E aí, pessoal? Como estão? Hoje vamos falar sobre ela – aquela que derruba muita gente quando assiste sua primeira cirurgia de pertinho e muito acompanhante quando vê um familiar sendo suturado (quem nunca teve que socorrer uma mãe enquanto suturava seu filho?), e que faz muito pai virar centro das atenções no parto dos filhos. Vamos falar da síncope vasovagal.
A síncope vasovagal é uma das queixas mais comuns nas emergências, e por isso é fundamental que o profissional de saúde saiba identificar o quadro clínico típico, diferenciar de síncope por causas cardíacas – mais graves – e realizar a condução adequada.
Neste guia, detalhamos o que é a síncope vasovagal, seus principais gatilhos e sintomas prodrômicos, e o passo a passo para a condução do paciente na emergência.
Começando do começo, então: o que é síncope?
Síncope é definida como a perda completa da consciência e do tônus postural de forma transitória, seguida de recuperação rápida e espontânea, sem a necessidade de intervenção médica, com um retorno completo e espontâneo ao nível basal de funcionamento, sem deixar sequelas.
Essa perda de consciência ocorre devido à interrupção transitória do fornecimento de oxigênio e nutrientes para ambos os hemisférios cerebrais, gerando hipoperfusão cerebral global, geralmente secundária à diminuição do débito cardíaco ou da resistência vascular sistêmica, e pode ter diversas etiologias, o que nos permite classificar as síncopes em: neuromediadas ou reflexas, cardiovascular, ortostática, neurológica, psicogênica ou idiopática. Além disso, nem sempre teremos uma síncope por um mecanismo isolado.
A síncope vasovagal, nossa estrela de hoje, se enquadra dentro da etiologia neuromediada, a qual se deve ao reflexo de Bezold-Jarisch, quando há uma resposta parassimpática inapropriada a algum tipo de gatilho, como ficar muito tempo em pé, urinar, ver sangue, como vimos nos exemplos no início desse texto, certo? Essa é a forma mais comum de síncope, correspondendo a 35-70% das síncopes a depender do grupo etário avaliado, e costuma ser vista principalmente em adultos jovens.
A síncope vasovagal é desencadeada por gatilhos que levam à estimulação vagal e à redução da estimulação simpática. É secundária a uma vasodilatação periférica pela temperatura elevada e ação da gravidade, o que o corpo interpreta como desidratação, ativando o sistema simpático, aumenta a contratilidade cardíaca sem aumentar o retorno venoso – ou seja, o coração bate com os ventrículos relativamente pouco preenchidos. Ocorre, então, uma resposta paradoxal, desativando o simpático e ativando o parassimpático.
Assim, há hipoperfusão cerebral global devido ao reflexo neurocardiogênico ou vasodepressor ativado, resultando na ocorrência de:
Isso tudo, portanto, acaba levando à perda completa de consciência e do tônus postural, a que chamamos síncope, e o paciente procura sentar-se ou cai ao chão, e isso restabelece o retorno venoso.
A apresentação clínica típica da síncope vasovagal refere-se àquela que é desencadeada por gatilhos específicos, como:
Esse quadro é mais comum em mulheres jovens e em pacientes com menos de 40 anos, e o ciclo menstrual e a enxaqueca aumentam a suscetibilidade.
Pacientes mais velhos, porém, podem apresentar um quadro “não clássico” ou “atípico” da síncope vasovagal, com episódios recorrentes de síncope sem uma causa ou gatilho identificável.
Além disso, o que marca as síncopes reflexas é a presença de sintomas prodrômicos.
Os sintomas prodrômicos são aqueles que antecedem a perda de consciência, e sua presença fala muito a favor de síncopes neuromediadas, apesar de não serem específicos. São sintomas cruciais, pois permitem ao paciente tomar medidas para evitar o desmaio e traumas, e são indicativos da ativação autonômica.
Os pacientes frequentemente relatam:
É relatado por pessoas que presenciam a cena que o paciente apresente logo antes da síncope palidez cutânea.
A duração da perda de consciência é tipicamente curta, entre 1 a 2 minutos, e após o episódio, é comum um período de mal-estar ou fadiga generalizada que pode durar algumas horas.
Ao abordar um paciente com síncope, o principal objetivo é descartar causas cardíacas, por serem condições que apresentam maior gravidade. A avaliação inicial do paciente deve seguir os seguintes passos:
A presença de qualquer um destes fatores de risco na história clínica deve levantar uma bandeira vermelha e instigar uma investigação complementar:
Além dos sinais vitais, a avaliação da hipotensão ortostática é de fundamental importância, visto que a síncope em decorrência desse quadro é a terceira mais comum. Afeta predominantemente adultos mais velhos, e é frequentemente associada ao uso de medicações hipotensoras.
A hipotensão postural ocorre após mudanças de posição e é caracterizada pela queda da pressão arterial sistólica (PAS) ≥ 20 mmHg e/ou pressão arterial diastólica (PAD) ≥ 10 mmHg após três a cinco minutos em ortostase, comparativamente à PA aferida em decúbito.
O ECG é fundamental na avaliação da síncope, visto que a síncope cardíaca é a de maior gravidade. Deve-se buscar ativamente por alterações que sugiram etiologia cardíaca/arrítmica, como:
O diagnóstico da síncope vasovagal é essencialmente clínico. Se a história for típica, e o exame físico e o ECG não apresentarem alterações, e se o paciente não apresentar fatores de risco para síncope cardíaca, o diagnóstico é estabelecido.
A conduta de alta na emergência deve focar em educação e tranquilização da paciente sobre a benignidade do quadro:
Enfim, vimos que síncope é um tema cheio de detalhes, mas que vale a pena ver com cuidado, por ser muito frequente na nossa prática clínica nos pronto-atendimentos. E mais que isso: não é raro nos depararmos com episódios de síncope mesmo nos nossos momentos de folga, e como médicos, sempre será esperado que saibamos como agir nessas situações.
Então, fica aqui a revisão. Abraço, pessoal!