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Desfibrilação: quando indicar e como fazer

Fala moçada, tudo certo? Seguinte: no post de hoje, falaremos sobre desfibrilação, pedra angular no manejo da Parada Cardiorrespiratória (PCR), junto com a Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP) de alta qualidade e precoce.. Se você nunca viu ou fez, vamos te ensinar. Se você já fez, chegou a hora de revisar porque esse é um procedimento que deve ser medular e a gente não pode comer bola aqui!

Qual a importância da desfibrilação?

Para explicar a importância da desfibrilação (e aqui vou aproveitar a oportunidade e mostrar a importância da RCP precoce também) vou usar epidemiologia. Calma, não brigue comigo, prometo ser rápido. Me acompanhe. 

NNT significa Número Necessário para Tratar, ou seja, quantas pessoas eu preciso oferecer determinado tratamento para que uma delas se beneficie. Abaixo vou colocar o NNT (em relação à sobrevida) das medidas que fazemos no manejo de uma PCR.

  • Adrenalina: NNT = 112
  • Reconhecimento rápido da PCR: NNT = 11
  • RCP realizado por testemunha: NNT = 15
  • Desfibrilação precoce: NNT = 5

Ficou claro agora o que mais importa no manejo da PCR? Reconhecer e iniciar as compressões rapidamente, além da desfibrilação precoce que é o nosso foco aqui hoje.

Quando indicar a desfibrilação elétrica?

Este procedimento deve ser realizado nos casos de PCR com ritmos chocáveis – Fibrilação Ventricular (FV) e Taquicardia Ventricular (TV) sem pulso. Além disso ela será realizada nos casos de Taquicardia Ventricular Polimórfica instável, pois diferentemente de outras arritmias instáveis onde faremos cardioversão elétrica sincronizada, nesse caso não há como sincronizar, justamente por conta do polimorfismo dos complexos QRS. Um exemplo de TV Polimórfica é o Torsades de Pointes; logo, se você se deparar com um Torsades instável, deve indicar a desfibrilação.

E para não deixar nenhum ponto sem nó, vale reforçar que a desfibrilação na PCR é para os ritmos chocáveis. Nos ritmos não chocáveis (Assistolia e Atividade Elétrica sem Pulso) não há indicação de desfibrilação.

Fonte: pt.my-ekg.com – Fibrilação Ventricular
Fonte: ahainstructornetwork.americanheart.com – Taquicardia Ventricular
Fonte: pt.my-ekg.com – Taquicardia Ventricular Polimórfica (Torsades de Pointes)

Como fazer a desfibrilação? 

Posicionamento correto das pás: 

Fonte: iepmoinhos.com.br
  • Uma abaixo da clavícula direita, ao lado do esterno e outra na região do ictus cardíaco
  • Lembre de colocar gel nas pás (além de ajudar na condução do choque, evita que a pele seja queimada)
  • A força de pressão contra a parede torácica deve ser de cerca de 10Kg
  • Se o paciente estiver molhado: Secar
  • Se tiver muito pelo: Fazer tricotomia
  • Se tiver marca-passo: Afastar a pá 10-15cm do dispositivo

Carga:

  • Na dúvida: Carga máxima!
  • Monofásico: 360J
  • Bifásico: 200J

Antes de desfibrilar:

  • Todos devem estar afastados. Certifique-se disso antes de aplicar o choque
  • Retire fonte de O2 (se o choque liberar uma faísca e ela tiver contato com a fonte de O2 há risco de explosão)
  • Sedação se for TV Polimórfica instável, pois o paciente está acordado; e para sedar pode ser usado Midazolam, Etomidato ou Propofol associado ao Fentanil. Se for uma PCR não precisa sedar, lógico né?

Após a desfibrilação:

  • Reiniciar imediatamente as compressões
  • Apenas analisar o ritmo após 2 minutos de RCP ou 5 ciclos (30:2)
  • Minimizar as interrupções das compressões para qualquer ação a ser realizada durante o manejo, inclusive a desfibrilação. Preconiza-se que as interrupções não devem ser maiores que 10 segundos.

E onde entra o DEA nessa história?

O Desfibrilador Externo Automático (DEA) é um dispositivo portátil que também tem como finalidade desfibrilar. A principal diferença está na palavra “automático”, ou seja, o próprio aparelho analisa o ritmo e, se for um dos ritmos chocáveis, aplica o choque, sendo que em cada etapa o DEA “conversa” com o operador:

  • “Aplique as pás no tórax do paciente”
  • “Encaixe o conector dos eletrodos perto da luz que pisca”
  • “Analisando o ritmo cardíaco, não toque no paciente”
  • “Choque recomendado”
  • “Carregando”
  • “Afaste-se do paciente”
  • “Administre o choque agora, pressione o botão”
  • “Choque administrado, inicie o RCP”

Por conta de sua praticidade ele pode ser usado por qualquer pessoa treinada, não sendo necessário que seja um médico. Aqui quando digo treinado, basicamente me refiro a ter feito o BLS (Curso de Suporte Básico de Vida).

Além disso, é exigido por lei a presença de DEA em locais de aglomeração ou com muita circulação de pessoas (tais como: aeroportos / rodoviárias / shoppings / estádios de futebol / eventos com expectativa de público superior a 2 mil pessoas…)

Para encerrar…

Fazer um paciente voltar (e bem) de uma PCR é uma das melhores sensações da prática médica. Mas para isso RCP e desfibrilação têm que estar dominados. Agora que você sabe indicar e fazer a desfibrilação, brilhe no seu plantão! Aproveita também para dar uma conferida na Academia Medway? Por lá disponibilizamos diversos e-books e minicursos completamente gratuitos! Por exemplo, o nosso e-book ECG Sem Mistérios ou o nosso minicurso Semana da Emergência são ótimas opções pra você estar preparado para qualquer plantão no país.

E, antes de você ir, se você quiser aprender muito mais sobre diversos outros temas, o PSMedway, nosso curso de Medicina de Emergência, irá te preparar para a atuação médica dentro da Sala de Emergência!

Além disso, temos mais uma dica de ouro pra te dar: se você quer dominar a base da analgesia e sedação e se sentir seguro para prescrever um plano de analgesia otimizado e individualizado, sugiro fazer o nosso Curso de Analgesia e Sedação: do PS à UTI

Bons estudos e até a próxima!

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BrunoBlaas

Bruno Blaas

Gaúcho, de Pelotas, nascido em 1997 e graduado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Residente de Clínica Médica na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP). Filho de um médico e de uma professora, compartilha de ambas paixões: ser médico e ensinar.