A Varicela, popularmente conhecida como catapora, é aquela doença exantemática clássica que todo mundo acha que conhece, mas que na hora do plantão (ou da prova de residência) sempre gera dúvidas sobre o manejo e complicações.
Será que é catapora? Mantenho tratamento apenas sintomático? Quando entrar com Aciclovir? E se o paciente for imunocomprometido? Vamos juntos lapidar esse conhecimento e garantir que você não vai comer bola no diagnóstico e tratamento!
A Varicela é causada pelo Vírus Varicela-Zoster (VVZ), um DNA-vírus da família Herpesviridae. É uma doença extremamente contagiosa (taxa de ataque secundário de até 90% em contatos domiciliares susceptíveis).
A transmissão ocorre por contato direto com as lesões ou por gotículas/aerossóis. O vírus entra pelas vias aéreas superiores, replica-se nos linfonodos regionais e causa uma viremia primária. Após uma segunda replicação no fígado e baço, ocorre a viremia secundária, onde o vírus atinge a pele, causando o exantema característico.
Papo de prova: Lembre-se que o VVZ tem a capacidade de estabelecer latência nos gânglios sensitivos. Se ele reativar lá na frente, teremos o famoso Herpes-Zoster.
O período de incubação varia de 10 a 21 dias. O quadro costuma ser precedido por pródromos leves (febre baixa, mal-estar), seguidos pelo exantema que é o “cartão de visitas” da doença.
A característica mais marcante da varicela é o pleomorfismo regional. Isso significa que você encontrará lesões em diferentes estágios evolutivos simultaneamente:

O exantema é tipicamente centrípeto (começa no tronco e face e depois vai para as extremidades) e muito pruriginoso.
Quando o paciente deixa de transmitir? A transmissão ocorre desde 2 dias antes do aparecimento do exantema até que todas as lesões estejam na fase de crosta. Se houver uma única vesícula, o isolamento (contato e respiratório) deve ser mantido.
Na maioria das crianças hígidas, o tratamento é sintomático.
O Ministério da Saúde indica o uso de aciclovir oral para pessoas com risco de agravamento. Para crianças (<12 anos), o uso não é indicado de rotina, exceto em situações específicas:
Para adultos sem comprometimento imunológico, a indicação fica a critério médico (maior eficácia se iniciado nas primeiras 24h) na dose de 800 mg, via oral, 5 vezes ao dia, por 7 dias.
Fica reservado para reduzir a mortalidade em casos graves ou grupos de alto risco, idealmente nas primeiras 24 horas dos sintomas:
A complicação mais comum na pediatria é a infecção bacteriana secundária das lesões (S. aureus ou S. pyogenes). Se a febre persistir por mais de 3-4 dias ou retornar após melhora inicial, suspeite!
Outras complicações importantes:
Pessoal, a principal medida de prevenção é a vacinação!
O Programa Nacional de Imunização (PNI) oferece vacina contra a varicela para todas as crianças com 15 meses e 4 anos de idade, através da vacina tetra-viral (Sarampo, Caxumba, Rubéola e Varicela). Pelo calendário vacinal da Sociedade Brasileira de Pediatria, esta vacina está indicada aos 12 e 15 meses de idade.
Se um paciente suscetível foi exposto, você pode fazer a vacina de bloqueio em até 3 a 5 dias após o contato (em maiores de 9 meses sem contraindicações).
Indicada para prevenir a doença em pessoas de alto risco que não podem ser vacinadas (em até 96h, idealmente):
As bancas adoram cobrar o pleomorfismo regional e as indicações de bloqueio vacinal vs. imunoglobulina. Fique atento também às contraindicações de medicamentos (o clássico “não use AAS”).
| Característica | Detalhe Prático |
| Agente | Vírus Varicela-Zoster (VVZ) |
| Transmissão | Aerossol e contato (até todas as lesões virarem crosta) |
| Quadro Típico | Pleomorfismo: Mácula -> Pápula -> Vesícula -> Crosta |
| Tratamento Base | Sintomáticos (Cuidado com AAS e Ibuprofeno!) |
| Aciclovir VO | > 12 anos não vacinados, 2º caso domiciliar, doenças crônicas, uso de coticoide |
| Vacina | PNI: 15 meses (Tetra viral)Particular (SBP): 12 e 15 meses (Tetra viral) |
| Profilaxia pós-exposição (PPE) | >9 meses: Vacina de bloqueio em até 3-5 dias após o contato;Imunodeprimidos, gestantes e RNs em casos específicos: Imunoglobulina (VZIG) |
Gostou desse conteúdo? Se você quer dominar não só as exantemáticas, mas toda a Pediatria para as provas de Residência Médica, vale a pena dar uma olhada no nosso Guia de Bolso em Pediatria. Vem ser Medway!
Bora pra cima!
Graduada em Medicina pela Universidade São Francisco (USF) em Bragança Paulista, SP. Completou a Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Infantil Sabará em São Paulo, SP. Hoje realiza pós-doutorado em Alergia e Imunologia Pediátrica na University of South Florida e Johns Hopkins All Children’s Hospital em Saint Petersburg, FL, nos Estados Unidos.