Conteúdo atualizado em: 19/05/2026 – A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio, geralmente envolvendo válvulas cardíacas nativas ou protéticas, com alta morbimortalidade e risco de complicações como insuficiência cardíaca, embolização sistêmica, abscessos perivalvares e sepse.
O tratamento da endocardite infecciosa exige diagnóstico rápido, coleta adequada de hemoculturas, início criterioso de antimicrobianos e avaliação precoce de necessidade cirúrgica.
Na prática, o tratamento não pode ser resumido a esquemas fixos por cenário clínico amplo, porque a escolha antimicrobiana depende de:
A endocardite infecciosa é a infecção de estruturas endocárdicas, especialmente válvulas, causada por bactérias ou fungos.
Os principais agentes em adultos incluem:
O tratamento adequado depende da confirmação diagnóstica pelo conjunto de:
A fisiopatologia da endocardite infecciosa envolve lesão endotelial, deposição de fibrina e plaquetas e posterior colonização por microrganismos circulantes. Isso leva à formação de vegetações, que funcionam como foco infeccioso persistente e reservatório para embolização e destruição tecidual.
Essa base fisiopatológica explica por que o tratamento exige:
Os principais agentes etiológicos variam conforme o contexto:
A suspeita etiológica orienta a terapia empírica inicial, mas o tratamento definitivo deve sempre ser ajustado conforme hemoculturas e antibiograma.
A apresentação clínica da endocardite infecciosa é variável. Os achados mais frequentes incluem:
Sinais de gravidade que mudam a conduta incluem:
Antes de iniciar antibiótico, sempre que o quadro permitir, devem ser coletados três pares de hemoculturas de punções venosas diferentes, idealmente antes da primeira dose de antimicrobiano. Essa etapa é crítica porque a identificação microbiológica orienta o tratamento e evita esquemas inadequados ou excessivamente tóxicos.
Os critérios de Duke de 2023 são utilizados para guiar o diagnóstico baseado em critérios maiores (microbiológicos, de imagem e cirúrgicos) e menores (clínicos e microbiológicos) e para classificar a endocardite em definida,provável e rejeitada.
O ecocardiograma transtorácico é frequentemente a avaliação inicial, mas o ecocardiograma transesofágico tem maior sensibilidade, especialmente em:
Os critérios de Duke vigentes de 2023 trazem outras modalidades de imagem adicionais como PET-CT e TC cardiaca.
O tratamento da endocardite infecciosa tem dois eixos principais:
A duração costuma variar entre 2 e 6 semanas, dependendo de:
A terapia empírica deve ser iniciada logo após hemoculturas em pacientes com forte suspeita clínica e maior gravidade, como:
Em pacientes estáveis, sem quadro fulminante, pode haver espaço para aguardar coleta diagnóstica completa antes do início da antibioticoterapia.
Em muitos centros, para válvula nativa e prótese valvar tardia (>12 meses), a cobertura empírica costuma incluir agente ativo contra estafilococos, estreptococos e enterococos, frequentemente com ampicilina mais ceftriaxona ou flucloxacilina/oxacilina mais ampicilina, dependendo do cenário e da região. Em alergia beta-lactâmica ou alta prevalência de resistência, vancomicina entra como alternativa.
Já em prótese valvar precoce, a cobertura precisa contemplar estafilococos resistentes, enterococos e gram-negativos em determinados contextos. A antiga tríade com vancomicina, gentamicina e rifampicina não deve ser reproduzida automaticamente sem individualização, porque houve revisão crítica do benefício e da toxicidade, especialmente da rifampicina e dos aminoglicosídeos.
O tratamento definitivo deve ser guiado por cultura e antibiograma. Exemplos de cenários frequentes:
Representa até 10-20% dos casos. A AHA publicou em 2025 um Scientific Statement específico sobre o tema, recomendando:
A cirurgia na endocardite infecciosa deve ser considerada precocemente quando há:
A diretriz ESC 2023 define o timing cirúrgico em três categorias:
AVC e cirurgia: A diretriz ESC 2023 estabelece que AVC isquêmico embólico não deve atrasar a cirurgia quando há indicação. Em AVC hemorrágico, a cirurgia pode ser adiada por até 4 semanas conforme condição clínica.
Durante a internação, é essencial acompanhar:
Repetir o ecocardiograma é indicado quando surgem:
A endocardite infecciosa permanece uma das infecções cardiovasculares mais graves, com mortalidade hospitalar ainda relevante mesmo com tratamento moderno.
O prognóstico piora com:
A melhora do prognóstico depende de reconhecimento precoce, terapia antimicrobiana adequada, abordagem multidisciplinar e discussão em equipe especializada, conceito reforçado pelas diretrizes como Endocarditis Team.
O tratamento da endocardite infecciosa exige raciocínio microbiológico, cardiológico e cirúrgico simultâneo. Mais do que decorar esquemas fixos, o fundamental é entender que antibiótico empírico deve ser criterioso, terapia definitiva precisa ser guiada por hemoculturas e a avaliação cirúrgica não deve ser tardia quando surgem sinais de insuficiência cardíaca, abscesso ou embolização.
Para estudo, prova e prática, a mensagem mais importante é objetiva: a endocardite infecciosa não é tratada apenas com antibiótico. Ela deve ser conduzida por equipe experiente, com reavaliação contínua e integração entre infectologia, cardiologia, cirurgia cardíaca e imagem.
Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway