Conteúdo atualizado em 21/05/2026 – A epinefrina é um fármaco catecolaminérgico central na medicina de emergência, com papel decisivo em parada cardiorrespiratória, anafilaxia e em situações selecionadas de choque refratário. Seu conhecimento é altamente relevante para residência médica, prova de título e tomada de decisão clínica à beira-leito.
Definição da epinefrina
A epinefrina, também chamada adrenalina, é uma catecolamina endógena produzida principalmente pela medula adrenal. Na prática clínica, é utilizada como agente vasopressor, inotrópico e broncodilatador, com efeito dependente da dose e do perfil de ativação de receptores adrenérgicos.
Seu uso é prioritário em contextos de instabilidade hemodinâmica e reações de hipersensibilidade graves. Em emergências, a escolha da via, da diluição e da dose correta é determinante para eficácia e segurança.
Fisiopatologia da epinefrina
A epinefrina atua em receptores alfa 1, alfa 2, beta 1 e beta 2.
Alfa 1
- Vasoconstrição periférica
- Aumento da resistência vascular sistêmica
- Elevação da pressão arterial
- Redução do edema de mucosas
Alfa 2
- Inibição da liberação de noradrenalina em terminações nervosas
- Modulação de liberação de insulina
Beta 1
- Aumento da frequência cardíaca
- Aumento da contratilidade miocárdica
- Aumento da condução atrioventricular
Beta 2
- Broncodilatação
- Relaxamento de musculatura lisa
- Aumento da glicogenólise
- Redução transitória da liberação de mediadores por mastócitos e basófilos na anafilaxia
Em doses mais baixas, predominam efeitos beta-adrenérgicos. Em doses mais altas, os efeitos alfa-adrenérgicos tornam-se mais marcantes.
Cenários de uso
A epinefrina não trata uma etiologia específica, mas é indicada em síndromes agudas nas quais seus efeitos fisiológicos modificam o desfecho clínico imediato.
Principais cenários de uso:
Choque séptico
A epinefrina não é vasopressor de primeira linha. A diretriz internacional recomenda noradrenalina como primeira escolha, com epinefrina como opção adicional ou subsequente em casos selecionados.
Anafilaxia
A anafilaxia é um diagnóstico clínico. Deve-se suspeitar diante de instalação aguda de sintomas, especialmente quando houver:
- Comprometimento cutâneo ou mucoso associado a sintomas respiratórios
- Hipotensão ou sinais de hipoperfusão
- Envolvimento de dois ou mais sistemas após exposição provável a alérgeno
- Hipotensão isolada após exposição a alérgeno conhecido
Interpretação prática
- Não esperar hipotensão franca para administrar epinefrina
- Não usar resposta à epinefrina como critério diagnóstico
- A administração deve ser precoce quando houver suspeita consistente de anafilaxia
Parada cardiorrespiratória
Na PCR, a decisão pelo uso de epinefrina segue o algoritmo de ressuscitação, e não um diagnóstico etiológico fechado no momento inicial.
- Em ritmos não chocáveis, a epinefrina deve ser administrada o mais precocemente possível
- Em ritmos chocáveis, é administrada conforme sequência do algoritmo ACLS e PALS
Asma aguda grave
Asma aguda grave isolada não é indicação rotineira de epinefrina. As diretrizes atuais reservam epinefrina para situações com anafilaxia associada, angioedema, ou circunstâncias específicas, e não como tratamento padrão da exacerbação asmática grave.
Epinefrina na prática
Antes de prescrever epinefrina, confirmar:
- Indicação correta
- Via apropriada
- Concentração correta
- Dose por faixa etária e cenário clínico
- Monitorização hemodinâmica quando aplicável
Efeitos adversos e manifestações de toxicidade do uso de epinefrina:
Situações de maior risco do uso de epinefrina:
Na anafilaxia, contudo, não há contraindicação absoluta ao uso de epinefrina quando indicada, porque o atraso na administração aumenta risco de óbito.
Usos comuns:
Parada cardiorrespiratória no adulto
Dose
- 1 mg IV ou IO
- Repetir a cada 3 a 5 minutos
Aplicação clínica
- Em ritmo não chocável, administrar o mais cedo possível
- Em ritmo chocável, usar conforme algoritmo após desfibrilação inicial e ciclos de RCP
Interpretação prática
- A epinefrina melhora a perfusão coronariana e cerebral durante a RCP
- Não substitui compressões de alta qualidade, desfibrilação quando indicada e correção de causas reversíveis
Parada cardiorrespiratória pediátrica
Dose
- 0,01 mg/kg IV ou IO da concentração 0,1 mg/mL
- Dose máxima: 1 mg
- Repetir a cada 3 a 5 minutos
Ponto de prova
- Não confundir com a concentração 1 mg/mL usada em outras situações ou para via endotraqueal em contexto específico de ausência de acesso
Anafilaxia
A via intramuscular na face anterolateral da coxa é a via de escolha.
Dose no adulto
- 0,3 a 0,5 mg IM
- Pode repetir a cada 5 a 15 minutos, conforme resposta clínica
Dose pediátrica
- 0,01 mg/kg IM
- Máximo usual de 0,3 mg em crianças e adolescentes
- Em adultos, máximo usual de 0,5 mg
Como aplicar
- Administrar precocemente ao primeiro reconhecimento de anafilaxia provável
- Associar oxigênio, expansão volêmica quando necessário, posicionamento adequado e observação clínica
- Anti-histamínicos e corticosteroides são adjuvantes e não substituem epinefrina
Interpretação clínica
- Atrasar epinefrina piora prognóstico
- Via subcutânea é inferior à intramuscular para esse cenário
Choque refratário
A epinefrina pode ser utilizada em infusão contínua em cenários selecionados de choque com necessidade de suporte vasopressor e inotrópico.
Aplicação clínica
- Considerar em choque refratário, conforme fenótipo hemodinâmico
- Em choque séptico, geralmente após ou em associação à noradrenalina
- Exigir monitorização contínua, preferencialmente em ambiente intensivo
Implicação prática
- Não tratar choque circulatório refratário como indicação genérica sem definição etiológica
- A escolha do vasopressor depende do tipo de choque, perfil hemodinâmico e protocolo institucional
Hemostasia local
A epinefrina pode ser usada topicamente ou combinada a anestésicos locais em contextos específicos para reduzir sangramento. Porém:
- Não substitui compressão direta
- Não resolve hemorragia significativa
- Deve ser evitada em áreas com risco aumentado de isquemia, conforme contexto e formulação
Push-dose de epinefrina
O conceito de push-dose pressor é utilizado em medicina de emergência e anestesia para hipotensão peri-intubação ou instabilidade transitória.
Entretanto:
- Requer treinamento
- Depende de diluição rigorosa
- Não deve ser ensinado em material geral sem forte contextualização institucional
- O risco de erro de concentração é relevante
Para conteúdo educacional amplo, é mais seguro priorizar princípios de indicação, monitorização e necessidade de protocolo local.
Pontos-chave para prova
- Epinefrina IM na face anterolateral da coxa é a primeira linha da anafilaxia
- Dose da anafilaxia: 0,01 mg/kg IM, máximo usual 0,3 mg em crianças e 0,5 mg em adultos
- Na PCR do adulto: 1 mg IV ou IO a cada 3 a 5 minutos
- Na PCR pediátrica: 0,01 mg/kg IV ou IO, máximo 1 mg
- Em ritmos não chocáveis, administrar epinefrina precocemente
- Anti-histamínicos e corticosteróides não substituem epinefrina na anafilaxia
- Asma grave isolada não é indicação rotineira de epinefrina
- No choque séptico, noradrenalina é o vasopressor de primeira linha
- Erro de concentração de epinefrina é tema clássico de prova e de segurança do paciente
Conclusão
A epinefrina permanece uma das medicações mais importantes da emergência, mas seu uso correto exige precisão absoluta em indicação, via, dose e concentração.
Na prática e nas provas, os cenários centrais são anafilaxia e parada cardiorrespiratória, enquanto usos em choque e outras situações devem sempre ser contextualizados por diretriz e protocolo.
Referências