A KDIGO disponibilizou, em março de 2026, a versão preliminar da atualização da nova diretriz para manejo do diabetes na DRC. Como se trata de um public review draft, o conteúdo ainda pode mudar até a versão final.
Mesmo assim, a direção já está muito clara: o manejo ficou menos glicocêntrico e mais cardiorrenal, preventivo e multifatorial. A atualização foca em três eixos: definições e prevenção, monitorização glicêmica e farmacoterapia.
Vamos conferir as principais atualizações?
Um dos primeiros pontos da nova diretriz é a preferência por termos como “diabetes e DRC”, “DRC no diabetes” ou “doença renal diabética”. A ideia é simples: nem toda DRC em quem tem diabetes é causada exclusivamente pelo diabetes.
Há heterogeneidade clínica, patológica e mecanística, e albuminúria e TFG, embora fundamentais, não definem sozinhas a etiologia.
A DRC continua sendo definida como alteração estrutural ou funcional renal persistente por pelo menos 3 meses, com implicações para a saúde. Os dois marcadores centrais seguem sendo UACR e TFG, que devem ser interpretados em conjunto.
Sobre isso, talvez a mudança mais importante seja o peso dado à prevenção primária. O foco não é mais apenas diagnosticar cedo e retardar progressão. A KDIGO passa a enfatizar a preservação de saúde renal ao longo da vida, tentando evitar que a DRC se instale no paciente com diabetes.
Esse raciocínio aparece de forma explícita no capítulo de prevenção e dialoga com o consenso ACC/ADA/EASD/KDIGO citado pela própria diretriz. Na prática, isso reforça a importância de agir cedo em glicemia, pressão arterial, estilo de vida e terapias com benefício cardiorrenal comprovado, especialmente no DM2.
O algoritmo segue muito prático:
A diretriz reforça também que alterações devem ser persistentes antes de firmar o diagnóstico de DRC. Uma albuminúria isolada ou uma queda transitória da TFG não bastam, sozinhas, para rotular o paciente.
Esse é um dos trechos mais úteis para ambulatório e prova. A KDIGO orienta pensar em causa concomitante ou alternativa quando houver:
Nesses cenários, o raciocínio não deve parar em “nefropatia diabética”. A diretriz recomenda investigação adicional e, quando indicado, encaminhamento ao nefrologista. Em situações apropriadas, biópsia renal também pode ser aceitável para esclarecer a etiologia.
A HbA1c segue sendo o padrão para monitorização do controle glicêmico (MCG) em pessoas com diabetes e DRC. Em geral, a diretriz considera razoável dosá-la duas vezes por ano, podendo chegar a quatro vezes ao ano quando a meta não foi atingida ou quando houve mudança terapêutica.
A ressalva clássica permanece: em DRC avançada, especialmente G4–G5 e diálise, a HbA1c perde confiabilidade. Anemia, uso de eritropoetina, transfusões e o ambiente urêmico reduzem sua precisão. Mesmo assim, ela continua sendo o biomarcador preferencial, porque glicada albumina e frutosamina não mostraram vantagem consistente nesse cenário.
Já o MCG ganhou muito espaço. A diretriz orienta oferecê-lo para todas as pessoas com DM1. Em DM2, ele pode ser oferecido especialmente para quem usa insulina e para quem tem risco de hipoglicemia.
O racional é forte: melhora controle, reduz hipoglicemia e individualiza metas de forma mais segura, algo especialmente importante na DRC.
Nas metas com MCG, a KDIGO 2026 foi mais específica:
Esse é o tipo de número que a banca gosta de cobrar.
Aqui está a maior mudança de prática. A diretriz deixa claro que o tratamento do diabetes na DRC deve ser construído para reduzir progressão renal e risco cardiovascular, e não apenas para melhorar a HbA1c.
O texto recomenda abordagem personalizada, frequentemente combinando intervenções cedo, priorizando aquelas com maior benefício clínico duro.
IECA ou BRA seguem como base para pessoas com diabetes, hipertensão e albuminúria, com titulação até a maior dose tolerada.
A diretriz mantém a recomendação de monitorar creatinina e potássio entre 2 e 4 semanas após início ou aumento da dose, aceitar elevação inicial da creatinina de até 30% e tentar manejar hiperpotassemia antes de simplesmente suspender a droga.
Os inibidores de SGLT2 seguem como pilar fundamental no DM2 com DRC. A recomendação é tratar adultos com DM2, DRC e TFG ≥20 mL/min/1,73 m² com SGLT2i.
O ponto mais importante é este: o SGLT2i deve ser iniciado independentemente do controle glicêmico. Mesmo com HbA1c em meta, se o paciente tem DM2 + DRC + TFG ≥20, a droga entra pela proteção de órgão.
A diretriz destaca redução de mortalidade, hospitalização por insuficiência cardíaca e falência renal, mesmo com efeito glicêmico modesto.
Além disso, uma vez iniciado, o SGLT2i pode ser mantido mesmo se a TFG cai abaixo de 20 (lembrando que a dose de 10mg de dapagliflozina ou empagliflozina é a mantida, sem necessidade de novo ajuste para baixo), desde que seja tolerado e o paciente ainda não tenha iniciado terapia renal substitutiva.
Os antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide ganharam ainda mais espaço. Para DM2, a recomendação é adicionar nsMRA em pessoas com TFG ≥25 mL/min/1,73 m², potássio normal e albuminúria persistente, em uso da dose máxima tolerada de bloqueio do SRAA.
A diretriz também explicita que, nesses casos, SGLT2i e nsMRA podem ser iniciados simultaneamente quando apropriado.
O grande destaque do rascunho de 2026 é que agora há também recomendação para DM1. A KDIGO sugere adicionar nsMRA com benefício renal ou cardiovascular comprovado em pessoas com DM1, TFG ≥25, potássio normal e UACR ≥200 mg/g, apesar do uso de dose máxima tolerada de bloqueio do SRAA.
É uma recomendação mais fraca, mas é uma novidade importante e com grande cara de atualização de prova.
As terapias baseadas em GLP-1 subiram de patamar. A recomendação 1A é usar uma terapia baseada em GLP-1 com benefício cardiovascular ou renal comprovado em pessoas com DM2 e DRC que tenham alto risco de eventos cardiovasculares maiores ou renais, ou que não tenham atingido metas glicêmicas individualizadas.
Na prática, a diretriz destaca especialmente pessoas com ASCVD estabelecida ou UACR ≥100 mg/g apesar das terapias fundamentais. Esse ponto merece atenção porque houve muita confusão em resumos rápidos: o corte prático destacado é 100 mg/g, não 200 mg/g.
A justificativa do grupo de trabalho foi a ausência de heterogeneidade significativa de efeito que sustentasse restringir esse benefício a níveis mais altos de albuminúria.
Além do efeito glicêmico, essas terapias entram por redução de eventos cardiovasculares, possível benefício renal e papel importante no manejo do peso.
A metformina continua presente, mas claramente perdeu o protagonismo universal. A recomendação de 2026 é usá-la em pessoas com DM2, DRC e TFG ≥30 mL/min/1,73 m² que não tenham atingido metas glicêmicas apesar de SGLT2i e terapias baseadas em GLP-1, ou que não possam usar essas classes.
Na prática, isso significa reposicionamento. Ela deixa de ser a porta de entrada obrigatória para todos e passa a ocupar papel complementar no controle glicêmico.
Cntinua importante, mas depois das terapias com benefício cardiorrenal mais robusto, ou quando essas não puderem ser usadas. A diretriz mantém ajuste de dose quando a TFG cai abaixo de 45 e recomenda monitorar deficiência de vitamina B12 em uso prolongado.
| Classe | Quando iniciar | Corte de TFG | O que monitorar |
| SGLT2i | DM2 + DRC, independentemente da HbA1c | ≥20 | volume, pressão, queda inicial da TFG |
| nsMRA | albuminúria persistente apesar do SRAA; no DM1, cenário selecionado | ≥25 | potássio, creatinina |
| Metformina | se meta glicêmica não foi atingida apesar de SGLT2i/GLP-1, ou se eles não puderem ser usados | ≥30 | função renal, vitamina B12 |
| IECA/BRA | diabetes + hipertensão + albuminúria | sem “corte de início” próprio no texto resumido | creatinina, potássio |
A KDIGO 2026 não trouxe apenas pequenos ajustes, mas consolidou mudanças. O manejo do diabetes na DRC ficou menos centrado apenas em glicose e mais guiado por risco cardiorrenal, prevenção precoce e combinação inteligente de terapias.
Para quem estuda, isso significa abandonar a lógica antiga de “metformina primeiro, resto depois”. Para quem atende, significa olhar para rim e coração desde o início do seguimento.
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Entusiasta de café, formado pela Universidade de Taubaté em 2020, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Ipiranga (2023-2025). Atualmente, residente de Reumatologia no IAMSPE.