintomático, pode estar associado a sangramento uterino anormal, infertilidade e, mais raramente, malignidade.

O reconhecimento adequado da condição e a correta interpretação dos exames de imagem são fundamentais para condução apropriada dos casos. Nesse contexto, a ultrassonografia transvaginal ocupa papel central na investigação inicial, enquanto a histeroscopia permanece como método diagnóstico definitivo e principal ferramenta terapêutica.

Referências

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Daniela Simões Simonian

Daniela Simões Simonian

Graduada em Medicina pela PUC Campinas. Realizou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição e se subespecializou em Medicina Fetal pela USP-RP.