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Interações medicamentosas com anticoncepcionais: Saiba mais!

As interações medicamentosas com anticoncepcionais são bastante discutidas no ramo da Ginecologia e Obstetrícia, sobretudo porque podem interferir significativamente na vida das mulheres. E aí, quer entender tudo sobre esse assunto? Então, continue a leitura com a gente! Vamos lá! 

Tudo que você precisa saber sobre as interações medicamentosas com anticoncepcionais
Tudo que você precisa saber sobre as interações medicamentosas com anticoncepcionais

Interações medicamentosas com anticoncepcionais: para começar

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguma coisa como: “Ela estava com infecção urinária, tomou antibiótico e o anticoncepcional falhou. Por isso que tá grávida!”.

Mas será mesmo que os antibióticos interferem na eficácia dos anticoncepcionais? E quanto a outros medicamentos, como eles interagem? Há alguma diferença entre a via oral e as outras vias (intramuscular, transdérmica, vaginal)?

Bora descobrir tudo isso juntos!

Métodos Contraceptivos Hormonais

Desde o primeiro contraceptivo, o Enovid, lançado em 1960, houve uma imensa evolução na tecnologia utilizada nesses medicamentos. 

Para se ter uma noção das mudanças, a primeira pílula anticoncepcional era composta por um progestágeno associado a 150 mg de etinilestradiol.  

Diferentemente disso, hoje as principais pílulas possuem 0,02-0.03 mg de etinilestradiol, sendo que existem também algumas com 0,015 mg. Ou seja, 1000 vezes menos estrogênio que anteriormente. 

Além dessa redução da dose de etinilestradiol, diversas outras progesteronas foram produzidas em laboratório, aumentando os benefícios não-contraceptivos das pílulas. 

Por exemplo: o gestodeno e a drospirenona apresentam a mesma eficácia anticoncepcional, porém têm efeito  antimineralocorticoide, auxiliando na redução de edema e da sensação de retenção hídrica. 

Por outro lado, a drospirenona e a ciproterona agem de forma antagônica aos receptores androgênicos e podem auxiliar no controle de sintomas como acne, aumento de oleosidade da pele, hirsutismo e alopecia de padrão androgenético.

A revolução contraceptiva não ocorreu apenas na composição dos métodos, mas também na sua forma de apresentação. Após a pílula, não tardou para surgirem os métodos injetáveis, os adesivos e até mesmo o anel vaginal. 

Os dispositivos intrauterinos têm uma evolução à parte, mas também entram no rol de opções que surgem para o controle de natalidade. Por último, o Implanon, o implante subdérmico de etonogestrel, aparece para completar esse vasto arsenal de métodos disponíveis para as mulheres da sociedade moderna.

Mas e aí, para que tantas opções? A resposta é simples. Porque cada mulher é única! Cada uma tem sua rotina, sua personalidade, suas comorbidades e preferências. Algumas usam medicações que realmente influenciam a eficácia de algum método. Mas todas têm o mesmo direito a planejamento familiar. 

Interações medicamentosas com anticoncepcionais: como uma coisa influencia a outra?

Agora, é hora de entender como funciona a absorção e produção dos metabólitos ativos dos anticoncepcionais.

Quando um anticoncepcional combinado é ingerido, tanto o estrógeno como a progesterona nele contidos são absorvidos no trato gastrointestinal, chegando à corrente sanguínea e, consequentemente, ao fígado. 

Assim como grande parte dos metabólitos absorvidos no intestino, temos uma primeira passagem hepática, que irá atuar na metabolização desses hormônios. 

No fígado, por intermédio das enzimas componentes do sistema do citocromo P450, os metabólitos iniciais são transformados em formas conjugadas, sem atividade em receptores e, portanto, sem efeito contraceptivo

Esses metabólitos transformados são excretados novamente no trato gastrointestinal por meio da bile, sendo uma parte hidrolisada por enzimas intestinais, liberando a forma ativa do hormônio. 

Esta última é reabsorvida, entra na corrente sanguínea e pode atuar na hipófise, gerando os efeitos desejados de bloqueio da produção de gonadotrofinas, responsável pela inibição da ovulação.

Notem aqui: o metabolismo hepático é fator chave para a concentração final de hormônio ativo. Se ele estiver aumentado, uma maior concentração de hormônios será excretada na sua forma inativa. 

Então, chegou a hora de ver algumas medicações específicas que podem afetar todos esses processos.

Quais medicações influenciam a eficácia de métodos anticoncepcionais?

Como já falamos, existem muitos mitos a respeito das interações medicamentosas com anticoncepcionais. Disso, surgem medos em relação ao uso de medicações junto à pílula. Vamos ver quais desses receios são realmente reais?

Antibióticos

Tidos como os principais vilões dos anticoncepcionais, as evidências científicas não confirmam tanta necessidade para a sua “demonização”. 

Para falar a verdade, a rifampicina é o único antibiótico que comprovadamente reduz a concentração sérica de etinilestradiol e de progestágenos, devido à maior ativação do sistema enzimático do fígado. Isso leva à metabolização mais acelerada desses hormônios e reduz a sua eficácia.

Essa medicação é utilizada no tratamento de tuberculose ou de hanseníase, e se deve ter especial atenção aos anticoncepcionais utilizados por pacientes nesses tratamentos. 

Nesses casos, outros métodos que não os contraceptivos orais combinados (COCs) são recomendados. Portanto, podemos utilizar DIUs, métodos injetáveis ou o Implanon. 

Ah, e vale lembrar que pílula somente de progesterona também está contraindicada nessas pacientes, já que a concentração hormonal sérica também será prejudicada. Para simplificar: se está em uso de Rifampicina, não pode nada pela boca, beleza?

Mas e os outros antibióticos? Temos aqui o maior mito relacionado a esse tema! Outros antibióticos não influenciam a eficácia contraceptiva dos métodos orais! 

Dessa forma, não há necessidade de uso de métodos adicionais durante tratamentos para outras infecções, como quando se utiliza fosfomicina ou ciprofloxacino para uma infecção de trato urinário (ITU), por exemplo.

Apesar de casos anedóticos relacionando gestações indesejadas ao uso de outros antibióticos que não atuam na ativação enzimática, não há comprovação de que essas medicações interfiram na concentração final dos hormônios das pílulas contraceptivas e nem na sua eficácia contraceptiva. 

Antifúngicos

Na classe dos medicamentos utilizados contra as infecções fúngicas, uma medicação se sobressai quando falamos em interação com contraceptivos orais. 

A griseofulvina, um agente antifúngico por vezes utilizado no tratamento de tineas pedis, capitis ou onicomicoses, pode levar à maior ativação enzimática hepática e também aumentar a metabolização dos hormônios presentes nos anticoncepcionais. 

Por esse motivo e após relatos de diversos casos associados a falhas contraceptivas em uso de griseofulvina, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de um método anticoncepcional backup não-oral enquanto se mantiver o uso desta medicação.

Antirretrovirais

Algumas drogas utilizadas na terapêutica contra o vírus do HIV podem interagir com anticoncepcionais e reduzir a sua eficácia. 

Isso é extremamente importante de ser levado em conta, uma vez que esta população tem um motivo extra para manter sua eficácia contraceptiva, de forma que possa engravidar apenas no melhor momento e do modo mais bem planejado possível.

Em particular, alguns inibidores de protease, como o darunavir/ritonavir ou o lopinavir/ritonavir podem levar à redução dos níveis séricos de etinilestradiol e noretisterona. Sendo assim, deve-se indicar métodos anticoncepcionais adicionais se existir uso desses agentes. 

Por outro lado, drogas comumente utilizadas, como o dolutegravir e o raltegravir, aceitam prescrições de contracepção hormonal de forma segura e eficaz, sem preocupações extras. 

Mas não são apenas as medicações orais que podem interagir com os antirretrovirais: até o Implanon não escapa desses efeitos. Especial atenção deve ser dada às usuárias de efavirenz.

Isso porque há estudos que correlacionam uma redução da eficácia do implante de etonogestrel, atualmente o método considerado mais eficaz disponível (com índice de Pearl de 0,05), com o uso desse antirretroviral.  

Anticonvulsivantes

Essa classe de medicamentos merece muita atenção quando falamos em contracepção. Isso porque aqui, o problema não é apenas o efeito na redução da eficácia contraceptiva. 

Nesses casos, podemos também ter uma influência dos contraceptivos na redução do efeito antiepiléptico dessas drogas. Além disso, as interações são mais complexas e não envolvem apenas a via oral.

Portanto, se você está diante de uma paciente em uso de anticonvulsivantes, se liga nessas dicas:

  • Pacientes que utilizam anticonvulsivantes como fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina, topiramato e primadona não devem utilizar medicações contraceptivas por via oral ou nada que contenha etinilestradiol. Sendo assim, não podem usar as pílulas combinadas ou as pílulas isoladas e nem o adesivo ou anel contraceptivo. Contudo, podem utilizar, por exemplo, os injetáveis mensais, que são métodos combinados, porém utilizam outro estrógeno, em geral, o valerato de estradiol. 
  • Pacientes que utilizam ácido valproico, levetiracetam ou gabapentina não apresentam contraindicações ao uso de contraceptivos. 
  • Paciente usuárias de lamotrigina não podem utilizar composições combinadas que contenham estrogênio. Sendo assim, não podem usar pílulas combinadas, anel, adesivo ou injetável mensal, mas podem usar pílula isolada de progesterona.

Erva-de-são-joão

Algumas evidências limitadas sugerem que a erva-de-são-joão, uma planta herbácea fitoterápica utilizada no tratamento caseiro de ansiedade, depressão e tensões musculares, pode levar ao aumento do risco de ovulação e sangramentos irregulares em usuárias de COCs.

Isso sugere uma influência nos níveis séricos finais dos metabólitos ativos, que pode estar relacionado a uma indução da via hepática do citocromo P450. Esse efeito varia com a dose utilizada, mas justifica uma cautela no seu uso conjunto com anticoncepcionais hormonais orais.

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MarceloLucchesi Montenegro

Marcelo Lucchesi Montenegro

Paranaense, nascido em Curitiba em 1991. Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2016, com residência em Ginecologia e Obstetrícia na UNICAMP, concluída em 2019. Especialização em Ginecologia Endócrina e Reprodução Humana pela USP-RP em 2019 até 2020 e atualmente fellow em Reprodução Humana pela clínica NeoVita, em São Paulo (SP). Nada vem de graça, os resultados refletem a sua dedicação!