O tratamento da endocardite infecciosa: saiba mais!

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Conteúdo atualizado em: 19/05/2026 – A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio, geralmente envolvendo válvulas cardíacas nativas ou protéticas, com alta morbimortalidade e risco de complicações como insuficiência cardíaca, embolização sistêmica, abscessos perivalvares e sepse. 

O tratamento da endocardite infecciosa exige diagnóstico rápido, coleta adequada de hemoculturas, início criterioso de antimicrobianos e avaliação precoce de necessidade cirúrgica. 

Na prática, o tratamento não pode ser resumido a esquemas fixos por cenário clínico amplo, porque a escolha antimicrobiana depende de:

  • válvula nativa ou protética
  • tempo de prótese
  • apresentação aguda ou subaguda
  • agente etiológico
  • sensibilidade microbiológica
  • presença de complicações
  • função renal
  • risco de toxicidade medicamentosa

Definição de endocardite infecciosa

A endocardite infecciosa é a infecção de estruturas endocárdicas, especialmente válvulas, causada por bactérias ou fungos. 

Os principais agentes em adultos incluem:

  • Staphylococcus aureus
  • Streptococos do grupo viridans
  • Enterococcus faecalis
  • Stafilococos coagulase-negativos, sobretudo em próteses valvares 

O tratamento adequado depende da confirmação diagnóstica pelo conjunto de:

  • hemoculturas
  • ecocardiografia
  • critérios clínicos e microbiológicos
  • avaliação de complicações embólicas, infecciosas e hemodinâmicas 

Fisiopatologia da endocardite infecciosa

A fisiopatologia da endocardite infecciosa envolve lesão endotelial, deposição de fibrina e plaquetas e posterior colonização por microrganismos circulantes. Isso leva à formação de vegetações, que funcionam como foco infeccioso persistente e reservatório para embolização e destruição tecidual. 

Essa base fisiopatológica explica por que o tratamento exige:

  • antibióticos bactericidas em altas doses
  • terapia prolongada por via intravenosa
  • controle de foco
  • cirurgia em casos selecionados com falha clínica, destruição valvar ou risco embólico elevado 

Etiologia da endocardite infecciosa

Os principais agentes etiológicos variam conforme o contexto:

  • Staphylococcus aureus em formas agudas e associadas a cuidados de saúde
  • estreptococos orais em apresentações subagudas
  • Enterococcus spp. em idosos e manipulação geniturinária ou gastrointestinal
  • estafilococos coagulase-negativos em próteses
  • fungos em imunossuprimidos, dispositivos intracardíacos e infecções persistentes 

A suspeita etiológica orienta a terapia empírica inicial, mas o tratamento definitivo deve sempre ser ajustado conforme hemoculturas e antibiograma. 

Quadro clínico para endocardite infecciosa

A apresentação clínica da endocardite infecciosa é variável. Os achados mais frequentes incluem:

  • febre
  • sopro cardíaco
  • calafrios
  • perda de peso
  • fenômenos embólicos
  • manifestações imunológicas
  • insuficiência cardíaca
  • sepse em apresentações graves

Sinais de gravidade que mudam a conduta incluem:

Diagnóstico para endocardite infecciosa

Antes de iniciar antibiótico, sempre que o quadro permitir, devem ser coletados três pares de hemoculturas de punções venosas diferentes, idealmente antes da primeira dose de antimicrobiano. Essa etapa é crítica porque a identificação microbiológica orienta o tratamento e evita esquemas inadequados ou excessivamente tóxicos.

Os critérios de Duke de 2023 são utilizados para guiar o diagnóstico baseado em critérios maiores (microbiológicos, de imagem e cirúrgicos)  e menores (clínicos e microbiológicos)  e para classificar a endocardite em definida,provável e rejeitada.

Imagem:

O ecocardiograma transtorácico é frequentemente a avaliação inicial, mas o ecocardiograma transesofágico tem maior sensibilidade, especialmente em:

  • próteses valvares
  • abscessos
  • dispositivos intracardíacos
  • alta suspeita com ecocardiograma transtorácico inconclusivo 

Os critérios de Duke vigentes de 2023 trazem outras modalidades de imagem adicionais como PET-CT e TC cardiaca.

Tratamento

O tratamento da endocardite infecciosa tem dois eixos principais:

  • terapia antimicrobiana intravenosa prolongada
  • avaliação cirúrgica precoce nos casos complicados 

A duração costuma variar entre 2 e 6 semanas, dependendo de:

  • patógeno
  • válvula nativa ou protética
  • sensibilidade antimicrobiana
  • resposta clínica
  • presença de abscesso ou outras complicações (escardio.org)

Quando iniciar terapia empírica?

A terapia empírica deve ser iniciada logo após hemoculturas em pacientes com forte suspeita clínica e maior gravidade, como:

  • sepse
  • instabilidade hemodinâmica
  • insuficiência cardíaca aguda
  • prótese valvar com quadro infeccioso compatível
  • embolização com vegetação evidente

Em pacientes estáveis, sem quadro fulminante, pode haver espaço para aguardar coleta diagnóstica completa antes do início da antibioticoterapia. 

Em muitos centros, para válvula nativa e prótese valvar tardia (>12 meses), a cobertura empírica costuma incluir agente ativo contra estafilococos, estreptococos e enterococos, frequentemente com ampicilina mais ceftriaxona ou flucloxacilina/oxacilina mais ampicilina, dependendo do cenário e da região. Em alergia beta-lactâmica ou alta prevalência de resistência, vancomicina entra como alternativa. 

Já em prótese valvar precoce, a cobertura precisa contemplar estafilococos resistentes, enterococos e gram-negativos em determinados contextos. A antiga tríade com vancomicina, gentamicina e rifampicina não deve ser reproduzida automaticamente sem individualização, porque houve revisão crítica do benefício e da toxicidade, especialmente da rifampicina e dos aminoglicosídeos.

Tratamento antimicrobiano dirigido

O tratamento definitivo deve ser guiado por cultura e antibiograma. Exemplos de cenários frequentes:

Estreptococos sensíveis à penicilina

  • penicilina G ou ceftriaxona
  • cursos mais curtos podem ser possíveis em casos selecionados
  • gentamicina não é obrigatória em todos os casos 

Staphylococcus aureus sensível à meticilina

  • oxacilina ou cloxacilina
  • sem uso rotineiro de gentamicina em válvula nativa 

Staphylococcus aureus resistente à meticilina

  • vancomicina ou daptomicina em contextos apropriados 

Enterococcus faecalis

  • esquemas como ampicilina mais ceftriaxona ganharam destaque por reduzir nefrotoxicidade quando comparados a ampicilina mais gentamicina em muitos pacientes. 

Endocardite fúngica

  • antifúngico sistêmico e avaliação cirúrgica quase sempre necessária
  • Candida costuma exigir equinocandina ou anfotericina lipossomal, conforme espécie e sensibilidade 

Hemoculturas finais negativas: um desafio

Representa até 10-20% dos casos. A AHA publicou em 2025 um Scientific Statement específico sobre o tema, recomendando: 

  • Investigação para agentes fastidiosos: Coxiella burnetii, Bartonella spp., Tropheryma whipplei, grupo HACEK
  • Sorologias específicas, PCR e sequenciamento metagenômico
  • PET-CT e TC cardíaca quando ecocardiograma é inconclusivo

Papel da cirurgia

A cirurgia na endocardite infecciosa deve ser considerada precocemente quando há:

  • insuficiência cardíaca por disfunção valvar aguda
  • infecção não controlada
  • abscesso, fístula ou complicação perivalvar
  • bacteremia persistente apesar de antibiótico adequado
  • vegetações grandes com embolização ou alto risco embólico
  • endocardite fúngica
  • deiscência de prótese valvar 

A diretriz ESC 2023 define o timing cirúrgico em três categorias: 

  • Emergência (dentro de 24h): Choque cardiogênico refratário, edema pulmonar refratário
  • Urgência (dentro de 3-5 dias): IC não controlada, infecção não controlada (abscesso, fístula, bacteremia persistente), vegetações >10 mm após embolização
  • Não urgente (mesma internação): Vegetações grandes isoladas, EI fúngica, EI protética precoce por estafilococos

AVC e cirurgia: A diretriz ESC 2023 estabelece que AVC isquêmico embólico não deve atrasar a cirurgia quando há indicação. Em AVC hemorrágico, a cirurgia pode ser adiada por até 4 semanas conforme condição clínica.

Monitorização durante o tratamento

Durante a internação, é essencial acompanhar:

  • hemoculturas de controle até negativação
  • função renal
  • função hepática
  • sinais de embolização
  • insuficiência cardíaca
  • toxicidade de antimicrobianos
  • necessidade de novo ecocardiograma diante de piora clínica 

Repetir o ecocardiograma é indicado quando surgem:

  • novo sopro
  • piora da insuficiência cardíaca
  • bloqueio atrioventricular
  • suspeita de abscesso
  • embolização recorrente
  • febre persistente 

Prognóstico

A endocardite infecciosa permanece uma das infecções cardiovasculares mais graves, com mortalidade hospitalar ainda relevante mesmo com tratamento moderno. 

O prognóstico piora com:

  • idade avançada
  • sepse
  • Staphylococcus aureus
  • prótese valvar
  • insuficiência cardíaca
  • acidente vascular cerebral
  • abscesso perivalvar
  • atraso terapêutico 

A melhora do prognóstico depende de reconhecimento precoce, terapia antimicrobiana adequada, abordagem multidisciplinar e discussão em equipe especializada, conceito reforçado pelas diretrizes como Endocarditis Team.

Pontos-chave para prova

  • Endocardite infecciosa exige coleta de 3 pares de hemoculturas antes do antibiótico, sempre que possível. (escardio.org)
  • A terapia empírica depende do tipo de válvula, apresentação clínica e epidemiologia local. 
  • O uso rotineiro de gentamicina caiu em vários cenários por toxicidade e benefício limitado. 
  • Em Enterococcus faecalis, ampicilina mais ceftriaxona é esquema importante e muito cobrado.
  • As 3 grandes indicações cirúrgicas são insuficiência cardíaca, infecção não controlada e prevenção de embolização.
  • Ecocardiograma deve ser repetido se houver suspeita de nova complicação. 
  • Endocardite fúngica geralmente exige antifúngico e cirurgia. 

Conclusão

O tratamento da endocardite infecciosa exige raciocínio microbiológico, cardiológico e cirúrgico simultâneo. Mais do que decorar esquemas fixos, o fundamental é entender que antibiótico empírico deve ser criterioso, terapia definitiva precisa ser guiada por hemoculturas e a avaliação cirúrgica não deve ser tardia quando surgem sinais de insuficiência cardíaca, abscesso ou embolização. 

Para estudo, prova e prática, a mensagem mais importante é objetiva: a endocardite infecciosa não é tratada apenas com antibiótico. Ela deve ser conduzida por equipe experiente, com reavaliação contínua e integração entre infectologia, cardiologia, cirurgia cardíaca e imagem. 

Referências

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Micael Hamra

Micael Hamra

Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway