Como é a residência em Dermatologia na USP

Muito além da parte estética, a Dermatologia é uma área cheia de desafios e com ótimas possibilidades. Para encarar o cotidiano da melhor maneira, uma das possibilidades é a residência em Dermatologia na USP.

Ela conta com 3 anos principais e a possibilidade de R4 para aprofundar os conhecimentos cosméticos e estéticos. Para que você tenha a chance de tomar uma decisão informada, conversei com dois residentes de Dermato da USP: Ésio, que está no R2, e Ricardo, do R4.

A seguir, veja algumas informações que são essenciais sobre a residência em Dermatologia na USP!

Joana: Vou começar com uma pergunta bem pessoal: para você, qual é o melhor estágio da residência em Dermatologia na USP e por quê?

Hospital das Clínicas, onde acontece a maior parte das atividades da residência em Dermatologia na USP
Boa parte das atividades da residência em dermatologia da USP acontecem no Hospital das Clínicas

Ésio: Casos Novos: um estágio corrido e bem cansativo, porém de grande aprendizado. Esse estágio ocorre no R1. É nos casos novos que o residente atende os pacientes que foram matriculados recentemente na Dermatologia do HC. A partir daí, ele vai para a primeira consulta, onde o residente realiza o exame dermatológico completo do corpo e, logo após, passa o paciente em uma “checagem” com o assistente responsável do dia. A partir daí, o residente vai aprender a fazer a descrição dermatológica, as hipóteses diagnósticas e a conduta/tratamento para cada caso, além de determinar seu seguimento.

Ricardo: Casos novos. Esse estágio é único. Até onde sei, a Dermato do HC-FMUSP é o único serviço que tem esse estágio, que julgo ser primordial na minha formação. Ele consiste de, em um tempo de 3 meses seguidos, um grupo de residentes do 1º ou 2º ano (a grade está em transição) que fica responsável por todos os casos novos do departamento. Assim, você faz a primeira consulta, hipóteses diagnósticas, sugere as condutas e fica responsável pelo caso até a sua estabilização ou alta. Todo esse processo é supervisionado e cria a independência e o raciocínio dermatológico que a instituição preza tanto em um novo dermatologista.

Joana: Tem algum médico assistente que você considere um exemplo para sua formação?

Ésio: Dra. Denise Miyamoto. Uma das Dermatologistas responsáveis pelo ambulatório de doenças bolhosas. Profissional completa do ponto de vista técnico, preocupada com o aprendizado dos residentes, além do cuidado e atenção com os pacientes.

Ricardo: Não consigo apontar apenas um. Existem diversos que contribuíram de maneiras diferentes para minha formação.

Joana: Conte um pouco sobre onde vocês rodam ao longo de toda a residência em Dermatologia na USP.

Ésio: A Dermatologia passou recentemente por uma mudança, antes o primeiro ano era de Clínica e os 2 últimos de Dermatologia, agora já são os 3 anos de Dermatologia. No R1, em geral, são 2-3 meses de enfermaria, 3 meses de casos novos, 1 mês de micologia, 2 meses de geriatria e 2 meses de atendimento a pacientes de cirurgia dermatológica (junto ao estágio de geriatria). É possível realizar alguns poucos procedimentos, além de passar por alguns ambulatórios, incluindo DSTs.

Ricardo: A residência médica em Dermatologia está em mudança em todo o país. Antes, o R1 consistia de estágios em outras especialidades (como foi minha residência) e agora exige que os 3 anos sejam cursados na própria Dermatologia. Com isso, tudo que eu disser agora é passível de mudança nos próximos anos.

Durante os 3 anos, os residentes atendem em ambulatórios gerais de Dermatologia (como os Casos Novos, já citados, ambulatório Geral e de Triagem). Atendem, também, em ambulatórios específicos, como: psoríase, doenças bolhosas autoimunes, Dermatologia pediátrica e muitos outros. Há estágios cirúrgicos, em que realizamos exéreses de tumores de pele das mais variadas complexidades (isso inclui Cirurgia Micrográfica de Mohs). Por 3 meses rodamos na patologia, para aprimorar o conhecimento em dermatopatologia, essencial para uma boa formação. No último ano, por 2 meses seguidos, uma dupla de residentes fica responsável por responder os pedidos de interconsulta de todo o complexo HC (Instituto Central, InCor, ICESP etc.), sendo esse o estágio mais cansativo, porém um dos que mais crescemos como dermatologistas.

Joana: Existem estágios eletivos na sua residência? É possível (e comum) fazer um estágio fora do país?

Ricardo: Os assistentes do HC-FMUSP são mundialmente reconhecidos e têm contatos que viabilizam estágios fora. No entanto, este deve ser feito nas férias.

Joana: Sua residência, de uma forma geral, respeita as 60 horas semanais?

Ésio e Ricardo: Sim.

Joana: E qual a carga máxima de plantão que você dá na sua residência? Existe algum período de descanso pré ou pós-plantão?

Ésio: Os R1s dão plantões na enfermaria. São 10 residentes para dividir os plantões. Na semana, os plantões começam às 17h (após o expediente dos ambulatórios) e acabam às 07h do dia seguinte (antes dos ambulatórios iniciarem), devendo trabalhar normalmente no dia seguinte (não há pós plantão). Mas, em geral, os plantões são tranquilos e você está lá apenas para atender intercorrências dos pacientes internados (são 16 leitos de enfermaria e, por vezes, temos pacientes graves internados). Nos finais de semana, os plantões são de 24h. Em média são em torno de 40 plantões no ano, entre semana e final de semana.

Ricardo: A enfermaria de Dermatologia, que tem 18 leitos, é de responsabilidade dos residentes da Dermatologia. Com isso, os R1s e R2s se dividem para cobrir os plantões noturnos durante a semana e de 24h nos finais de semana e feriados. Não há pós ou pré-plantão.

Joana: De 0 (nada) a 10 (demais), quanto a residência em Dermatologia da USP foca em parte teórica? E quais são as atividades teóricas que você tem?

Ésio: 9. Temos aulas praticamente todos os dias, em geral após o ambulatório, mas por vezes antes do almoço, também. Em algumas ocasiões, as aulas são apresentadas pelos assistentes, outras vezes são seminários apresentados pelos residentes. Todas as quintas-feiras existe a reunião geral, na qual são discutidos os casos mais difíceis, com todos os dermatologistas do departamento e com patologistas. Existem outras reuniões ao longo da semana, por exemplo, reunião de dermatoscopia, linfomas, interconsulta etc.

Ricardo: Diria 8. O programa teórico é passível de mudança a cada ano e não há nenhuma garantia de que se manterá assim. No entanto, atualmente temos 1 reunião clínica por semana e uma média de 2-3 aulas por semana. Fora o fato que temos que apresentar TCC no R3.

Joana: Aproveitando o embalo: de 0 (nada) a 10 (demais), o quanto sua residência foca em parte acadêmica?

Ésio: 9.

Ricardo: 10.

Joana: Quais são os pontos fortes de fazer residência em Dermatologia na USP?

Ésio: O HC é um hospital referência para o país inteiro, com casos que você praticamente só vai encontrar lá, além da disponibilidade de recursos humanos, diagnósticos e terapêuticos. Com certeza, fazer residência em Dermato no HC torna você um profissional diferenciado em relação aos demais. Sem dúvida é uma das residências de Dermatologia mais “puxadas” em termos de carga horária e de demanda de estudo por parte dos assistentes, mas você vai sair um profissional muito bem qualificado para atuar no mercado de trabalho, do ponto de vista de doenças dermatológicas.

Fachada do Instituto Central, que fica no Hospital das Clínicas, onde ocorrem as atividades da residência em Dermatologia na USP
Fachada do Instituto Central do HCFMUSP

Ricardo: A residência médica em Dermatologia no HC-FMUSP é uma excelente opção. O principal motivo para isso é o volume de casos que o serviço recebe e o número de casos complexos vistos. Em Dermatologia, por mais que estudemos o livro todo, é diferente ler e ver fotos de ver ao vivo e tocar para ter o aprendizado. Com isso, saímos com uma bagagem inigualável por qualquer outro serviço. Além disso, saímos com uma boa mão cirúrgica e acadêmica. O departamento também estimula a educação continuada, oferecendo complementações em subdivisões da Dermatologia, o que é um diferencial em um mercado já bem saturado.

Joana: E tem algum ponto que você acha que poderia melhorar?

Ésio: A relação entre os residentes e os assistentes/chefes. Além disso, hoje em dia, o mercado de trabalho da Dermatologia está muito voltado para a parte estética e a residência do HC não prepara muito bem o residente nesse aspecto. É necessário fazer cursos por fora ou a complementação em cosmiatria (R4), que temos no departamento.

Ricardo: Nossa formação não é focada em procedimentos estéticos. O que é uma desvantagem no mercado, mas a excelente formação em todos os outros aspectos da profissão mais do que compensam esse ponto.

Joana: E você acha que tem como conciliar a residência em Dermatologia na USP com plantões externos? A maioria faz isso?

Ésio: Sim, é possível. Boa parte dos residentes faz isso. No R1 fica um pouco mais corrido por conta dos plantões de enfermaria, mas a partir do R2 fica bem tranquilo.

Ricardo: É possível. No entanto, ao meu ver, é desaconselhável. O ideal é uma dedicação exclusiva à residência médica. Dermatologia é uma especialidade que exige uma dedicação ímpar. Não aprendemos nada dela durante a formação médica e há uma infinidade de doenças para serem compreendidas em seus aspectos clínicos, histopatológicos, imunológicos e moleculares. Com isso, a maior parte do tempo livre é tomada por estudos ou com o preparo do TCC.

Joana: Quais “comodidades” a USP disponibiliza para os residentes?

Ésio: Na alimentação, há restaurante PRC (Palheta) do HC, temos 2 opções: a alternativa de graça, porém de qualidade um pouco inferior, e a opção com desconto para os residentes. Existe a moradia que é a mesma para os residentes de outras especialidades do HC.

Ricardo: Há um restaurante no hospital que oferece almoço e jantar gratuitos com a apresentação do crachá de residente. Não participei do processo de seleção para moradia, mas todos que conheci que tentaram, conseguiram. Imagino que haja alguma seleção por renda e para alunos de fora de São Paulo. A moradia fica ao lado do Instituto Central e, até onde sei, são de quartos divididos por 2 pessoas com banheiro privativo. (Não sei se todos os cômodos são assim, apenas de amigos que moraram lá).

Joana: No caso de vocês, que não são de São Paulo: pretendem voltar para a cidade de vocês após a residência? Acham que é possível se inserir bem no mercado?

Ésio: Sim, pretendo, e acho que é possível se inserir bem. A USP é uma instituição bastante renomada, mas depende do próprio residente a inserção no mercado de trabalho. Em geral, não temos suporte por parte dos assistentes para inserção no mercado.

Ricardo: Não pretendo. Conheço quem voltou. E, como já dito, com especializações extras em Dermatologia esse processo é um pouco mais fácil.

Gostou do que os residentes contaram?

Sabia que no último processo seletivo de residência médica da USP a residência em Dermato foi a segunda especialidade de acesso mais concorrida? Foram quase 25 pessoas concorrendo por cada uma das 9 vagas do programa! Perde só para a residência em Neurocirurgia da USP, que teve uma relação candidato/vaga de 37,25!

Aliás, se quiser dar uma olhada em outras opções de instituições, se liga no post que temos aqui no blog sobre as instituições mais buscadas para fazer residência em Dermatologia em SP. Lá a gente fala um pouco mais sobre as vagas – que, em geral, são poucas – em cada lugar. 

Sim, é dureza, mas ainda dá tempo de você se preparar para realizar seu sonho de fazer residência médica em Dermatologia na USP ou qualquer outra das principais instituições de São Paulo. Já contamos aqui no nosso blog tudo sobre a prova de residência médica da USP, e na Academia Medway você encontra vários outros materiais para te ajudar nessa jornada, incluindo um conteúdo com 20 questões de Preventiva que caíram na prova teórica de residência da USP nos últimos anos. E se quiser saber como é a residência em Dermatologia de outra grande escola, a Unifesp, temos um post exatamente sobre isso! Pra fechar, falamos também sobre quanto ganha um dermatologista no Brasil. Confere lá.

Para brilhar ainda mais nas provas de residência médica em São Paulo, aproveita e dá uma olhada no nosso canal do YouTube. Toda segunda e sexta-feira tem vídeo novo! Nesse aqui, a Pucca conta mais sobre um tema bem importante que cai em Pediatria na USP:

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JoanaRezende

Joana Rezende

Carioca da gema, nasceu em 93 e formou-se Pediatra pela UFRJ em 2019. No mesmo ano, prestou novo concurso de Residência Médica e foi aprovada em Neurologia no HCFMUSP, porém, não ingressou. Acredita firmemente que a vida não tem só um caminho certo e, por isso, desde então trabalha com suas duas grandes paixões: o ensino e a medicina.