A nova diretriz da American Heart Association (AHA) e do American College of Cardiology (ACC) de 2026 marca uma mudança de paradigma no manejo de dislipidemia.
Substituindo o documento de 2018, o foco agora é a redução da exposição vitalícia a lipoproteínas aterogênicas, consolidando a premissa de que o tratamento deve ser iniciado o mais cedo possível para mitigar o risco acumulado.
Abaixo, detalhamos os pontos fundamentais e o que muda na prática clínica.
1. Nova calculadora de risco: PREVENT™
A mudança mais estrutural é a substituição das antigas Pooled Cohort Equations (PCE) pelas equações PREVENT™ (Predicting Risk of cardiovascular disease EVENTS) para adultos de 30 a 79 anos.
Precisão superior: As novas equações removem a raça como variável e incluem a função renal (TFGe), sendo consideradas mais precisas por utilizarem amostras contemporâneas.
Estimativa de 10 e 30 anos: Permite uma visão de longo prazo do risco cardiovascular.
Novas faixas de risco: Como o PREVENT tende a estimar riscos 40% a 50% menores que o PCE, os limiares foram ajustados:
Baixo: < 3%
Limítrofe: 3% a < 5%
Intermediário: 5% a < 10%
Alto: ≥ 10%
2. O retorno das Metas Absolutas de LDL-C
Diferente da versão de 2018, que focava na porcentagem de redução, a diretriz de 2026 restabelece metas terapêuticas claras e absolutas (em mg/dL), alinhando-se às diretrizes europeias.
As metas definidas são:
Risco intermediário: LDL-C < 100 mg/dL.
Alto risco: LDL-C < 70 mg/dL.
Muito alto risco / Prevenção Secundária: LDL-C < 55 mg/dL.
A diretriz introduz a recomendação formal de dosagem para novos marcadores:
Lipoproteína(a) – Lp(a): Recomendada ao menos uma vez na vida para todos os adultos como triagem universal (Classe 1).
Apolipoproteína B (ApoB): Indicada para guiar a intensificação do tratamento, sendo mais precisa que o LDL em pacientes com Diabetes Tipo 2, hipertrigliceridemia ou síndrome cardiometabólica.
PCR de alta sensibilidade (hsPCR): Níveis ≥ 2 mg/L podem ser usados como fator intensificador de risco para justificar terapias mais potentes.
4. Abordagem Precoce: “Earlier, Lower, and Longer”
O lema da nova diretriz reforça a necessidade de diagnosticar cedo e tratar por mais tempo.
Triagem na Infância: Recomenda-se uma dosagem basal de perfil lipídico em crianças entre 9 e 11 anos.
Adultos Jovens: Indivíduos com LDL-C persistentemente ≥ 160 mg/dL ou com forte história familiar de doença aterosclerótica prematura devem ser considerados candidatos ao tratamento farmacológico precoce.
5. Cálculo do LDL e Papel do Escore de Cálcio (CAC)
Abandono de Friedewald: Para estimar o LDL-C, prefere-se agora as equações de Martin/Hopkins ou Sampson/NIH, que oferecem maior acurácia em níveis baixos de LDL ou TG elevado.
Escore de Cálcio Coronariano (CAC): Ganha papel central na reclassificação do risco em caso de incerteza clínica. Um CAC = 0 pode permitir o adiamento da estatina, enquanto um CAC ≥ 100 (ou ≥ 300 em algumas classificações de alto risco) indica início imediato de tratamento.
6. Manejo da Hipertrigliceridemia e Terapias Não-Estatinas
Terapia Combinada Precoce: Medicações como ezetimiba, inibidores da PCSK9, ácido bempedoico e inclisiran devem ser utilizadas mais rapidamente se as metas não forem atingidas apenas com estatinas.
Hipertrigliceridemia: Casos acima de 500-1000 mg/dL exigem encaminhamento nutricional e consideração de novas terapias, como inibidores da ApoC3. O uso de suplementos alimentares para reduzir LDL ou TG não é recomendado (Classe 3).
7. Manejo de populações específicas
Diabetes (DM2): Início de estatina é mandatório (40-75 anos). Em pacientes com lesão de órgão-alvo ou longa duração, a meta é < 55 mg/dL.
Doença Renal Crônica (DRC): Meta de LDL < 55 mg/dL para estágios 3 e 4.
Mulheres: Pré-eclâmpsia e menopausa precoce são agora formalmente reconhecidos como modificadores de risco.
Idosos (>75 anos): Decisão individualizada. Se a expectativa de vida for < 1 ano, pode-se suspender a estatina.
O Guideline AHA/ACC 2026 reforça que não podemos mais esperar o evento cardiovascular acontecer para agir.
Com metas mais baixas e ferramentas de predição melhores, a missão do médico agora é garantir que o paciente tenha os níveis de LDL controlados pelo maior tempo possível ao longo da vida.
Professora da Medway. Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Residência em Clínica Médica (2019-2021) e Medicina Intensiva (2022-2025) pela Universidade de São Paulo (USP - SP). Siga no Instagram: @anakabittencourt