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Enxaqueca crônica: tudo que você precisa saber

Você já ouviu falar sobre a enxaqueca crônica? Essa forte dor de cabeça é comum: 2% da população mundial sofre com os sintomas. Também chamada de cefaleia crônica diária, ela pode ser prolongada e frequente, a ponto de causar crises corriqueiras. 

Ela pode se iniciar como uma doença episódica e evoluir para as dores crônicas. Você sabe como identificar quando é cada caso especificamente? A seguir, confira as diferenças entre os dois tipos de dor e as formas de tratamento para enxaqueca

Quais são os critérios de enxaqueca?

Os critérios diagnósticos da enxaqueca trazem mais segurança para a identificação e remetem às principais características dessa doença, que vão além da dor de cabeça. No caso da enxaqueca episódica, os sintomas se iniciam com, pelo menos, 5 crises, com duração de 4 a 72h (não tratada ou tratada sem sucesso).

Geralmente, ela apresenta duas das seguintes características: ser unilateral (hemicraniana), pulsátil, de moderada a intensa (limitando as atividades rotineiras) e agravada por esforço físico habitual, como subir escadas. Também pode causar náusea e/ou vômito, fotofobia e fonofobia. 

A grande diferença entre a cefaleia episódica e a crônica é a frequência de dor. De forma simplificada, a primeira se caracteriza com menos de 15 dias de dor por mês. Quando o período é maior, ela se torna crônica.

Os sintomas de enxaqueca crônica são dores de cabeça (cefaleia do tipo tensional e/ou migranosa) por mais de 15 dias por mês, durante 3 meses. O diagnóstico também é feito pelos seguintes critérios: 

  • história de, pelo menos, cinco crises de cefaleia preenchendo os critérios de enxaqueca (com ou sem aura);
  • menos de oito ou oito dias por mês por, no mínimo, três meses de cefaleia com características migranosas e alívio de crises prévias com triptanos ou ergotamínicos.

Como mencionado previamente, a enxaqueca começa como episódica. Alguns quadros evoluem com o aumento da frequência da dor, caracterizando o tipo crônico. Esse processo é chamado de “transformação da enxaqueca”. 

Fatores de risco

Os fatores de risco definem o que pode ocasionar a transformação em enxaqueca crônica. Alguns não podem ser alterados, MAS outros são modificáveis, possibilitando que a evolução do quadro clínico não aconteça. Veja quais são eles! 

Não modificáveisModificáveis
Sexo femininoFrequência basal de dor alta
JuventudeUso abusivo de abortivos de crises
Fatores genéticosDepressão e ansiedade
História de TCERoncos e transtornos do sono
Eventos estressantesObesidade
Presença de alodíniaConsumo abusivo de café
Comorbidades (principalmente dor crônica)

Sendo assim, se os médicos agirem sobre os fatores modificáveis e tratarem bem a enxaqueca episódica (que não tem cura, mas tem controle), a transformação pode ser impedida.

Como é o tratamento dos quadros que evoluem para enxaqueca crônica?

Agora que você sabe o que causa enxaqueca crônica, vamos discutir sobre as formas de tratamento dessa dor frequente. O foco inicial dos cuidados deve ser baseado em três pilares: medidas não farmacológicas, tratamento medicamentoso profilático e evitação do uso abusivo de analgésicos.

O tratamento não farmacológico envolve atividade física regular, higiene do sono, alimentação em horários regulares e terapia cognitivo-comportamental. Ademais, pode se fazer neuroestimulação e acupuntura, evitando desencadeantes (jejum prolongado, privação de sono, tabagismo e etilismo).

Por outro lado, o tratamento medicamentoso profilático deve ser feito levando em consideração os pacientes de forma individualizada. Algumas opções farmacológicas de primeira linha são propranolol, amitriptilina, topiramato e ácido valproico (para homens e mulheres sem potencial ou desejo gestacional).

Com as doses adequadas desses medicamentos, espera-se que até 50% dos pacientes respondam com redução de aproximadamente 50% na frequência de dor após 3 meses de tratamento. 

Outros remédios de segunda linha são: venlafaxina, gabapentina, antagonistas do CGRP, toxina botulínica, verapamil, riboflavina e outros betabloqueadores. Ao iniciar a medicação, as doses devem ser baixas e aumentadas gradualmente até a dosagem-alvo. A falha da medicação pode ser considerada apenas após 8 semanas da dose-alvo atingida.

Por que evitar o analgésico?

É reconhecido que o excesso de analgésicos comuns (chamados de AINEs), opioides e triptanos causa complicações. Esse subtipo de cefaleia por abuso de analgésicos pode piorar dores primárias preexistentes (comumente, cefaleia tensional ou enxaqueca). 

Geralmente, a frequência e a duração da dor diminuem com a retirada desses analgésicos. O critério para o diagnóstico é a partir de 15 dias com dor e abuso regular (por mais de 3 meses) de uma ou mais medicações. 

O tempo de uso excessivo de remédios pode variar a partir de 10 dias por mês de ergotamínicos, triptanos, opioides, analgésicos combinados ou combinação dessas medicações (sem abuso de uma medicação específica isoladamente), além de mais de 15 dias por mês de analgésicos simples (dipirona, paracetamol, aspirina ou AINEs).

A abordagem dos pacientes que sofrem com essa cefaleia é diferente. Eles administram as medicações analgésicas justamente porque sentem dor ou medo de senti-la. Então, é difícil cessar o uso dos medicamentos. 

A estratégia para abordagem é feita por educação do paciente, suspensão do abuso de analgésicos de forma abrupta e terapia de ponte, quando for necessário, para o tratamento profilático começar a ter efeito. Para isso, algumas recomendações são:

  • naproxeno 550 mg 2 vezes por dia por 7 a 14 dias;
  • prednisona 60 mg 1 vez por dia por 5 dias;
  • clorpromazina 4%, de 3 a 10 gotas (iniciando com doses baixas e aumentando de acordo com a tolerabilidade), a cada 6 ou 8 horas, apenas se ocorrer dor de cabeça (essa medicação não está associada à cefaleia por abuso de analgésicos).

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CaioDisserol

Caio Disserol

Médico paranaense, nascido em 1990, formou-se em Neurologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Foi preceptor dos residentes entre 2019 e 2020 e é Neuroimunologista pelo HC-FMUSP. Atualmente é assistente do Hospital das Clínicas da UFPR