Dia Mundial e Nacional do Diabetes: 5 questões que já caíram nas provas de residência

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No dia 14 de novembro, voltamos nosso olhar para uma das doenças crônicas que mais exige atenção do médico: o Diabetes mellitus. Embora sua gestão faça parte do cotidiano da prática clínica, essa data nos convida a refletir não apenas sobre o tratamento e o diagnóstico, mas também sobre a prevenção, a educação em saúde e o papel integral do médico no cuidado ao paciente. 

Para quem está na jornada da residência, entender a diabetes de forma sólida, desde os mecanismos fisiopatológicos até as condutas mais atualizadas, representa um diferencial na hora da prova e na prática médica. 

A seguir, vamos contextualizar a importância do dia 14 de novembro para que você aprofunde esse tema e, logo depois, explorar cinco questões de residência que abordaram a diabetes, prontas para fortalecer seu repertório de estudos. Vamos nessa? 

Sobre o dia Mundial e Nacional do Diabetes

O dia 14 de novembro foi escolhido como Dia Mundial do Diabetes pela International Diabetes Federation (IDF) em parceria com a World Health Organization (OMS), com o objetivo de ampliar a conscientização global sobre a doença e destacar a importância da prevenção e controle. 

No Brasil, essa data também foi instituída como Dia Nacional do Diabetes, intensificando as ações de educação, pesquisa e atenção à saúde nesse campo. 

É relevante para o médico em formação porque evidencia que a diabetes é mais que “hiperglicemia”, trata-se de um importante fator de risco para doenças cardiovasculares, comprometimento renal, retinopatia, neuropatia e inúmeras complicações que fazem parte do cotidiano do clínico e do especialista. 

Além disso, a data reforça a cultura de cuidado centrado no paciente, onde alimentação, estilo de vida, rastreamento e adesão terapêutica ganham protagonismo. 

5 questões sobre Diabetes que já caíram nas provas 

Agora que você já entendeu a importância do Dia Mundial e Nacional do Diabetes, é hora de ver como esse tema aparece na prática das provas. Selecionamos 5 questões de residência médica sobre diabetes para você testar seus conhecimentos e entender o padrão das bancas.

1. Enamed – questão 50 (R1) – 2025 

Homem de 55 anos, com diagnóstico de diabetes mellitus, foi em consulta de rotina em Unidade Básica de Saúde (UBS) levando exames laboratoriais solicitados pelo médico na consulta anterior. Faz uso de metformina 850 mg, 3 vezes ao dia, e glicazida 30 mg, 1 vez ao dia, há mais de 6 meses. Os exames laboratoriais atuais apresentam hemoglobina glicada de 9,5% e creatinina sérica de 0,8 mg/dL.

Qual das condutas é a mais adequada para o seguimento desse caso?

A) Suspender os medicamentos orais, iniciar insulina NPH 10 Ul subcutânea pela manhã e 20 Ul à noite. Monitorar a glicemia pré-prandial, e, quando estiver controlada, medir a glicemia pós-prandial para avaliação da introdução da insulina regular.

B) Aumentar a glicazida para 60 mg ao dia, aumentar a metformina para 1 g, 3 vezes ao dia, repetir exames em 1 mês. Iniciar insulina se estiverem alterados; pactuar com o paciente a possibilidade de insulinização no retorno.

C) Manter a dose de metformina e glicazida, iniciar insulina NPH 10 Ul subcutânea à noite, associada à monitorização glicêmica de jejum. Ajustar 2 a 3 Ul a cada 2 a 3 dias, até atingir a meta da glicemia de jejum.

D) Trocar a glicazida por glibenclamida 20 mg por dia, aumentar a metformina para 1 g, 3 vezes ao dia, solicitar novos exames em 1 mês. Pactuar com o paciente a possibilidade de insulinização no retorno.

Gabarito: C

Resolução – introdução 

O paciente de 55 anos com diabetes mellitus tipo 2, em uso de metformina e gliclazida em doses adequadas há mais de 6 meses, apresenta hemoglobina glicada de 9,5%, o que indica controle glicêmico inadequado (meta geralmente <7% para a maioria dos pacientes). 

Com função renal normal (creatinina 0,8 mg/dL), já é possível afirmar que houve falha secundária à terapêutica oral, e a conduta correta é iniciar insulinoterapia, mantendo a metformina se tolerada.

De acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde e com as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes mais recentes, a introdução de insulina basal noturna é o passo seguinte quando o paciente mantém HbA1c >9% ou glicemias persistentemente elevadas, apesar do uso otimizado de antidiabéticos orais. 

O esquema basal mais comum é com insulina NPH à noite, associada à metformina e ajuste progressivo da dose (2–3 U a cada 2–3 dias) até atingir a glicemia de jejum <130 mg/dL.

Alternativa A

A suspensão completa dos medicamentos orais para iniciar apenas insulina NPH é uma abordagem excessivamente agressiva e desnecessária neste contexto. Quando a função renal está preservada e os medicamentos orais são bem tolerados, não há justificativa para sua descontinuação. 

A metformina, em particular, deve ser mantida sempre que possível, pois além do efeito hipoglicemiante, oferece benefícios cardiovasculares e auxilia no controle do peso. A proposta de monitorização glicêmica pré e pós-prandial também é mais complexa que o necessário para este estágio inicial de insulinização.

Alternativa B

Esta alternativa representa uma abordagem insuficiente para um paciente com HbA1c de 9,5%. Aumentar as doses dos medicamentos orais e aguardar um mês para reavaliar não é adequado quando já há evidência clara de falha terapêutica após mais de 6 meses de tratamento. 

Com uma glicada tão elevada, a probabilidade de alcançar controle adequado apenas com ajuste de doses orais é muito baixa, retardando desnecessariamente o controle glicêmico e expondo o paciente aos riscos da hiperglicemia persistente.

Alternativa C

Representa o esquema de insulinização mais apropriado para este caso: manutenção dos medicamentos orais eficazes (metformina e gliclazida) associada ao início de insulina NPH noturna em dose baixa (10 UI). 

Este esquema, conhecido como “basal plus”, é o mais recomendado para início de insulinização em pacientes com diabetes tipo 2. A insulina NPH noturna controla principalmente a glicemia de jejum, que é frequentemente a primeira a se descontrolar. 

O ajuste gradual de 2-3 UI a cada 2-3 dias até atingir a meta glicêmica é seguro e eficaz, reduzindo o risco de hipoglicemia.

Alternativa D

Trocar gliclazida por glibenclamida não oferece benefício adicional e pode até ser prejudicial. A glibenclamida tem maior risco de hipoglicemia comparada à gliclazida e menor flexibilidade posológica. 

Além disso, similar à alternativa B, esta abordagem apenas com medicamentos orais é inadequada para um paciente que já demonstrou falha terapêutica com HbA1c de 9,5%. 

O aumento da metformina para 3g/dia pode causar mais efeitos colaterais gastrointestinais sem necessariamente melhorar significativamente o controle glicêmico neste contexto.

Visão do aprovado

O tratamento inicial da DM2 no SUS começa com mudança de estilo de vida associada à metformina! Se a HBA1c permanece fora do alvo, adicionamos uma sulfonilureia (sugestão de gliclazida MR) e, se HBA1c fora do alvo, dapaglifozina se há critérios. 

Se mesmo assim o paciente se mantém fora do alvo, é o momento da insulinoterapia, como o caso do nosso paciente, que não preenche critérios para iniciar iSGLT2.

Quais são essas indicações?

Pacientes com DM2, em uso otimizado de metformina e sulfonilureia, nas seguintes situações:

  • Homens e mulheres com 40 anos ou mais, na presença de doença cardiovascular prévia (ver abaixo):

Infarto agudo do miocárdio, cirurgia de revascularização do miocárdio, angioplastia de coronárias, angina estável ou instável, acidente vascular cerebral isquêmico, ataque isquêmico transitório e insuficiência cardíaca com fração de ejeção abaixo de 40%.

  • Homens com 55 anos ou mais e mulheres com 60 anos ou mais com alto risco para doença cardiovascular e presença de ao menos um dos fatores de risco abaixo:

Hipertensão arterial sistêmica; Dislipidemia; Tabagismo.

2. PUC-PR – questão 72 (R1) – 2026

Mulher de 23 anos, portadora de diabetes mellitus tipo 1, é admitida no pronto-socorro com história de poliúria, polidipsia, náuseas, vômitos e dor abdominal nas últimas 24 horas.

Exame físico:

  • PA: 92/58 mmHg
  • FC: 124 bpm
  • FR: 32 irpm, padrão de Kussmaul
  • Temp: 37,4 °C
  • Sinais de desidratação importantes

Exames laboratoriais:

  • Glicemia: 482 mg/dL
  • pH arterial: 7,18
  • Bicarbonato: 11 mEq/L
  • Ânion gap: 22
  • Potássio sérico: 2,7 mEq/L
  • Sódio corrigido: 134 mEq/L
  • Creatinina: 1,3 mg/dL

Diante do quadro de cetoacidose diabética, qual deve ser a conduta inicial CORRETA?

A) Iniciar insulina regular em bomba de infusão imediatamente, independente do potássio, já que a glicemia está acima de 250 mg/dL.

B) Iniciar reposição volêmica seguida de insulina regular, sem necessidade de correção prévia do potássio, pois a acidose corrige o distúrbio eletrolítico.

C) Iniciar reposição de potássio endovenoso antes de administrar insulina, monitorizando eletrólitos e ritmo cardíaco.

D) Iniciar insulina regular EV concomitantemente à reposição de potássio, pois ambas medidas aceleram a correção metabólica.

E) Iniciar bicarbonato de sódio EV imediato, seguido de insulina regular, já que a acidose metabólica deve ser tratada prioritariamente.

Gabarito: C

Resolução – introdução

De saída, vale notar o potássio sérico de 2,7 mEq/L que muda completamente o caminho da resposta nesta questão sobre cetoacidose diabética. Este caso apresenta uma paciente jovem com diabetes tipo 1 em franca descompensação metabólica, com todos os critérios laboratoriais confirmando CAD: hiperglicemia (482 mg/dL), acidose (pH 7,18), bicarbonato baixo (11 mEq/L) e ânion gap elevado (22).

A cetoacidose diabética é uma emergência endocrinológica que requer tratamento imediato e protocolado. Porém, o grande diferencial nesta questão está no manejo adequado dos eletrólitos, especificamente o potássio, que se encontra em níveis perigosamente baixos.

O tratamento da CAD segue três pilares fundamentais: hidratação, reposição de potássio e insulinoterapia. A ordem desses passos não é arbitrária – existe uma lógica fisiopatológica crucial que pode significar a diferença entre sucesso terapêutico e complicações potencialmente fatais.

A resposta correta é a alternativa C, que preconiza a reposição de potássio antes da administração de insulina. 

Esta conduta está fundamentada no fato de que a insulina promove o deslocamento do potássio para o meio intracelular, podendo agravar perigosamente uma hipocalemia já existente.

Alternativa A

Incorreta. Iniciar insulina imediatamente sem considerar os níveis de potássio é uma conduta perigosa. 

Com potássio sérico de 2,7 mEq/L (abaixo de 3,3 mEq/L), a administração de insulina promoveria maior deslocamento do potássio para o interior das células, agravando a hipocalemia e podendo levar a arritmias cardíacas fatais. 

O protocolo estabelece claramente que, com K < 3,3 mEq/L, a insulina deve ser postergada até correção adequada do potássio.

Alternativa B

Incorreta. Embora a reposição volêmica seja importante na CAD, esta alternativa comete o mesmo erro da anterior ao ignorar a necessidade de correção prévia do potássio. 

A acidose não corrige o distúrbio eletrolítico – na verdade, durante o tratamento da CAD, a insulina tende a piorar a hipocalemia. A hidratação deve ser iniciada, mas a insulina precisa aguardar a correção do potássio.

Alternativa C

Correta. Esta é a conduta adequada segundo as diretrizes atuais. Com potássio de 2,7 mEq/L (< 3,3 mEq/L), deve-se repor potássio endovenoso antes da insulina. 

O protocolo recomenda adicionar 1 ampola de KCl 19,1% em cada litro de soro e reavaliar o potássio após uma hora. 

A monitorização do ritmo cardíaco é essencial, pois tanto a hipo quanto a hipercalemia podem causar arritmias graves.

Alternativa D

Incorreta. A administração concomitante de insulina e potássio não é segura quando o potássio inicial está muito baixo (< 3,3 mEq/L). 

A insulina terá efeito imediato no deslocamento do potássio intracelular, enquanto a reposição endovenosa demora para fazer efeito. Isso pode resultar em hipocalemia grave nos primeiros momentos do tratamento, justamente quando o paciente já está instável.

Alternativa E

Incorreta. O bicarbonato de sódio não está indicado neste caso. A reposição de bicarbonato só é considerada em acidose extremamente grave (pH < 6,9), e mesmo assim com muita cautela. 

Nesta paciente, com pH de 7,18, a acidose será corrigida naturalmente com a hidratação e a insulinoterapia adequada. O bicarbonato pode inclusive agravar a hipocalemia e causar alcalose paradoxal no líquor.

Visão do aprovado

Este tipo de questão é um clássico absoluto em provas de residência e testa diretamente seu conhecimento sobre os protocolos de emergência endocrinológica.

A pegadinha está justamente em fazer você pensar que deve “correr atrás” da hiperglicemia primeiro, quando na verdade o foco deve estar nos eletrólitos.

Estratégia de prova: Sempre que ver uma questão de CAD, procure imediatamente o valor do potássio. Se estiver < 3,3 mEq/L, a insulina espera. Se estiver entre 3,3-5,2 mEq/L, insulina + potássio. Se > 5,2 mEq/L, apenas insulina (sem potássio). Decore esses valores!

Armadilha comum: muitos candidatos escolhem a alternativa A ou B porque ficam focados na urgência de tratar a hiperglicemia. Lembre-se que hipocalemia mata mais rápido que hiperglicemia neste contexto.

Dica de ouro: na CAD, sempre lembre dos “três pilares” na ordem correta: 1) Hidratação 2) Eletrólitos (especialmente K) 3) Insulina. Nunca pule etapas!

Conexões importantes: este protocolo de potássio se aplica também ao estado hiperosmolar hiperglicêmico. Além disso, pacientes em uso de inibidores de SGLT2 podem desenvolver cetoacidose euglicêmica (sem hiperglicemia marcante), mas o manejo do potássio segue o mesmo protocolo.

Para aprofundar: estude as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre emergências hiperglicêmicas e os protocolos de reposição eletrolítica em UTI. O manejo da CAD é padronizado e salva vidas quando seguido corretamente. 

3. Unifesp – questão 56 (R1) – 2025

Homem, 66 anos de idade, é avaliado em consulta ambulatorial com queixa de prurido na glande, hiperemia local e aumento da produção de esmegma. Trata-se de paciente com antecedente de obesidade, dislipidemia, diabetes mellitus tipo 2, doença renal crônica, estágio 4 A2 filtração glomerular estimada de 28 mL/min/1,73m2 e relação albumina/creatinina em amostra isolada de urina de 200 mg/g (VR < 30 mg/g). 

Faz uso de metformina 850mg 3x/dia e dapagliflozina 10 mg/dia.

Qual é a conduta mais adequada neste momento em relação ao tratamento do diabetes?

A) A dapagliflozina deve ser suspensa devido à infecção urogenital.

B) A metformina deve ser substituída devido ao risco de acidose lática.

C) A metformina deve ser mantida para aumentar a atividade da enzima piruvato carboxilase.

D) A dapagliflozina deve ser suspensa devido ao risco de cetoacidose euglicêmica.

Gabarito: B


Resolução – Introdução

Nesta questão, sou apresentado a um homem de 66 anos com múltiplas comorbidades (obesidade, dislipidemia, diabetes mellitus tipo 2, doença renal crônica estágio 4), que está apresentando sinais de possível infecção genital (prurido, hiperemia, aumento de esmegma).  O paciente faz uso de metformina e dapagliflozina para controle do diabetes.

Este caso toca em um tema extremamente relevante para provas de residência: o ajuste de medicações antidiabéticas conforme a função renal. 

O cenário apresenta dois pontos críticos que precisam ser avaliados: a possível infecção genital (frequentemente associada ao uso de inibidores SGLT2) e a doença renal crônica avançada (TFG de 28 mL/min/1,73m²), que impõe restrições ao uso de certos antidiabéticos.

A chave para resolver esta questão está na análise criteriosa da função renal do paciente e nas contraindicações específicas de cada medicação em uso. Vamos aprofundar os conceitos médicos envolvidos e avaliar cada alternativa.

Alternativa A

Esta alternativa sugere suspender a dapagliflozina devido à infecção urogenital. De fato, os inibidores de SGLT2 aumentam o risco de infecções genitais, especialmente candidíase, devido ao aumento da excreção urinária de glicose. 

Os sintomas apresentados pelo paciente (prurido na glande, hiperemia local e aumento de esmegma) são compatíveis com balanite, uma complicação conhecida do uso de iSGLT2.

Embora seja uma preocupação válida, infecções genitais leves a moderadas geralmente não exigem a suspensão definitiva do medicamento. Podem ser tratadas com antifúngicos tópicos enquanto se mantém o inibidor SGLT2. Portanto, este não seria o motivo principal para suspender a dapagliflozina neste momento.

Alternativa B

Esta alternativa está correta. A metformina é contraindicada em pacientes com doença renal crônica avançada devido ao elevado risco de acidose lática, uma complicação rara, mas potencialmente fatal.

De acordo com as diretrizes atuais, a metformina deve ser suspensa quando a taxa de filtração glomerular cai abaixo de 30 mL/min/1,73m². O paciente apresenta TFG de 28 mL/min/1,73m², caracterizando DRC estágio 4, o que contraindica formalmente o uso de metformina. A acidose lática ocorre por acúmulo da medicação, uma vez que sua eliminação é predominantemente renal.

Além disso, o paciente está usando dose plena de metformina (850mg três vezes ao dia, totalizando 2.550mg/dia), o que aumenta ainda mais o risco. Portanto, a metformina deve ser substituída por outra classe de antidiabético com segurança em DRC avançada.

Alternativa C

Esta alternativa contém uma incorreção conceitual sobre o mecanismo de ação da metformina. A metformina não aumenta a atividade da enzima piruvato carboxilase; pelo contrário, ela inibe o complexo I da cadeia respiratória mitocondrial e reduz a produção hepática de glicose principalmente por diminuição da gliconeogênese.

A piruvato carboxilase é uma enzima que catalisa a conversão de piruvato em oxaloacetato, um passo essencial na gliconeogênese. A metformina, na verdade, reduz a atividade desta via metabólica.

Além disso, como discutido na alternativa B, independentemente de seu mecanismo de ação, a metformina está contraindicada neste paciente devido à função renal comprometida.

Alternativa D

Esta alternativa sugere suspender a dapagliflozina pelo risco de cetoacidose euglicêmica. De fato, os inibidores de SGLT2 podem predispor a cetoacidose euglicêmica, um quadro onde há cetoacidose sem hiperglicemia significativa.

Entretanto, no caso apresentado, não há menção de sintomas sugestivos de cetoacidose (náuseas, vômitos, dor abdominal, taquipneia). O principal problema com a dapagliflozina neste paciente seria sua eficácia reduzida e potencial contraindicação na DRC avançada.

Segundo as diretrizes atuais, a dapagliflozina tem uso limitado em pacientes com TFG < 30 mL/min/1,73m². 

Embora este seja um ponto relevante, a suspensão da metformina devido ao risco de acidose lática representa uma prioridade maior no manejo deste paciente.

Visão do aprovado

Questões sobre ajuste medicamentoso em pacientes com comorbidades são extremamente comuns em provas de residência médica. Neste caso, a banca explorou o conhecimento sobre segurança e contraindicações de antidiabéticos orais em pacientes com função renal comprometida.

Para se destacar nesse tipo de questão, é essencial memorizar os pontos de corte de TFG para os principais medicamentos:

  • Metformina: contraindicada em TFG < 30 mL/min/1,73m²
  • iSGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina): eficácia reduzida e uso limitado em TFG < 45 mL/min/1,73m² e geralmente contraindicados em TFG < 30 mL/min/1,73m²
  • Sulfoniluréias de meia-vida curta (gliclazida): podem ser usadas com cautela até TFG de 15 mL/min/1,73m²
  • iDPP4 (sitagliptina, linagliptina): linagliptina não requer ajuste em qualquer estágio de DRC

Uma armadilha comum neste tipo de questão é focar em complicações menos graves (como infecção genital) e ignorar os riscos potencialmente fatais (como acidose lática). A prova muitas vezes apresenta mais de um problema clínico, mas você deve priorizar aquele que representa maior risco à vida.

Vale lembrar também as novas recomendações para DM2 em pacientes com risco cardiovascular e DRC: os iSGLT2 e análogos de GLP-1 têm ganhado destaque pela proteção cardiovascular e renal, mas sempre respeitando as limitações de uso conforme a função renal.

No dia a dia clínico, para pacientes como este (DRC estágio 4), as opções terapêuticas incluiriam iDPP4, análogos de GLP-1 selecionados, insulina ou sulfoniluréias de meia-vida curta. A avaliação periódica da função renal é mandatória para ajustes terapêuticos oportunos.

Fique atento também às possíveis complicações dos iSGLT2 mencionadas nas questões anteriores: infecções genitais, cetoacidose euglicêmica e depleção volêmica. A identificação precoce destas complicações é essencial na prática clínica.

4. USP-SP – questão 79 (R1) – 2025

Mulher, 47 anos de idade, comparece à consulta ambulatorial de rotina. Ela refere que, há 6 semanas, esteve internada por colecistite calculosa aguda. Quando admitida no hospital, sentia apenas febre, calafrios e dor abdominal, mas uma glicemia capilar aleatória foi de 203 mg/dL. Durante a internação, teve complicações e precisou receber um concentrado de hemácias. 

Nesta consulta, nega quaisquer sintomas, o exame clínico é normal, exceto por estar hipocorada e apresenta exames realizados há 2 semanas: glicemia de jejum 133 mg/dL e hemoglobina glicada 5,4%.

Assinale a alternativa correta sobre o diagnóstico de diabetes melito nesta paciente.

A) Já se pode estabelecer o diagnóstico de diabetes.

B) Deve-se repetir a hemoglobina glicada neste momento.

C) Ela deve realizar um teste de tolerância oral à glicose.

D) Trata-se de hiperglicemia por estresse metabólico.

Gabarito: C

Resolução – introdução

Pessoal, a questão cobra conceitos relacionados ao diagnóstico do diabetes mellitus (DM) tipo 2, em uma paciente internada recentemente por colecistite aguda, com glicemia de jejum atual alterada e hemoglobina glicada (HbA1c) normal. 

O DM deve ser estabelecido pela identificação de hiperglicemia. Para isto, podem ser usados a glicemia plasmática de jejum (GJ), o teste de tolerância à glicose por via oral (TTGO) e a hemoglobina glicada (HbA1c).

A glicemia ao acaso, conforme coletada durante o período de internação,  apenas teria validade para o diagnóstico da endocrinopatia se, além de valores maiores ou iguais a 200 mg/dl, viesse acompanhada de sintomas de hiperglicemia, como poliúria, polidipsia, polifagia, e/ou perda de peso inexplicada. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) o diagnóstico de DM é estabelecido por meio de 2 testes diferentes positivos para hiperglicemia, obtidos de forma simultânea, ou para 1 teste alterado cuja alteração seja confirmada em um segundo momento. 

Os resultados considerados alterados e, portanto, indicativos de DM são: 

  • Glicemia de jejum maior ou igual a 126 mg/dl;
  • HbA1c maior ou igual a 6,5%;
  • Glicemia no TTGO-1h maior ou igual a 209 mg/dl;
  • Glicemia no TTGO- 2h maior ou igual a 200 mg/dl.

Vamos analisar as alternativas:

Alternativa A

Incorreta. Apesar da glicemia de jejum ser  maior que 126 mg/dL (critério diagnóstico para diabetes), há um cenário de estresse metabólico recente devido à internação e à complicação clínica. A hemoglobina glicada está abaixo do limite diagnóstico (maior ou igual a 6,5%). 

Para confirmar DM é necessário um segundo teste em condições ideais ou um diagnóstico em base de múltiplos testes com resultados positivos para hiperglicemia.

Alternativa B

Incorreta. Repetir a HbA1c em curto intervalo de tempo (2 semanas) não é útil, pois ela reflete a glicemia média dos últimos 2-3 meses. 

Além disso, ela não é o melhor exame para situações onde a hemoglobina pode ser influenciada por condições recentes (como transfusões de sangue, o que a paciente recebeu).

Alternativa C

Correta. O diagnóstico de diabetes não pode ser confirmado apenas com a glicemia de jejum elevada, especialmente em um contexto de estresse metabólico prévio.

O teste de tolerância oral à glicose (TOTG) é a melhor estratégia diagnóstica nesse caso, permitindo uma avaliação precisa da resposta glicêmica.

Alternativa D

Incorreta. Apesar de a hiperglicemia durante a internação poder estar relacionada ao estresse metabólico, a persistência de glicemia elevada após 6 semanas da alta hospitalar sugere que o diagnóstico de diabetes deve ser investigado.

Visão do aprovado

Apesar de abordar uma definição relativamente simples, a banca torna a questão mais complexa “enfeitando” o caso clínico com antecedentes pregressos que podem interferir na interpretação dos resultados de exames para hiperglicemia, como internação recente por condição infecciosa aguda e necessidade de transfusão de hemocomponentes.

Levar esses detalhes em consideração faz toda a diferença para termos segurança na hora de escolher a alternativa correta. 

5. Unifesp – questão 38 (R1) – 2024


Homem, 64 anos de idade, é avaliado por diabetes mellitus tipo 2. Antecedentes pessoais: HAS, insuficiência cardíaca.

Qual medicação é contraindicada neste caso?

A) Insulina NPH.

B) Glicazida.

C) Acarbose.

D) Pioglitazona.

Gabarito: D

Resolução – introdução

Pessoal, diabetes foi um tema quente nesse ano para a Unifesp! Mais uma questão em que devíamos conhecer os efeitos colaterais do tratamento para o DM2 com antidiabéticos orais.

A questão nos apresenta um paciente com insuficiência cardíaca e HAS e questiona qual tratamento é inadequado para seu diabetes.

Dentre as opções apresentadas, vemos a Pioglitazona, medicação da classe das glitazonas, que agem como agonistas de um receptor chamado PPAR-γ presentes em grande quantidade no tecido adiposo. 

Este receptor está envolvido na regulação da diferenciação dos adipócitos, além de captação e armazenamento de ácidos graxos e captação de glicose. A ativação do receptor PPAR-γ pela medicação resulta em aumento de lipogênese e da massa do tecido adiposo subcutâneo (ganho de peso). 

O mecanismo de redução da glicemia está no aumento dos receptores GLUT-1 e 4 na periferia, melhorando a sensibilidade à insulina.

Os principais efeitos colaterais são: retenção hídrica, que pode levar a edema periférico e anemia dilucional, com consequente ganho de peso; maior risco de fraturas, especialmente nas extremidades distais (antebraço, punho, pés, tornozelo, fíbula e tíbia), que são sítios atípicos para fraturas osteoporóticas. 

Sendo assim, para pacientes com IC NYHA III ou IV são contraindicadas, por possibilidade de descompensação da IC pela retenção hídrica.

Vamos então a cada uma das alternativas:

Alternativa A

Esta é uma medicação de uso comum no tratamento do diabetes mellitus e não apresenta contraindicações específicas para pacientes com HAS e insuficiência cardíaca. Portanto, essa alternativa está incorreta.

Alternativa B

Trata-se de um medicamento hipoglicemiante oral da classe das sulfonilureias. Assim como a insulina NPH, não tem contraindicações específicas para pacientes com HAS e insuficiência cardíaca. Logo, essa alternativa também está incorreta.

Alternativa C

Este medicamento é um inibidor da alfa-glucosidase, usado para tratar o diabetes tipo 2. Ele não é contraindicado para pacientes com HAS e insuficiência cardíaca. Então, essa alternativa está incorreta.

Alternativa D

Chegamos à alternativa correta. A pioglitazona é um medicamento da classe das tiazolidinedionas, que aumenta a sensibilidade à insulina. Ela é contraindicada em pacientes com insuficiência cardíaca, pois pode causar retenção de fluidos e agravar a condição. 

Portanto, essa é a alternativa correta.

Visão do aprovado

Pessoal alguns detalhes sobre a Glitazona devem ficar gravados: essa medicação melhora a sensibilidade à insulina, e tem o potencial de melhorar quadros de esteato-hepatite não alcoólica. 

Temos os efeitos adversos de retenção hídrica e risco de fraturas, devendo ser utilizadas com cuidado em pacientes com osteoporose e IC.


O que achou dessas questões? 

E aí, o que achou dessas questões? Em suma, o dia 14 de novembro ressalta a necessidade de estarmos atentos ao diagnóstico, à prevenção e à abordagem completa da diabetes, na saúde pública, na clínica e no ensino. 

Para você que está se preparando para a residência, trabalhar essas questões na prática, refletindo sobre o conteúdo por trás da prova, faz toda a diferença.

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Vamos juntos conquistar esse objetivo!

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Ana Virgínia Queiroz

Ana Virgínia Queiroz

Professora da Medway. Formada em Medicina pelo Centro Universitário UNIFACISA, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Israelita Albert Einstein.