A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e a Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG) anunciaram uma mudança em seu posicionamento sobre a suplementação de cálcio durante a gestação.
A nova orientação passa a não recomendar o uso do mineral com o objetivo específico de prevenir pré-eclâmpsia, após reavaliação das evidências científicas disponíveis.
A decisão foi baseada em uma atualização recente da Cochrane Database of Systematic Reviews, conduzida por Cluver et al. (2025), que reavaliou o impacto da suplementação de cálcio em gestantes.
Diferentemente de análises anteriores, o novo estudo incorporou ensaios clínicos mais recentes e adotou critérios mais rigorosos de qualidade metodológica. Entre os principais pontos, destaca-se a exclusão de estudos considerados “não confiáveis”, como aqueles com alto risco de viés ou limitações no desenho.
Com essa abordagem, os resultados indicaram que o efeito protetor da suplementação de cálcio deixa de ser estatisticamente consistente, não sustentando de forma robusta sua eficácia na prevenção da pré-eclâmpsia.
A recomendação anterior se apoiava principalmente na metanálise de Hofmeyr et al. (2018), que sugeria que a suplementação com cálcio em doses iguais ou superiores a 1 g/dia poderia reduzir o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em populações com baixa ingestão dietética do nutriente.
Esses achados embasaram diretrizes de instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil, que passaram a recomendar a suplementação em determinados contextos.
No entanto, a análise mais recente demonstra que esse efeito se enfraquece quando são considerados apenas estudos com maior rigor metodológico, o que levou à revisão do posicionamento pelas entidades brasileiras.
Diante da reavaliação do conjunto de evidências, a FEBRASGO e a RBEHG passaram a não recomendar a suplementação de cálcio com a finalidade de prevenir pré-eclâmpsia.
As entidades ressaltam, entretanto, que o cálcio pode continuar sendo prescrito durante a gestação por outras indicações clínicas, a critério do médico assistente.
Além disso, destacam que a área segue em investigação, com novas metanálises em andamento, e que futuros posicionamentos de organizações como a Sociedade Internacional para Estudos da Hipertensão na Gestação (ISSHP), a OMS e o Ministério da Saúde ainda são aguardados.
Antes da atualização, documentos oficiais no Brasil orientavam a suplementação de cálcio como estratégia para prevenção de distúrbios hipertensivos na gestação, incluindo a pré-eclâmpsia, especialmente diante da baixa ingestão do nutriente na população.
Com a nova posição da FEBRASGO e RBEHG, há uma mudança relevante no entendimento sobre o papel do cálcio nesse contexto, baseada na reinterpretação das evidências disponíveis.
As entidades destacam que a decisão atual reflete o cenário das evidências disponíveis até o momento, mas não encerra a discussão científica sobre o tema.
O acompanhamento de novos estudos e revisões sistemáticas deve orientar eventuais atualizações futuras, especialmente considerando o impacto clínico da pré-eclâmpsia e a relevância de estratégias preventivas na prática obstétrica.
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Professora da Medway de GO. Médica e mestre pela UNICAMP. Residência de Ginecologia e Obstetrícia e especialização em Oncologia Pélvica pelo CAISM/UNICAMP. Atualmente cursando doutorando pela mesma instituição. Siga no Instagram: @sardinha.medway