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As Maiores Dificuldades da Prova Prática da SCMSP

Como superar as dificuldades da prova prática? Sun Tzu, famoso estrategista chinês da antiguidade, que influenciou diversos líderes mundiais ao longo da humanidade, afirmou, em seu livro A Arte da Guerra:

  • Uma das tarefas essenciais que deves realizar antes do combate é escolher criteriosamente o terreno do campo de batalha […]
  • Para conseguir que a força de seu exército seja semelhante à de uma pedra de moinho chocando-se contra um ovo, utilize a ciência dos pontos fracos e pontos fortes”.

E é exatamente assim que me senti durante a minha preparação para as “temidas” provas práticas de residência médica, obrigatórias na maioria das grandes instituições de São Paulo (USP, UNIFESP, Santa Casa, UNICAMP, UNESP) – as quais eu almejava passar – e até mesmo em Curitiba, no Hospital de Clínicas da UFPR.

Sabia que era um terreno novo a ser explorado, desafiador, porém inevitável. Restava a mim, então, utilizar a “ciência dos pontos fracos e fortes”, como falava Sun Tzu, para me sair melhor nesta importante etapa.

Sun Tzu e as Dificuldades da Prova Prática
Obter uma boa nota nas provas práticas (2ª fase) também exige estratégias e planejamento.

Uma das primeiras atitudes que tive em minha preparação foi conversar com colegas que já haviam enfrentado (e logrado êxito) na prova prática; afinal, enfrentar um “inimigo” conhecendo seus pontos fracos fica mais fácil.

Felizmente, as dicas que recebi me ajudaram muito no dia da prova prática do Hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e no Hospital de Clínicas da UNICAMP, experiências as quais relatarei com mais detalhes abaixo.

É importante frisar aqui que cada instituição de ensino possui “nuances/estilos” de provas práticas diferentes uma da outra; a grosso modo, a ideia delas geralmente é a mesma – uma estação prática para as cinco grandes áreas: medicina preventiva, pediatria, ginecologia e obstetrícia, clínica médica e cirurgia.

Porém, o modo como é cobrado, as competências exigidas e o tempo fornecido para os candidatos varia – o que, mais uma vez, reforça a necessidade de “aprender” com quem já passou por essas experiências.

Talvez o primeiro aspecto que tive que exercitar – e um dos mais essenciais, diga-se de passagem –  foi a inteligência emocional ao chegar no local da prova.

Explico: apesar de haver um número menor de candidatos do que na primeira fase, ainda era necessário se acostumar com a multidão fora dos portões – concorrentes, familiares, vendedores ambulantes – além da inevitável “revisão de véspera”: boatos e adivinhações do que poderia ser cobrado no Dia D.

Um prato cheio para desestabilizar emocionalmente aqueles que não se sentiam confiantes. Porém, gostaria de reforçar que o clima de insegurança e medo é quase unânime entre os candidatos; portanto, vence quem souber administrar isso.

O primeiro desafio é não se assustar com a concorrência

Bom, agora finalmente após ter entrado no local da prova, tanto na Santa Casa quanto na UNICAMP, todos os candidatos (das mais diversas especialidades) foram divididos em “grupos”, com determinada ordem para que se iniciassem as tarefas. Há um número importante de fiscais espalhados, para garantir a idoneidade do processo seletivo.

Relatarei, a seguir, as estações que passei no processo seletivo da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo – local onde optei por realizar Neurologia. Em relação à UNICAMP, para não ficar demasiadamente grande este texto, comentarei apenas “bizus” que aprendi durante esta prova.

# ESTAÇÃO 01 – OBSTETRÍCIA

Ao entrar na sala, me deparei com uma professora examinadora sentada e um manequim de uma gestante em cima da mesa.

Após o barulho do apito soado por um fiscal, no lado de fora da sala, foi dada a largada para o início das tarefas.

A primeira dica é, logo que entrar na sala, observar o ambiente ao seu redor, perceber se há instrumentos ou algo “oculto” que possa ser útil.

A primeira atividade que eu precisava fazer era “laudar” uma cardiotocografia, que sugeria padrão de sofrimento fetal; depois, recebi a tarefa de interpretar um partograma – dizer o diagnóstico e a conduta.

Pode até parecer simples para quem está lendo agora, mas com certeza você, frente a frente com o examinador, não terá essa calma toda para pensar e responder.

Aqui, um conceito que gostaria de reforçar é o seguinte: muitos assuntos cobrados nas provas de primeira fase (teórica), também o são na prática.

Fazendo uma síntese, poderia afirmar que a prova prática nada mais é do que uma “prova oral”, podendo ou não ter algum procedimento a ser feito.

Partograma é um “must know” para as provas de residência, inclusive na segunda fase.

# ESTAÇÃO 02 – CIRURGIA

Saí com a sensação que não havia ido tão bem na primeira estação (o que é completamente normal, afinal, é inevitável algum grau de insegurança pairar), e acabei caindo na minha pior estação.

O assunto em si não era complexo, tendo em vista que, se tratando de uma grande área complexa como Cirurgia Geral, tarefas bem mais árduas poderiam ter sido cobradas.

O caso era de um ferimento abdominal por arma branca – eu deveria realizar o exame físico direcionado e a conduta da situação.

Ao adentrar na sala, percebi que havia um manequim com uma esponja no abdômen, e um professor de cirurgia sentado na sala, juntamente com um residente. E, acreditem, estes últimos foram a maior dificuldade da estação.

Ficaram ao longo dos intermináveis 7 minutos fazendo questão de cronometrar o tempo em voz alta (ex.: faltam 3 minutos para acabar!).

Além disso, lembro-me que algo que gerou muita divergência foi que uma das tarefas era suturar o ferimento – até aí, tudo bem. O problema é que determinados avaliadores colocaram todo o “kit sutura” à disposição da pessoa, enquanto outros, como o meu (infelizmente), o omitiram, de tal forma que o candidato é que deveria solicitar todos os materiais, inclusive o anestésico local a ser aplicado.

Portanto, pessoal, reforço mais uma vez: estejam preparados emocionalmente também na hora da prova prática – afinal, aparentemente, não basta “apenas” a prova ser difícil – o avaliador pode fazer uma “forcinha” para dificultá-la ainda mais.

Avaliadores testando seu psicológico – esteja preparado também para isto!

# ESTAÇÃO 03 – MEDICINA PREVENTIVA

Talvez uma das áreas um pouco mais fáceis de “prever” o que poderia ser cobrado. Neste caso, era uma situação comum encontrada em Unidades Básicas de Saúde – um paciente masculino, representado por um ator real, que solicitou exames “teste rápido” para doenças sexualmente transmissíveis.

Neste cenário, o que me deu certa vantagem foi o fato de na minha graduação (Universidade do Planalto Catarinense – UNIPLAC), desde o primeiro ano, fazia parte da nossa grade curricular frequentar Unidades Básicas de Saúde – isto foi fundamental para adquirir a “capacidade” de “não ter medo” ao dialogar com um paciente (neste caso, um ator).

Esta, aliás, é outra habilidade imprescindível para lograr êxito: habituar-se a iniciar uma anamnese/um diálogo com um ator da vida real, que faz parte da prova prática. É algo extremamente comum nessa etapa.

Falando em anamnese, esta é outra “competência” bastante exigida, embora tenha que ser feito com mais objetividade, devido ao tempo curto de cada estação – ou seja, “curto e grosso”, mas “certeiro”.

Nesta estação de Medicina Preventiva da Santa Casa, por exemplo, o candidato da prova prática precisava descobrir que o paciente já havia tido sífilis no passado e tratado, o que justificava o resultado positivo no teste-rápido, assim como o fato de ele nunca ter sido imunizado para Hepatite B – que deveria ser sugerido que o fizesse, então.

Embora possa não ser fácil, experimente conversar com seu paciente/ator com a maior naturalidade possível.

# ESTAÇÃO 04 – CLÍNICA MÉDICA

Neste cenário, o caso clínico apresentado era de um rapaz jovem com paraplegia súbita – o objetivo era solicitar UM exame (coleta de líquor), o diagnóstico mais provável (Gullain-Barré), qual achado do exame solicitado que falaria a favor da hipótese diagnóstica, o tratamento e, por fim (ufa), realizar o procedimento de punção lombar no manequim, que inicialmente estava coberto por uma toalha (por motivos óbvios, para não dar spoiler logo no início da estação).

Aqui ficou muito nítido um conceito fundamental, que por vezes pode passar despercebido aos candidatos – e que descreverei através de uma analogia: as provas práticas se assemelham a “jogos de videogame”, no sentido de que, em algumas estações, você só consegue novas tarefas (“passar de fase”), à medida que responde/acerta a tarefa anterior.

Por exemplo, conversei com colegas que acabaram não pensando em Guillain-Barré logo de cara e perderam tempo solicitando exames como hemograma, ressonância magnética de encéfalo, tomografia computadorizada… e, enquanto não fosse pedido o exame correto, a pessoa não “avançava” na tarefa.

Assim como jogos de videogame, em algumas estações de prova prática você precisa “vencer” etapas para “avançar”.

# ESTAÇÃO 05 – PEDIATRIA

Enfim a última estação, embora não menos desafiadora do que as demais. Deparei-me, novamente, com uma paciente (atriz), com uma boneca no colo. A minha principal missão era conduzir uma consulta médica, com a mãe trazendo uma queixa de “surgimento de alergia” na pele.

Imediatamente comecei a pensar em possíveis diagnósticos diferenciais dentro do grupo das “Síndromes Exantemáticas”.

Anamnese vem, anamnese vai, e nada de muito óbvio surge, com exceção que a mãe mencionou ter iniciado dieta com leite de vaca há dois dias, por conta própria.

Solicitei, então, para visualizar a tal “alergia na pele”. Neste momento, a professora examinadora me mostrou uma placa que mostrava claramente uma lesão dermatológica compatível com urticária aguda.

Juntamente com a foto da lesão, havia o exame físico, o qual mostrava estertores crepitantes bilaterais e queda da saturação de oxigênio… ou seja, na verdade tratava-se de um quadro de anafilaxia.

Urticária Aguda – esta foto foi a utilizada pela Santa Casa de São Paulo no cenário de Pediatria.

A seguir, tentei voltar a dialogar com a mãe/atriz, porém acabei não lendo com atenção as orientações escritas em um papel, que estava em cima da mesa do atendimento, o qual falava que, a partir do momento que eu “encerrasse” a anamnese (ao solicitar o exame físico), não poderia voltar a ela.

Após o término da prova prática, conversando com alguns colegas, no lado de fora do edifício, reforcei uma tese que já tinha conhecimento previamente às provas práticas: não é um costume das bancas examinadoras cobrar diagnósticos bizarros ou absurdos nesta fase do processo seletivo.

Digo isso pois escutei gente que respondeu “Síndrome de Sweet”, “Stevens Johnson”, “Farmacodermia” e por aí vai… Ou seja, o recado é simples e direto: não viaje na maionese!

# BÔNUS

Algo que não posso negar é o fato de que muita gente (inclusive eu) se questiona o porquê de ter ganhado X ou Y nota em determinada estação.

Infelizmente instituições que não fornecem o gabarito da segunda fase após a prova (o que é extremamente comum) estão sujeitas a contestações e insatisfações.

Acredito que – ainda bem – são obrigadas a abrir prazo para recurso, para aqueles que de alguma forma se sentiram lesados com as notas.

Porém, no caso específico da Santa Casa de São Paulo, nenhum recurso foi aceito. Enfim…

# CURSO PREPATÓRIO PARA PROVA PRÁTICA

Sim, fiz um curso preparatório presencial visando as Provas Práticas.

Não me arrependo, foi de grande aprendizagem. Porém, como quase tudo na vida, inevitavelmente existem lados positivos e negativos, os quais resumo na tabela a seguir:

PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS
Cenários práticos com casos que já foram cobrados. Alto custo.
Estrutura qualificada, assim como professores. Impossibilidade de assistir novamente às estações em casa (através de vídeos, por exemplo).
Redução da insegurança e da ansiedade de enfrentar as estações. Pouco tempo para atendimento individual, pelo excesso de alunos.
Material impresso de qualidade.

Só gostaria de explicar mais a fundo o segundo “ponto negativo” elencado acima. Cito como exemplo a prova prática da Escola Paulista de Medicina EPM/UNIFESP, a qual costuma ser apenas em janeiro.

Os cursos práticos no mercado geralmente têm turmas até novembro, aproximadamente; ou seja, são quase 60 dias de “esquecimento”, sem possibilidade de rever o conteúdo em casa.

Acredito que uma aprendizagem online também seja possível e tão eficaz quanto cursos presenciais.

E, como já frisei anteriormente, estude os conteúdos teóricos pensando também em como poderiam ser exigidos na segunda fase.

Mais importante: NÃO a menospreze, afinal, ela costuma representar 40% da nota final do candidato e, de longe, é a fase mais decisiva de todas.

Quem está no topo da classificação após o resultado da primeira etapa pode cair, assim como quem está mais embaixo, sobe. Aconteceu exatamente isso com conhecidos meus na USP Ribeirão Preto, e até mesmo comigo, na UNICAMP…

# CONCLUSÃO – TAKE HOME MESSAGE

Agradeço a todos que leram tudo até aqui. Espero que minha experiência possa ajuda-los a se saírem melhor nas provas práticas. Não cometam os mesmos erros que eu cometi.

E não se esqueçam: o sucesso e a almejada aprovação dependem apenas de vocês mesmos.

Como diria Sri Ravi Shankar: “a vida é uma combinação de destino e livre-arbítrio. A chuva é o destino, a possibilidade de se molhar ou não é escolha sua”.

Obs final: Em 2018 fizemos o CRMedway: o primeiro curso prático totalmente online para a segunda etapa das provas de residência.

Foram mais de 500 alunos e inúmeras aprovações, com diversos “primeiros lugares” nas principais instituições do país. Se você quiser conferir tudo o que oferecemos no curso basta clicar AQUI!

LeonardoBernardes

Leonardo Bernardes

24 anos, catarinense, formado pela Universidade do Planalto Catarinense em 2017. Foi 2º Tenente no 1º Batalhão Ferroviário/Exército Brasileiro em 2018 e é atualmente residente em Neurologia no Hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Possui interesse na área de estudo de preparação para concursos públicos, inclusive Residência Médica.

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