Conteúdo atualizado em: 14/05/2026 ― A diarreia crônica em Pediatria é um problema relativamente frequente e que pode representar desde condições benignas e autolimitadas até doenças orgânicas relevantes. Define-se, de forma geral, como a persistência de fezes amolecidas ou líquidas por mais de 4 semanas.
O principal desafio na prática clínica está em diferenciar quadros funcionais, que são mais comuns, de causas orgânicas que exigem investigação e tratamento específicos.
Na prática ambulatorial, a diarreia é caracterizada principalmente por alteração da consistência das fezes (tipos 6 ou 7 da escala de Bristol) e aumento da frequência evacuatória.
A classificação temporal é útil para organização do raciocínio:
Embora a quantificação do peso fecal possa ser utilizada em estudos, ela raramente é aplicada na prática clínica pediátrica.
A abordagem da diarreia crônica deve sempre partir do mecanismo fisiopatológico, pois isso direciona a investigação.
A diarreia pode ser osmótica, quando há retenção de água por solutos não absorvidos, secretora, quando há secreção ativa de eletrólitos, inflamatória, quando existe lesão da mucosa intestinal, ou relacionada a distúrbios de motilidade, quando há trânsito intestinal anormal.
Um conceito útil é o gap osmótico fecal, que auxilia na diferenciação entre diarreia osmótica e secretora. Valores baixos (< 50 mOsm/kg) sugerem diarreia secretora, enquanto valores elevados (>75 mOsm/kg) apontam para mecanismo osmótico.
Apesar de útil conceitualmente, esse cálculo não é frequentemente utilizado na prática clínica inicial.
As etiologias variam conforme idade e contexto clínico.
Entre as causas mais comuns, destacam-se intolerância à lactose (frequentemente secundária), diarreia funcional, infecções parasitárias como giardíase, alergia à proteína do leite de vaca e doença celíaca.
Causas menos frequentes, porém clinicamente relevantes, incluem doença inflamatória intestinal, fibrose cística, supercrescimento bacteriano e imunodeficiências.
Etiologias raras, como enteropatias congênitas e tumores neuroendócrinos, devem ser consideradas em casos atípicos ou de evolução grave.
A avaliação da diarreia crônica deve começar pela diferenciação entre causas funcionais e orgânicas, etapa fundamental para evitar tanto investigação excessiva quanto atraso diagnóstico.
A anamnese deve ser detalhada e direcionada. Alguns pontos têm alto valor discriminatório: idade de início dos sintomas, padrão das fezes, presença de sangue ou muco, relação com alimentação, sintomas associados e evolução ponderoestatural.
Um dado particularmente importante é o impacto no crescimento. Crianças com crescimento adequado tendem a apresentar quadros funcionais, enquanto perda ponderal ou falha de crescimento sugerem etiologia orgânica.
A presença de sinais de alarme muda completamente a abordagem e indica investigação mais aprofundada. Entre eles, destacam-se perda ponderal ou falha de crescimento, evacuações noturnas, presença de sangue nas fezes, febre persistente e dor abdominal importante.
Na prática e na prova, um conceito fundamental é: diarreia associada a comprometimento do crescimento deve sempre levantar suspeita de doença orgânica.
Após a avaliação inicial, a caracterização das fezes ajuda a orientar o mecanismo fisiopatológico.
A diarreia aquosa é a forma mais comum e pode ter origem osmótica ou secretora. A diarreia osmótica costuma melhorar com jejum ou retirada do fator desencadeante (como lactose), enquanto a secretora persiste independentemente da alimentação.
A diarreia gordurosa, caracterizada por fezes volumosas, fétidas e de difícil lavagem, sugere má absorção, sendo clássica em condições como doença celíaca e fibrose cística.
Já a diarreia inflamatória associa-se à presença de muco, sangue e dor abdominal, sugerindo doenças como doença inflamatória intestinal ou infecções invasivas.
A investigação deve ser progressiva e guiada pela clínica. Em pacientes sem sinais de alarme, com bom estado geral e crescimento adequado, é possível adotar inicialmente conduta conservadora, com orientação dietética e observação evolutiva.
Por outro lado, a presença de sinais de alarme ou falha na evolução clínica indica necessidade de investigação complementar.
Nesses casos, os exames iniciais mais úteis incluem o exame parasitológico de fezes, especialmente para pesquisa de Giardia, e a triagem para doença celíaca com anti-transglutaminase IgA associada à dosagem de IgA total. Esses diagnósticos são clássicos e frequentemente cobrados em provas.
A investigação deve ser ampliada quando houver sinais de alarme, falha terapêutica ou suspeita de doença orgânica.
A calprotectina fecal é um marcador útil para triagem de inflamação intestinal. Valores elevados sugerem doença inflamatória intestinal e indicam necessidade de avaliação endoscópica.
Na suspeita de má absorção, a pesquisa de gordura fecal pode ser útil, enquanto o teste do suor deve ser solicitado quando houver suspeita de fibrose cística, especialmente na presença de desnutrição ou sintomas respiratórios associados.
Alguns cenários clínicos orientam diretamente o diagnóstico. A diarreia associada ao uso recente de antibióticos deve levantar suspeita de infecção por Clostridioides difficile. Em crianças com distensão abdominal, atraso de crescimento e fezes gordurosas, é fundamental considerar doença celíaca ou fibrose cística.
Já a presença de dor abdominal, sangue nas fezes e sintomas sistêmicos sugere fortemente doença inflamatória intestinal.
O tratamento da diarreia crônica deve ser direcionado à causa de base, mas alguns princípios gerais devem ser seguidos.
A manutenção do estado nutricional é essencial, especialmente em lactentes e crianças pequenas. A hidratação deve ser garantida, e deficiências nutricionais devem ser corrigidas.
As intervenções específicas incluem retirada de lactose nos casos de intolerância, dieta isenta de glúten na doença celíaca e terapias específicas para doenças inflamatórias ou infecciosas.
O uso rotineiro de antidiarreicos não é recomendado em pediatria. O papel dos probióticos permanece limitado e deve ser avaliado caso a caso.
O prognóstico depende da etiologia e da precocidade do diagnóstico.
Quadros funcionais e infecciosos geralmente apresentam evolução favorável, enquanto doenças inflamatórias, imunológicas ou genéticas podem exigir acompanhamento prolongado.
A presença de desnutrição e atraso diagnóstico está associada a piores desfechos.
Graduada em Medicina pela Universidade São Francisco (USF) em Bragança Paulista, SP. Completou a Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Infantil Sabará em São Paulo, SP. Hoje realiza pós-doutorado em Alergia e Imunologia Pediátrica na University of South Florida e Johns Hopkins All Children’s Hospital em Saint Petersburg, FL, nos Estados Unidos.