Conteúdo atualizado em: 19/05/2026 – A colecistite aguda é uma das causas mais frequentes de dor abdominal no quadrante superior direito (QSD) em unidades de emergência. Representa a inflamação da vesícula biliar, geralmente secundária à obstrução persistente do ducto cístico por um cálculo.
O reconhecimento rápido e a classificação de gravidade são vitais, pois a evolução para gangrena, perfuração ou sepse biliar pode ocorrer rapidamente, especialmente em populações vulneráveis.
Neste artigo, consolidamos o protocolo de atendimento baseado nas Tokyo Guidelines 2018 (TG18) e na World Society of Emergency Surgery (WSES), oferecendo uma referência segura para o seu estudo e prática clínica.
Diferente da cólica biliar simples — que é uma dor transitória por obstrução temporária —, a colecistite aguda é um processo inflamatório estabelecido.
O evento inicial costuma ser a impactação de um cálculo no ducto cístico ou no infundíbulo da vesícula. Isso gera um aumento da pressão intraluminal, resultando em isquemia da mucosa, liberação de mediadores inflamatórios e, em cerca de 50% a 85% dos casos, colonização bacteriana secundária (principalmente por E. coli, Klebsiella e Enterococcus).
Para a prova e para o plantão, o diagnóstico de colecistite aguda não é apenas “achismo”. Ele segue a tríade de Tokyo:
| Item | Critério | Descrição |
| A | Sinais Locais de Inflamação | Sinal de Murphy positivo ou massa/dor/defesa no Hipocôndrio Direito. |
| B | Sinais Sistêmicos de Inflamação | Febre, Leucocitose ou Elevação de Proteína C-Reativa (PCR). |
| C | Achados de Imagem | Achados característicos na Ultrassonografia ou Tomografia. |
Este é o ponto mais importante para decidir a conduta cirúrgica. As TG18 dividem a colecistite em três graus:
Associada a disfunção orgânica em qualquer um dos seguintes sistemas:
Sem disfunção orgânica, mas com qualquer uma destas condições:
Não preenche os critérios dos Graus II ou III. Paciente hígido, sem disfunção orgânica e com inflamação local mínima.
É o exame inicial de escolha devido à sua alta sensibilidade e disponibilidade. Os achados que confirmam a colecistite são:
Útil para avaliar complicações (perfuração, colecistite enfisematosa) ou quando a USG é inconclusiva. A cintilografia hepatobiliar (HIDA) é o exame mais sensível, porém raramente disponível na urgência.
O tratamento começa imediatamente após a suspeita clínica:
A Colecistectomia Laparoscópica Precoce (CLP) é o tratamento padrão-ouro.
Reservada para pacientes Grau III ou Grau II com alto risco cirúrgico (ASA IV ou V) que não toleram a anestesia geral. É uma medida de exceção para controle de foco até que o paciente apresente condições cirúrgicas.
O atraso no diagnóstico aumenta o risco de síndrome de Mirizzi (compressão do ducto hepático comum por cálculo no cístico) e de fístulas colecistoentéricas (que podem levar ao íleo biliar).
A colecistite aguda exige um raciocínio rápido e fundamentado. O cirurgião deve ser capaz de identificar o paciente grave (Grau III) para suporte intensivo e o paciente com inflamação local importante (Grau II) para planejar uma cirurgia potencialmente difícil.
Seguir as diretrizes de Tokyo 2018 e da WSES 2020 não apenas garante o sucesso terapêutico, mas constrói a autoridade necessária para a sua formação médica.
YOKOE, M. et al. Tokyo Guidelines 2018: diagnostic criteria and severity grading of acute cholecystitis (with videos). Journal of Hepato-Biliary-Pancreatic Sciences, [s. l.], v. 25, n. 1, p. 41-54, 2018. DOI: https://doi.org/10.1002/jhbp.515.
PISANO, M. et al. 2020 World Society of Emergency Surgery updated guidelines for the diagnosis and treatment of acute calculus cholecystitis. World Journal of Emergency Surgery, [s. l.], v. 15, n. 61, 2020. DOI: https://doi.org/10.1186/s13017-020-00336-x.
COLÉGIO BRASILEIRO DE CIRURGIÕES. Manual de Condutas em Cirurgia Geral. Rio de Janeiro: CBC, 2022.
GOMI, H. et al. Tokyo Guidelines 2018: antimicrobial therapy for acute cholangitis and cholecystitis. Journal of Hepato-Biliary-Pancreatic Sciences, [s. l.], v. 25, n. 1, p. 3-16, 2018.
Formado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Atualmente, residente em Cirurgia pela mesma instituição.