Guideline Sepse 2026: veja as principais mudanças

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A Surviving Sepsis Campaign publicou, a nova atualização de suas diretrizes para manejo da sepse e do choque séptico: o Guideline Sepse 2026. O documento que serve como principal referência global para médicos que atuam em pronto atendimento, enfermarias e unidades de terapia intensiva. 

A nova versão substitui e amplia as recomendações do guideline de 2021, incorporando evidências recentes e propondo mudanças relevantes na abordagem diagnóstica, terapêutica e organizacional da doença.

Entre os destaques estão a reformulação da estratégia de rastreamento, a introdução de um modelo diagnóstico baseado em probabilidade e uma maior ênfase em protocolos institucionais, como o “code sepsis”.

CONFIRA O GUIDELINE NA ÍNTEGRA

O que é o Guideline de Sepse e por que ele é importante?

A Surviving Sepsis Campaign (SSC) reúne especialistas internacionais para elaborar recomendações baseadas em evidências sobre o cuidado de pacientes com sepse. Esses guidelines são amplamente utilizados como base para:

  • protocolos hospitalares
  • diretrizes clínicas
  • preparação para provas de residência médica

A atualização de 2026 mantém o compromisso com medicina baseada em evidências, mas avança ao incorporar também aspectos de organização do cuidado, um ponto que ganha protagonismo nesta versão.

Principais mudanças do Guideline Sepse 2026

1. Organização do cuidado ganha protagonismo

Uma das principais novidades é a forte recomendação para implementação de:

  • protocolos estruturados
  • programas de melhoria de qualidade (quality improvement – QI)
  • rastreamento sistemático de sepse

Além disso, o guideline formaliza o conceito de “code sepsis”, que prevê ativação rápida de equipe multidisciplinar, semelhante ao que já ocorre em situações como parada cardiorrespiratória.

Na prática, o foco deixa de ser apenas a conduta médica isolada e passa a incluir o desempenho do sistema como um todo.

2. Rastreamento: consolidação do abandono do qSOFA

O guideline 2026 reforça uma mudança importante iniciada na versão anterior:

  • qSOFA não deve ser utilizado como ferramenta de triagem isolada
  • recomendação para uso de escores mais sensíveis, como:
    • NEWS / NEWS2
    • MEWS
    • SIRS

Além disso, há ampliação do rastreamento para:

  • ambiente pré-hospitalar (ex.: ambulâncias)
  • sistemas eletrônicos de alerta

O objetivo é identificar sepse de forma mais precoce, inclusive fora do ambiente hospitalar.

3. Novo modelo diagnóstico baseado em probabilidade

Uma das mudanças conceituais mais relevantes é a classificação da sepse em níveis de probabilidade:

  • definida
  • provável
  • possível
  • improvável

Essa abordagem reconhece a incerteza inerente ao diagnóstico e auxilia na tomada de decisão clínica, especialmente em relação ao uso de antibióticos.

4. Biomarcadores: papel limitado

Apesar do avanço tecnológico, o guideline reforça que:

  • nenhum biomarcador isolado deve definir sepse
  • não há recomendação para uso rotineiro de novos testes

O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, com apoio de exames laboratoriais.

5. Antibiótico: mais foco em reavaliação e descalonamento

O início precoce da antibioticoterapia permanece fundamental, mas há maior ênfase em:

  • reavaliação contínua
  • descalonamento
  • suspensão em caso de diagnóstico alternativo

Essa mudança fortalece práticas de antimicrobial stewardship, reduzindo riscos como resistência bacteriana.

Além disso, a recomendação para infusão prolongada de beta-lactâmicos foi elevada para “Forte” (anteriormente era condicional), baseada em novos dados (como o estudo BLING III) que demonstraram redução na mortalidade.

6. Ressuscitação volêmica: menos rigidez, mais individualização

A recomendação de reposição inicial de fluidos (≥ 30 mL/kg) foi mantida, mas com nuances importantes:

  • abordagem menos protocolar
  • maior foco em resposta clínica
  • atenção ao risco de sobrecarga volêmica

Além disso, pacientes com lactato entre 2–4 mmol/L passam a receber maior atenção na ressuscitação.

Sobre o outro lado da moeda – Remoção Ativa de Fluidos: Agora há uma sugestão para o uso de remoção ativa de fluidos (balanço negativo) após a fase aguda de ressuscitação para evitar a sobrecarga hídrica.

7. Vasopressores: início mais precoce

Outra mudança relevante é a possibilidade de:

  • iniciar vasopressores mais cedo
  • em alguns casos, concomitantemente à reposição volêmica

O objetivo é reduzir o tempo de hipotensão e melhorar a perfusão tecidual.

A noradrenalina segue sendo recomendada como medicação de primeira linha, e em caso de componente de disfunção cardíaca sugere-se a adição de dobutamina (inotrópico positivo).

8. Monitorização: manutenção das bases

Alguns pilares permanecem:

  • uso do lactato como marcador de perfusão 
  • alvo de PAM em torno de 65 mmHg
  • reavaliação clínica frequente

Embora o alvo geral permaneça em 65 mmHg, a diretriz agora sugerem um alvo menor (60–65 mm Hg) para pacientes com 65 anos ou mais, visando reduzir a exposição excessiva a vasopressores

Aqui, o guideline reforça práticas já consolidadas, sem mudanças significativas.

Conclusão

O Guideline Sepse 2026 não apenas atualiza recomendações, mas redefine a forma como a sepse deve ser abordada: de maneira precoce, integrada e individualizada.

Mais do que decorar protocolos, o desafio agora é compreender o processo, desde o rastreamento até a reavaliação contínua, e aplicá-lo de forma crítica na prática clínica.

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Ana Karoline Bittencourt Alves

Ana Karoline Bittencourt Alves

Professora da Medway. Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Residência em Clínica Médica (2019-2021) e Medicina Intensiva (2022-2025) pela Universidade de São Paulo (USP - SP). Siga no Instagram: @anakabittencourt