Conteúdo atualizado em: 24/03/2026
Quem está se preparando para a residência sabe que cardiologia é tema presente em praticamente toda prova, e dislipidemia costuma parecer um assunto tranquilo à primeira vista, mas carrega uma série de detalhes que mudam com certa frequência.
Em março de 2026, a American Heart Association (AHA) e o American College of Cardiology (ACC), ao lado de outras nove sociedades médicas, publicaram uma atualização robusta do guideline, aposentando oficialmente o documento de 2018.
A premissa central da nova diretriz é reduzir a exposição vitalícia às lipoproteínas aterogênicas, ou seja, tratar mais cedo e por mais tempo para evitar que o risco cardiovascular se acumule ao longo das décadas.
Abaixo, detalhamos os pontos fundamentais e o que muda na prática clínica.
As dislipidemias são alterações nos níveis de lipídeos e lipoproteínas sanguíneos, incluindo colesterol e triglicerídeos.
Vale notar que o guideline mudou até de nome: deixou de ser “Guideline on the Management of Blood Cholesterol” para se tornar “Guideline on the Management of Dyslipidemia”, refletindo o entendimento de que o risco cardiovascular aterosclerótico vai muito além do LDL isolado.
Entram na conta também as partículas remanescentes ricas em triglicerídeos e a lipoproteína(a).
Estima-se que 1 em cada 4 adultos nos EUA tenha LDL-C elevado, e a doença cardiovascular aterosclerótica (ASCVD) segue sendo a principal causa de morte no mundo.
A primeira grande mensagem é direta: trate a dislipidemia mais cedo para reduzir o risco ao longo da vida.
O aconselhamento sobre hábitos saudáveis deve começar na infância, e a farmacoterapia precoce deve ser considerada em jovens com hipercolesterolemia familiar, em adultos jovens com LDL-C ≥ 160 mg/dL ou com forte história familiar de ASCVD prematura.
É o famoso “lower for longer is better”, que os preventivistas vêm reforçando há anos.
Uma das mudanças mais importantes: as antigas Pooled Cohort Equations (PCE) foram aposentadas e deram lugar às equações PREVENT™ (Predicting Risk of cardiovascular disease EVENTs), validadas para adultos de 30 a 79 anos.
Por que a mudança?
Como as PREVENT tendem a dar estimativas menores, os limiares de risco também foram ajustados: baixo (< 3%), borderline (3% a < 5%), intermediário (5% a < 10%) e alto (≥ 10%).
Para aplicar na prática, o guideline propõe o modelo “CPR”:

Detalhe importante que pode aparecer em prova: o guideline recomenda abandonar a clássica equação de Friedewald e adotar as equações de Martin/Hopkins ou Sampson/NIH. Elas são mais acuradas, principalmente em pacientes com LDL < 70 mg/dL ou triglicerídeos elevados, que são justamente as situações em que a Friedewald mais falha.
Quem estudou pelo guideline anterior deve lembrar que em 2018 o foco era muito mais na intensidade da estatina do que em metas numéricas. Pois bem: em 2026, as metas absolutas de LDL-C e não-HDL-C estão de volta. A redução percentual continua importante, mas agora o valor absoluto atingido também é prioridade.
Os principais alvos:

Vale a pena memorizar essa tabela com cuidado, porque ela resume boa parte da conduta e tem tudo para virar questão.
Duas recomendações novas merecem atenção especial:
Deve ser medida pelo menos uma vez na vida em todos os adultos. Trata-se de um fator de risco genético que não responde a mudanças de estilo de vida e que historicamente é pouco solicitado na prática. Níveis ≥ 50 mg/dL (125 nmol/L) aumentam cerca de 1,4 vezes o risco de ASCVD, enquanto valores ≥ 100 mg/dL (250 nmol/L) dobram esse risco.
Quando alterada, a Lp(a) reforça a indicação de reduzir o LDL de forma mais agressiva.
Útil para refinar a avaliação em pacientes que atingiram metas de LDL, mas ainda têm triglicerídeos > 200 mg/dL, diabetes, síndrome metabólica ou LDL basal < 70 mg/dL.
O CAC segue validado para homens ≥ 40 anos e mulheres ≥ 45 anos:
Uma novidade interessante: se a calcificação coronária aparecer como achado incidental em tomografias não-cardíacas (em um rastreio de câncer de pulmão, por exemplo), esse achado já deve ser considerado para iniciar ou intensificar a terapia lipo-redutora. Vale manter atenção redobrada nesses laudos.
As estatinas seguem como base do tratamento, mas a diretriz reforça a terapia combinada para atingir metas mais rigorosas. Cinco novos agentes aprovados pela FDA entraram no cenário, e a hierarquia ficou assim:
Para triglicerídeos entre 150 e 499 mg/dL, o foco continua sendo estilo de vida e estatina. O icosapent etil é recomendado em pacientes ≥ 50 anos com ASCVD ou diabetes com fatores de risco adicionais que mantêm TG elevado apesar da estatina.
Para prevenção de pancreatite em TG ≥ 1000 mg/dL, fibratos e ômega-3 seguem indicados, e o olezarsen entrou como nova opção para a síndrome de quilomicronemia familiar.
Um cenário comum na prática clínica é o paciente relatar que “não consegue tomar estatina porque dói tudo”. O guideline reforça que muitos desses sintomas são subjetivos e podem estar relacionados ao efeito “drucebo”, ou seja, a expectativa negativa gerando o sintoma.
Antes de suspender a medicação definitivamente, a recomendação é excluir causas secundárias (hipotireoidismo, exercício vigoroso recente, interações medicamentosas), testar doses menores e tentar regimes alternativos, como dias alternados com estatinas de meia-vida longa.
O guideline AHA/ACC 2026 representa uma virada de chave no manejo da dislipidemia: começar mais cedo, avaliar risco com ferramentas mais modernas (PREVENT), personalizar decisões com uso de CAC, Lp(a) e ApoB, e retomar as metas absolutas de LDL e não-HDL. Tudo isso somado a um arsenal terapêutico bem ampliado.
Para a prova, vale guardar com atenção:
Agora é revisar e partir para as questões. Bons estudos!
Formada em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Atualmente é residente em dermatologia pela Unicamp
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