O choque hipovolêmico é a forma mais comum de choque na prática clínica e na emergência. Caracteriza-se por uma falência circulatória onde a redução do volume intravascular (pré-carga) compromete o débito cardíaco, resultando em oferta inadequada de oxigênio (DO²) para as demandas metabólicas celulares.
Definição e classificação do Choque Hipovolêmico
O choque hipovolêmico ocorre devido à perda crítica de volume sanguíneo ou fluidos corporais.
Choque Hemorrágico: Perda direta de sangue total. Causas comuns incluem traumas (contusos ou penetrantes), sangramentos gastrointestinais (varizes de esôfago, úlceras) ou rupturas de aneurismas.
Choque Não Hemorrágico: Redução do volume intravascular por perda de outros fluidos. Exemplos incluem grandes queimados, desidratação grave (vômitos/diarreia), insolação e perdas para o “terceiro espaço”.
Fisiopatologia e mecanismos compensatórios do Choque Hipovolêmico
A queda do volume sanguíneo reduz o retorno venoso e, consequentemente, o volume sistólico.
Para manter a perfusão de órgãos nobres, o organismo ativa:
Sistema Nervoso Simpático: Aumenta a frequência cardíaca (taquicardia) e a contratilidade, além de promover vasoconstrição periférica para redirecionar o fluxo.
Eixo Renina-Angiotensina-Aldosterona: Retenção de sódio e água para tentar restaurar a volemia.
Classificação de Choque Hemorrágico (ATLS 10ª Ed.)
A classificação do ATLS é fundamental para definir a estratégia de reposição volêmica baseada na perda estimada.
Parâmetro
Classe I
Classe II
Classe III
Classe IV
Perda de Sangue (%)
< 15%
15% – 30%
30% – 40%
> 40%
Frequência Cardíaca
Normal (<100 bpm)
100-120 bpm
120-140 bpm
>140 bpm
Pressão Arterial
Normal
Normal
Reduzida
Muito Reduzida
Nível de Consciência
Ansioso
Ansioso
Confuso
Letárgico
Conduta Inicial
Cristaloides
Cristaloides
Cristaloides + Sangue
Transfusão Maciça
Diagnóstico e quadro clínico para Choque Hipovolêmico
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Manejo terapêutico e reanimação volêmica
O objetivo principal é restaurar a perfusão tecidual e interromper a perda de volume.
Reanimação com Cristaloides
A prática antiga de “2L de cristalóide” deve ser abandonada – piora coagulopatia e acidose.
Pacientes normotensos não devem receber ressuscitação volêmica. Atualmente, recomenda-se parcimônia, isto é, menos de 3 litros nas primeiras 6 horas. O uso excessivo de cristaloides pode levar à tríade da morte (acidose, coagulopatia e hipotermia) e ao edema tecidual.
Hipotensão Permissiva: Em casos de trauma sem lesão cerebral, mantém-se a PAS entre 80-90 mmHg até o controle do sangramento para evitar a destruição de coágulos formados.
OBS: Contraindicação absoluta: Pacientes com TCE devem manter PAS >110 mmHg (ou PAM >80 mmHg) devido ao risco de lesão cerebral secundária
Protocolo de Transfusão Maciça (PTM)
Indicado em choques Classe IV ou quando há necessidade de > 10 bolsas de sangue em 24h.
Proporção: 1:1:1 (Concentrado de Hemácias, Plasma Fresco Congelado e Plaquetas).
Ácido Tranexâmico (TXA): Deve ser administrado em traumas hemorrágicos dentro das primeiras 2 horas. Em TCE grave (GCS <9): Benefício pode persistir além de 2 horas. Dose: 1g IV em bolus (10 min) + 1g em infusão (8h) OU 2g em dose única (evidência emergente).
Reposição de cálcio: Citrato nos hemoderivados pode causar hipocalcemia grave e coagulopatia progressiva. Por isso, deve-se repor empiricamente 1g de cloreto de cálcio IV após cada 4 unidades de hemoderivados
Quando parar a reanimação volêmica (Endpoints de ressuscitação)
Os endpoints de ressuscitação são marcadores que avaliam a adequação da reanimação volêmica. É recomendado integrar múltiplos endpoints, pois nenhum isoladamente é suficiente, dentre eles:
Lactato: Produto do metabolismo anaeróbico; valores >4 mmol/L associados a mortalidade de ~19%. O clearance de lactato (normalização em 6h) é tão importante quanto o valor inicial — clearance <30% aumenta mortalidade em 7x.
AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. ATLS – Advanced Trauma Life Support. 10th ed. Chicago: ACS, 2018.
SPAHN, D. R. et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma. Critical Care, 2019.
MEKONTSO DESSAP, A.; ALSHAMSI, F.; BELLETTI, A. et al. European Society of Intensive Care Medicine (ESICM) 2025 clinical practice guideline on fluid therapy in adult critically ill patients: part 2 – the volume of resuscitation fluids. Intensive Care Medicine, 2025.
CANNON, J. W. Hemorrhagic shock. The New England Journal of Medicine, 2018.
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