O que é o qSOFA e qual sua relação com a sepse?

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Conteúdo atualizado em: 21/05/2026 – O qSOFA é um escore clínico simples, aplicado à beira-leito, utilizado para identificar pacientes com suspeita de infecção e maior risco de desfechos desfavoráveis, especialmente fora da unidade de terapia intensiva. Sua relação com a sepse é relevante porque ele ajuda a reconhecer pacientes potencialmente graves, mas não deve ser interpretado como ferramenta diagnóstica isolada.

A sepse permanece uma das principais causas de morbimortalidade hospitalar, exigindo reconhecimento precoce, abordagem sistematizada e tratamento imediato. Na prática clínica e nas provas, é essencial diferenciar o papel do SOFA e do qSOFA, evitando o erro de tratar o qSOFA como critério definitivo de diagnóstico.

Definição de sepse

A definição atual de sepse, consolidada no Sepsis-3, é a de disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. 

O racional dos escores ligados à sepse é tentar reconhecer, de maneira objetiva, sinais fisiológicos e laboratoriais que indiquem deterioração clínica.

Quadro clínico da sepse

A apresentação clínica da sepse é heterogênea e depende do foco infeccioso, da resposta do hospedeiro e do grau de disfunção orgânica.

Sinais e sintomas que devem despertar suspeita de sepse

  • Febre ou hipotermia
  • Taquicardia
  • Taquipneia
  • Hipotensão
  • Alteração do nível de consciência
  • Oligúria
  • Hipoxemia
  • Extremidades frias
  • Lactato elevado
  • Sinais de hipoperfusão

O qSOFA seleciona apenas três desses achados clínicos para estratificação rápida de risco.

A SSC 2026 agora recomenda fortemente usar NEWS/NEWS2/MEWS/SIRS em vez do qSOFA como ferramenta única, mas reconhece que qSOFA ainda é útil para detectar deterioração clínica.

Escores SOFA e qSOFA

O SOFA avalia diretamente disfunções em múltiplos órgãos, caracterizadas por identificada pelo aumento de 2 pontos ou mais nesse score em contexto de infecção suspeita ou confirmada.

O qSOFA, sigla para quick Sequential Organ Failure Assessment, é uma versão simplificada proposta para uso rápido fora da UTI. Este scire usa apenas variáveis clínicas simples, funcionando mais como marcador de gravidade do que como medida formal de falência orgânica. Por isso, ele tem valor prognóstico, mas sensibilidade insuficiente para ser utilizado sozinho como estratégia de rastreio universal.

1. SOFA

O SOFA avalia seis sistemas orgânicos:

  • Respiratório
  • Coagulação
  • Hepático
  • Cardiovascular
  • Neurológico
  • Renal

Como aplicar

  • Somar a pontuação de cada sistema, de 0 a 4

Como interpretar

  • Aumento de 2 pontos ou mais em paciente com infecção sugere disfunção orgânica compatível com sepse

Implicação clínica

  • É o escore mais alinhado à definição operacional de sepse do Sepsis-3
  • Tem melhor aplicabilidade em pacientes internados e, especialmente, em ambiente de maior suporte assistencial

2.  qSOFA

O qSOFA inclui três variáveis:

  • Frequência respiratória maior ou igual a 22 irpm
  • Pressão arterial sistólica menor ou igual a 100 mmHg
  • Alteração do nível de consciência, usualmente definida como Glasgow menor que 15

Cada critério vale 1 ponto, com pontuação total de 0 a 3.

Como aplicar

  • Usar em pacientes com suspeita de infecção, especialmente fora da UTI
  • Somar um ponto para cada critério presente

Como interpretar

  • qSOFA maior ou igual a 2 indica maior risco de mortalidade hospitalar e maior chance de desfecho desfavorável
  • qSOFA menor que 2 não exclui sepse

Implicação clínica

  • Ferramenta de alerta
  • Não substitui avaliação clínica, SOFA, lactato, exame físico e investigação do foco infeccioso

Limitações do qSOFA

O principal problema do qSOFA é sua baixa sensibilidade como ferramenta única de triagem. Isso significa que pacientes com sepse podem ter qSOFA baixo, especialmente em fases iniciais. 

Por esse motivo, a Surviving Sepsis Campaign recomenda contra o uso do qSOFA como única ferramenta de rastreio, preferindo estratégias que podem incluir SIRS, NEWS ou MEWS, conforme o cenário assistencial.

Posição do ILAS

No contexto brasileiro, o ILAS ressalta que aguardar dois critérios do qSOFA para desencadear conduta pode atrasar reconhecimento e tratamento em instituições com alta mortalidade e diagnóstico tardio. 

O instituto destaca que hipotensão, taquipneia e alteração do nível de consciência devem motivar avaliação médica imediata, mesmo antes de qSOFA fechado.

Conduta prática diante de qSOFA alterado

  • Reavaliar imediatamente o paciente
  • Procurar foco infeccioso
  • Verificar sinais de disfunção orgânica
  • Solicitar exames pertinentes, incluindo lactato
  • Calcular SOFA quando aplicável
  • Calcular outros escores de risco como NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS que são mais sensíveis 
  • Iniciar protocolo institucional de sepse se houver suspeita clínica consistente
  • Não aguardar piora adicional para começar abordagem em paciente instável

Quando usar SOFA ou qSOFA?

SOFA

  • Mais útil para caracterizar disfunção orgânica
  • Mais alinhado à definição operacional de sepse
  • Mais aplicável em pacientes hospitalizados, especialmente em maior complexidade assistencial

qSOFA

  • Mais útil como alerta rápido à beira-leito
  • Especialmente aplicável fora da UTI
  • Mais prognóstico do que diagnóstico

Pontos-chave para prova

  • Sepse é disfunção orgânica potencialmente fatal causada por resposta desregulada à infecção
  • No Sepsis-3, a definição operacional usa aumento de 2 pontos ou mais no SOFA
  • qSOFA inclui FR maior ou igual a 22, PAS menor ou igual a 100 mmHg e Glasgow menor que 15
  • qSOFA maior ou igual a 2 indica maior risco de morte e pior prognóstico
  • qSOFA não deve ser usado isoladamente para diagnosticar sepse
  • A recomendação SSC 2026 para pacientes agudamente doentes no hospital, é usar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS em vez do qSOFA como ferramenta única de triagem para sepse
  • SOFA tem papel mais forte na caracterização de disfunção orgânica
  • Fora da UTI, qSOFA pode ser usado como sinal de alerta clínico
  • qSOFA baixo não exclui sepse
  • A Surviving Sepsis Campaign recomenda contra o uso do qSOFA como única ferramenta de triagem
  • O ILAS destaca que esperar qSOFA maior ou igual a 2 pode atrasar abordagem no contexto brasileiro

Conclusão

O qSOFA é um instrumento clínico simples e útil para reconhecer pacientes com suspeita de infecção e maior risco de evolução desfavorável, sobretudo fora da UTI. Sua principal utilidade está na estratificação rápida de risco e no estímulo à reavaliação imediata.

Na prática clínica e nas provas, o ponto central é lembrar que qSOFA não diagnostica sepse sozinho. O raciocínio correto exige correlação com o quadro clínico, avaliação de disfunção orgânica e aplicação apropriada do SOFA quando indicado.

Referências

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Micael Hamra

Micael Hamra

Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway