A American Heart Association (AHA) e o American College of Cardiology (ACC) publicaram uma nova diretriz da AHA/ACC, marcando uma mudança estrutural na forma de classificar, estratificar e tratar o tromboembolismo pulmonar (TEP)
O tromboembolismo pulmonar (TEP) é uma emergência cardiovascular que mata silenciosamente. Tão grave quanto imprevisível, ele é responsável por cerca de 470.000 casos por ano nos EUA e figura entre as principais causas de morte cardiovascular no mundo.
Apesar da magnitude do problema, a medicina nunca havia tido um guideline específico da AHA e do ACC dedicado exclusivamente ao TEP agudo — até agora.
Em 19 de fevereiro de 2026, a American Heart Association (AHA) e o American College of Cardiology (ACC), em parceria com mais oito sociedades médicas, publicaram simultaneamente na Circulation e no JACC o primeiro guideline conjunto de TEP das duas entidades. E as mudanças são substanciais.
Se você está se preparando para provas de residência médica ou quer se atualizar clinicamente, este artigo foi feito para você. Vamos destrinchar o que mudou e o que essa diretriz significa na prática.
A American Heart Association (AHA) e o American College of Cardiology (ACC) são as duas maiores e mais influentes organizações de cardiologia do mundo. Quando publicam um guideline em conjunto, o documento rapidamente torna-se referência global, sendo adotado — ou ao menos considerado — pelas sociedades médicas de diversos países, inclusive o Brasil.
É importante contextualizar: esta é a primeira vez na história que AHA e ACC publicam um guideline dedicado exclusivamente ao TEP agudo.
Anteriormente, as principais referências eram os guidelines da European Society of Cardiology (ESC), publicados em 2014 e revisados em 2019. Com a chegada deste documento de 2026, a comunidade médica passa a contar com dois grandes referenciais para comparação e prática clínica.
O TEP ocorre quando um trombo — geralmente originado em veias profundas dos membros inferiores ou pelve — migra pela circulação venosa, atravessa o coração direito e se aloja nas artérias pulmonares.
O resultado é uma obstrução ao fluxo sanguíneo pulmonar que pode reduzir a oxigenação, sobrecarregar o ventrículo direito (VD) e, nos casos mais graves, levar ao choque e à parada cardiorrespiratória.
Entre os principais fatores de risco estão:
O espectro clínico do TEP é enorme: vai do paciente totalmente assintomático (descoberta incidental em exame de imagem) ao paciente em parada cardiorrespiratória. Essa variabilidade sempre foi um desafio para a classificação e o tratamento — e foi exatamente esse o grande foco da nova diretriz.
A principal inovação da diretriz de 2026 é a criação de um novo sistema de classificação chamado AHA/ACC Acute Pulmonary Embolism Clinical Categories, composto por cinco categorias (A a E) e subcategorias. Esse sistema substitui a antiga divisão simplificada entre TEP de alto, intermediário e baixo risco.
O que diferencia esse novo modelo é que ele integra gravidade clínica, biomarcadores, parâmetros hemodinâmicos, comprometimento respiratório e disfunção do ventrículo direito — indo muito além da simples análise da carga anatômica do trombo. O foco passa a ser o impacto fisiopatológico real da embolia no paciente.
Veja o resumo das categorias:
| Categoria | Perfil Clínico | Hemodinâmica | Biomarcadores/VD | Conduta |
| A | Assintomático | Estável | Normais | Alta da emergência sem internação |
| B | Sintomático, baixo escore de gravidade | Estável | Normais | Alta precoce com anticoagulação oral |
| C | Sintomático, escore elevado (PESI III-V ou sPESI ≥1) | Estável | Elevados e/ou disfunção de VD | Internação obrigatória; considerar PERT |
| D | Falência cardiopulmonar iminente | Comprometida | Alterados | Internação em UTI; considerar terapia avançada |
| E | Choque/parada cardiorrespiratória | Instável (hipotensão persistente) | Gravemente alterados | UTI urgente; trombolítico ou trombectomia |
Categorias A e B: pacientes assintomáticos (A) podem receber alta direto da emergência sem necessidade de internação. Pacientes sintomáticos com baixo escore de gravidade clínica (B) são candidatos à alta precoce com anticoagulação oral.
Categorias C, D e E: internação obrigatória. Quanto mais grave a categoria, maior a necessidade de monitorização intensiva e intervenção terapêutica avançada.
A diretriz reforça com clareza o que já vinha sendo tendência: os anticoagulantes orais diretos (DOACs — apixabana, rivaroxabana, dabigatrana e edoxabana) são recomendados como primeira linha para anticoagulação no TEP agudo, sempre que não houver contraindicação — e devem ser preferidos em relação aos antagonistas da vitamina K (AVK), como a varfarina.
As vantagens dos DOACs são amplamente conhecidas: farmacocinética previsível, sem necessidade de monitorização do INR, menor risco de sangramento intracraniano e perfil de interações medicamentosas mais favorável. Isso os torna especialmente adequados para o manejo ambulatorial das categorias A e B.
Outra atualização importante é a recomendação formal das Pulmonary Embolism Response Teams (PERTs) — equipes multidisciplinares criadas especificamente para o manejo do TEP.
Composta por cardiologistas, pneumologistas, cirurgiões vasculares, radiologistas intervencionistas e outros especialistas, a PERT permite uma tomada de decisão mais rápida e coordenada, especialmente nas categorias mais graves (C, D e E).
O guideline reconhece que o manejo do TEP é inerentemente multidisciplinar e que atravessa diferentes cenários — emergência, UTI e ambulatório. A estruturação de PERTs é apresentada como uma estratégia para otimizar o cuidado nesse contexto.
Para os pacientes mais graves, a diretriz oferece um mapa claro das opções terapêuticas avançadas:
Trombólise sistêmica e baseada em cateter, trombectomia mecânica (TM) e embolectomia cirúrgica
A trombectomia mecânica recebeu recomendação Classe 2a para TEP de alta gravidade (Categoria E1), Classe 2b para Categorias D1-D2 (falência iminente) e Classe 3 (não recomendada) para categorias de baixo risco (A a C1).
Importante: a TM pode ser preferida à trombólise sistêmica em pacientes das categorias D1 a E1 com alto risco de sangramento — embora a superioridade de eficácia ainda não esteja definitivamente comprovada.
A diretriz também padroniza o acompanhamento após o evento agudo, com um protocolo estruturado:
Esse acompanhamento rigoroso visa reduzir complicações tardias — especialmente a hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC), uma complicação grave e frequentemente subdiagnosticada do TEP.
O TEP é um tema extremamente recorrente nas provas de residência médica, especialmente para clínica médica, emergência e cardiologia. Com a publicação deste guideline da AHA/ACC inaugural em 2026, é esperado que as bancas examinadoras incorporem gradativamente as novas recomendações.
Fique atento: enquanto o Brasil aguarda a atualização das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), os guias internacionais servem como base para muitas questões. Dominar a nova lógica de classificação A-E é um diferencial importante.
A diretriz AHA/ACC 2026 marca um ponto de inflexão no manejo do TEP. Pela primeira vez, as duas maiores sociedades de cardiologia do mundo uniram forças para criar um documento dedicado exclusivamente à embolia pulmonar aguda — e o resultado é uma abordagem mais precisa, mais individualizada e mais baseada em evidências.
A classificação por Categorias A-E, a preferência pelos DOACs, a formalização das PERTs, e o protocolo estruturado de seguimento pós-alta são os pilares desta nova era no tratamento do TEP.
Para quem se prepara para residência médica, este é o momento de incorporar esse novo vocabulário e essa nova lógica de raciocínio clínico. E para quem já atua na emergência, este guideline é, como disse o Chair do comitê de redação, “um mapa para navegar os avanços mais recentes com segurança e eficácia”.
Nascido em 1993, em Maringá, se formou em Medicina pela UEM (Universidade Estadual de Maringá). Residência em Medicina de Emergência pelo Hospital Israelita Albert Einstein.