Colangite: tudo que você precisa saber para tratar um paciente

Fala galera, beleza? Dando continuidade à nossa serie de posts sobre vesícula biliar, hoje vamos contar os bizus do tratamento da colangite. Depois de entender toda a anatomia da bile nesse post aqui, vamos entender agora esse tema tão importante nas provas e na prática. Bora lá?

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A colangite aguda é uma infecção da árvore biliar, associada à proliferação bacteriana no trato biliar e a elevação da pressão dos ductos biliares, o que permite a translocação bacteriana do duodeno até o ducto colédoco. 

As causas mais frequentes de obstrução biliar são coledocolitíase, estenose biliar benigna, estenose de uma anastomose biliar e estenose causada por doença maligna.

A principal importância dessa condição é que tem um ótimo prognóstico se diagnosticada e tratada adequadamente, mas a mortalidade pode ser alta se houver atraso no tratamento.

Quer saber tudo sobre colangite? Continue lendo!

Pra relembrar: Colangite e colecistite

A colangite é uma inflamação e infecção das vias biliares que acontece por uma obstrução do ducto biliar, possibilitando a infecção por bactérias através de translocação. Na colangite, a inflamação se estende por toda a via biliar

Já na colecistite, também ocorre uma obstrução da passagem da bile, mas dessa vez ela ocorre no ducto cístico

O diagnóstico sindrômico de colangite aguda é apoiado na presença da tríade de Charcot: dor em quadrante superior direto do abdome, febre com calafrios e icterícia. Quando a colangite se torna mais grave, os pacientes ficam hipotensos e confusos (pêntade de Reynold). As culturas de sangue são positivas com frequência, e a leucocitose é típica.

Fonte: Atlas de Anatomia – Netter

Tratamento

O tratamento vai ser direcionado pela fisiopatologia da colangite, ou seja, infecção biliar e obstrução! Inicialmente, devemos estabilizar o paciente e dar suporte geral. Para a infecção, o tratamento é a antibioticoterapia. Para a obstrução, o tratamento será a drenagem biliar. 

Vamos dividir o tratamento em 3 etapas:

  1. Suporte geral 

Aqui iremos preparar nosso paciente pras próximas etapas:

  • Internação em enfermaria, mesmo em casos leves, desde que não sejam recorrentes;
  • Manter o paciente hidratado;
  • Corrigir distúrbios hidroeletrolíticos;
  • Manejar a dor e febre desse paciente com analgésicos e antitérmicos simples inicialmente, como por exemplo a dipirona;
  • Manter esse paciente monitorizado, atentando pro risco de choque séptico.
  1. Antibioticoterapia 

Além dos cuidados hemodinâmicos e hidroeletrolíticos, a escolha do antimicrobiano é uma etapa fundamental.

As infecções bacterianas mais comuns na colangite incluem Escherichia coli, Klebsiella spp., Enterobacter spp., Acinetobacter spp. e Clostridium spp. As bactérias estão presentes na cultura de bile em cerca de 75% dos pacientes com colangite aguda logo no início da evolução sintomática. 

A seleção do antibiótico vai ser influenciada pelo perfil do paciente (proveniente da comunidade, institucionalizado ou com hospitalização recente, uso prévio de antibióticos, manipulação da árvore biliar, etc), assim como pela gravidade da doença.

Geralmente são escolhidos aqueles que são capazes de passar para o ducto biliar, como cefalosporinas de terceira geração, carbapenemicos e fluorquinolonas. Entre as opções, destacam-se ceftriaxona, ciprofoxacina, levofloxacina, clindamicina e metronidazol. O Combo ceftriaxona + metronidazol é o que geralmente vemos na maioria dos hospitais. 

A colangite aguda não supurativa é extremamente comum, podendo responder com relativa rapidez às medidas de apoio e ao tratamento com antibióticos. 

Porém, na colangite aguda supurativa, a presença de pus sob pressão em um sistema ductal completamente obstruído dá origem a sintomas decorrentes da toxicidade acentuadaconfusão mental, bacteremia e choque séptico

A resposta ao tratamento realizado apenas com antibióticos nestas circunstâncias é relativamente precária, múltiplos abscessos hepáticos estão presentes com frequência, e a taxa de mortalidade aproxima-se de 100%, a não ser quando se consegue o alívio endoscópico ou cirúrgico imediato da obstrução e a drenagem da bile infectada. 

Opa! Chama o cirurgião então!

  1. Drenagem 

Cerca de 70 a 80% dos pacientes com colangite aguda respondem bem ao tratamento inicial com antibióticoterapia. Nos pacientes com colangite mais grave, a drenagem deve ser realizada dentro de 24 a 48 horas.

O controle endoscópico da colangite bacteriana com a extração de cálculo ou inserção de stent é o tratamento de escolha para estabilizar os pacientes em caso de colangite aguda e é tão eficaz quanto a intervenção cirúrgica. 

A drenagem percutânea ou descompressão cirúrgica são raramente realizadas e são reservadas para casos onde a drenagem endoscópica falha ou não está disponível. 

A CPRE com esfincterotomia endoscópica é segura e representa o procedimento inicial preferido tanto para o estabelecimento de um diagnóstico definitivo quanto para proporcionar uma terapia efetiva.

Nos casos em que a colangite está associada à colelitíase, a colecistectomia é indicada para prevenção de casos futuros. 

Mas e as autoimunes?

As colangites autoimunes são a Colangite Esclerosante Primária (CEP) e Colangite Biliar Primária (CBP). 

A CEP é uma condição colestática crônica caracterizada por inflamação recorrente e fibrose segmentar dos ductos biliares intra e extrahepáticos. 

As manifestações da doença variam desde sintomas inespecíficos de fadiga, astenia e perda de peso, até quadro mais característico de colestase com icterícia, colúria, acolia fecal e prurido. Um terço dos pacientes pode apresentar episódios recorrentes de colangite aguda.

O tratamento é o ácido ursodesoxicolico, o famoso ursacol, para retardar a progressão da doença enquanto o paciente aguarda o transplante hepático, que é o único tratamento capaz de curar a doença.

Já a CBP é uma colangiopatia autoimune obliterativa lentamente progressiva, que afeta os ductos biliares de pequeno e médio calibres. É assintomática em metade dos pacientes no momento do diagnóstico e o tratamento é feito com ácido ursodesoxicólico para controle de sintomas como prurido. 

E aí, entendeu melhor o tratamento da colangite?

Esperamos ter esclarecido um pouco mais o tópico do tratamento das colangites. Sabemos que foi muita informação, então leia e releia o texto quantas vezes precisar. Fiquem atentos aqui no blog para novos conteúdos sobre vias biliares! Bom, agora que você já sabe tudo sobre gestação ectópica, temos uma dica pra você. Confira mais conteúdos de Medicina de Emergência na Academia Medway. Por lá disponibilizamos diversos e-books e minicursos completamente gratuitos! Por exemplo, o nosso e-book sobre o que você precisa saber antes de dar plantão em um lugar novo ou o nosso minicurso Semana da Emergência são ótimas opções pra você estar preparado para qualquer plantão no país.

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*Colaborou: Emanuella Esteves Machado, aluna da faculdade EMESCAM

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AnuarSaleh

Anuar Saleh

Nascido em 1993, em Maringá, se formou em Medicina pela UEM (Universidade Estadual de Maringá) e hoje é residente em Medicina de Emergência pelo Hospital Israelita Albert Einstein e também editor e professor do PSMedway.