A KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes) publicou, em março de 2026, a versão preliminar do novo guideline sobre Injúria Renal Aguda (IRA/IRA) e Doença Renal Aguda (DRA), marcando a primeira grande atualização desde a diretriz de 2012.
O documento foi disponibilizado para consulta até 27 de abril de 2026 e ainda pode sofrer modificações antes da versão final no site da organização. Mesmo assim, o texto já mostra mudanças relevantes, com impacto direto tanto na prática clínica quanto no raciocínio de prova.
O ponto central dessa atualização é a mudança de perspectiva: a KDIGO deixa ainda mais claro que a injúria renal não deve ser vista apenas como um evento agudo isolado, mas como parte de um contínuo que pode envolver lesão estrutural, recuperação incompleta e progressão para doença renal crônica.
Uma das mudanças mais importantes do guideline é a consolidação do conceito de Doença Renal Aguda (DRA) como parte desse contínuo da injuria renal. A DRA passa a ser definida como alterações funcionais ou estruturais renais com duração de até 3 meses, no contexto clínico apropriado.
Isso inclui presença de IRA, TFG abaixo de 60 ml/min/1,73 m², queda da TFG em pelo menos 35 ml/min/1,73 m² em relação ao basal, aumento da creatinina sérica em mais de 50% ou presença de marcadores de dano renal, como albuminúria, hematúria e leucocitúria.
Porque essa mudança amplia o olhar clínico. O raciocínio deixa de ficar restrito à fase aguda de até 7 dias e passa a reconhecer uma fase intermediária entre IRA e doença renal crônica. Na prática, isso reforça a necessidade de vigilância e seguimento após o episódio agudo, principalmente nos pacientes com recuperação incompleta.
A definição de IRA mantém os critérios clássicos, mas passa a incorporar também critérios estruturais. Agora, a IRA é definida pela presença de uma ou mais anormalidades de função ou estrutura renal ocorridas em até 7 dias.
Os critérios funcionais continuam sendo aumento da creatinina sérica em pelo menos 0,3 mg/dl em 48 horas, ou aumento para pelo menos 1,5 vez o basal em até 7 dias, ou débito urinário menor que 0,5 ml/kg/h por pelo menos 6 horas.
A grande novidade é a inclusão dos biomarcadores de dano renal, desde que usados em indicações clinicamente validadas.
Outro ponto importante é a valorização da cistatina C. O guideline sugere seu uso em situações em que a creatinina pode ser menos confiável, como nos extremos de massa muscular, em idosos, crianças ou pacientes com baixa reserva muscular.
Além disso, reforça a importância de definir corretamente o valor basal de creatinina ou cistatina C, preferindo exames ambulatoriais prévios quando disponíveis.
O estadiamento da IRA foi ampliado e passa a integrar três dimensões:
O que muda na prática? A principal implicação é que o paciente pode já apresentar lesão renal documentada mesmo sem grande elevação da creatinina, desde que tenha biomarcador positivo. Com isso, o conceito de IRA se torna mais precoce e mais sensível, o que pode antecipar medidas de proteção renal e melhorar a estratificação de risco.
A diretriz também formaliza a classificação da IRA conforme a duração do evento:
Essa classificação tem valor prognóstico, porque a duração da injúria influencia o risco de progressão para DRA, doença renal crônica e outros desfechos adversos.
Outra novidade relevante é a padronização dos critérios de recuperação da função renal.
| Resolução completa | Resolução parcial | |
| IRA | creatinina ou cistatina C abaixo de 1,2 vez o basal em até 7 dias | entre 1,2 e abaixo de 1,5 vez o basal |
| DRA | creatinina ou cistatina C abaixo de 1,2 vez o basal ou TFG acima de 80% do basal em até 3 meses | valores entre 1,2 e abaixo de 1,5 vez o basal ou TFG entre 66% e 80% do basal |
Na prática, isso ajuda a uniformizar a linguagem clínica e a definir melhor quem realmente recuperou a função renal e quem ainda segue em risco.
O guideline dá bastante ênfase à identificação precoce de pacientes em risco. Entre os principais recursos incorporados estão modelos preditivos clínicos, scores de risco, conceito de renal angina, uso de biomarcadores e cálculo de eGFR cinético em situações de não equilíbrio.
Também ganha espaço a ideia de kidney health assessment, uma avaliação ampliada da saúde renal que considera função, dano estrutural, albuminúria e, em alguns contextos, reserva funcional renal.
Um ponto interessante é que a KDIGO recomenda o uso de modelos clínicos validados, mas não apoia alertas eletrônicos baseados apenas em creatinina, sem uma estratégia organizada de resposta.
Em outras palavras: não basta identificar o risco, é preciso que isso venha acompanhado de conduta.
A atualização também aprofunda bastante o tema da lesão renal associada a medicamentos. O guideline passa a diferenciar melhor pseudo-IRA, dano sem disfunção e nefrotoxicidade verdadeira.
Além disso, reforça a necessidade de stewardship medicamentoso, com revisão de prescrições, monitorização terapêutica de drogas nefrotóxicas, vigilância de interações medicamentosas e ajustes farmacocinéticos individualizados.
Entre os principais pontos do manejo, vale destacar:
Na prevenção de IRA associada a contraste, o documento reforça estratificação de risco, menor dose possível de contraste, uso de contraste iso-osmolar ou de baixa osmolaridade e hidratação intravenosa com solução isotônica em pacientes de alto risco sem sobrecarga volêmica.
Também sugere não suspender rotineiramente bloqueadores do sistema renina-angiotensina apenas para “prevenir” IRA em procedimentos eletivos com contraste ou cirurgia.
O guideline revisa a evidência sobre o momento de início da terapia renal substitutiva e reforça uma estratégia mais individualizada.
Em adultos, a recomendação é preferir uma abordagem adiada em vez de início precoce indiscriminado, desde que não existam complicações refratárias.
A decisão deve considerar contexto clínico, sobrecarga volêmica, alterações eletrolíticas, acidose, uremia, objetivos de cuidado e chance de recuperação.
Entre as modalidades discutidas estão:
Pela primeira vez, há um capítulo estruturado sobre seguimento após IRA e DRA. O guideline recomenda acompanhamento coordenado, reavaliação da função renal e da albuminúria, revisão de medicações, educação do paciente e estratificação de risco após a alta.
Também orienta reavaliar presença de doença renal crônica em até 3 meses após o episódio agudo. Essa talvez seja uma das mudanças mais práticas da diretriz, porque reforça que a IRA não termina na alta hospitalar.
O documento amplia recomendações específicas para alguns grupos:
O guideline KDIGO 2026 representa uma mudança importante na forma de compreender e manejar a injúria renal aguda.
Mais do que uma atualização, o documento propõe uma abordagem mais moderna e longitudinal, baseada em integração entre função e dano renal, continuidade entre IRA, DRA e doença renal crônica, ênfase em predição e prevenção e valorização do seguimento pós-IRA.
Mesmo ainda em fase de revisão pública, o conteúdo já aponta tendências relevantes que devem impactar tanto a prática clínica quanto a preparação para provas de residência médica.
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