Quem são os estudantes de Medicina no Brasil? Um retrato atualizado

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Os dados da Demografia Médica 2025 revelam quem são, de fato, os estudantes de Medicina no Brasil: sua distribuição de gênero, raça, origem escolar, faixa etária e condições socioeconômicas. Esses perfis mostram como políticas de inclusão e o avanço dos cursos — principalmente fora dos grandes centros — têm reconfigurado a formação médica no país.

Ao analisar esses indicadores, percebemos o crescimento expressivo do número de discentes e a mudança de perfis que, até há pouco, eram bastante homogêneos.

Tais informações são relevantes para nortear decisões de gestores universitários, legisladores e entidades de saúde, pois permitem projetar programas de permanência, bolsas, expansão de vagas e subsídios regionais, alinhando oferta formativa às reais necessidades demográficas e epidemiológicas do Brasil. Continue conosco e fique por dentro!

Quantos estudantes de Medicina existem no Brasil atualmente?

Em 2025, o Brasil contabiliza 397.527 estudantes matriculados em cursos de graduação em Medicina, distribuídos entre 412 instituições públicas e privadas.

Esse número representa um aumento de 35% em relação a 2015, quando havia cerca de 294.500 alunos, reflexo direto da abertura de 341 novos cursos na última década.

A concentração regional desse corpo discente segue o padrão de distribuição das vagas: o Sudeste abriga cerca de 52% dos estudantes (207.000), seguido pelo Nordeste com 18% (71.500), Sul com 15% (59.600), Centro-Oeste com 8% (31.800) e Norte com 7% (28.627).

Essa distribuição revela o dinamismo econômico das regiões e a política de interiorização das vagas, que deslocou quase metade dos novos polos de ensino médico para municípios fora das capitais.

Confira mais destaques sobre a Demografia Médica de 2025

Predomínio feminino

As mulheres já somam 61,8% (245.650) do total de estudantes de Medicina no país. Na rede privada esse índice atinge 65,2%, enquanto nas federais e estaduais gira em torno de 50,3%, equilíbrio quase perfeito entre os gêneros.

Nos primeiros anos do curso, a proporção feminina ultrapassa 63%, caindo levemente para 59% nos últimos dois semestres, possivelmente em razão de desistências e mudanças de foco profissional.

A ascensão da participação feminina decorre de vários fatores: maior incentivo ao ingresso por mérito em avaliações como o ENEM, políticas de bolsas que beneficiam jovens mulheres economicamente vulneráveis e a consolidação de carreiras médicas que conciliam vida pessoal e profissional.

Idade dos estudantes de Medicina

A maioria dos estudantes de Medicina são calouros (72,4%) e têm entre 18 e 24 anos, evidenciando a preferência de quem ingressa logo após o ensino médio.

Em seguida, 20,1% estão entre 25 e 29 anos, e 7,5% têm 30 anos ou mais. A média geral de idade é de 22,7 anos, porém há variações:

  • nas instituições privadas, a média cai para 22,2 anos, fruto de processos seletivos diretos e maior atração de “candidatos de primeira viagem”;
  • nas universidades públicas, a média sobe para 23,6 anos, reflexo de vestibulares mais concorridos e da presença de estudantes em transição de carreira ou em segunda formação.

Esse cenário indica também um crescimento de alunos com perfil “não tradicional” — profissionais de outras áreas, militares da reserva e professores que buscam na Medicina uma nova trajetória profissional.

Perfil racial dos estudantes de Medicina

O corpo discente de Medicina ainda é majoritariamente branco (56,3%), mas já há um grupo relevante de pardos (26,7%) e negros (10,4%). Amarelos e indígenas correspondem a 5,2% e 1,4%, respectivamente.

Entre 2019 e 2025, a proporção de autodeclarados pretos e pardos cresceu 3,2 pontos percentuais, graças à adoção de cotas raciais em 78% das federais e em 54% das estaduais.

Regiões com maior diversidade registram percentuais superiores: no Nordeste, pretos e pardos somam 45% dos matriculados, enquanto no Sul essa cifra é de 32%.

Essa mudança de perfil racial tem decisiva influência na cultura acadêmica e na sensibilidade dos futuros médicos para enfrentar problemas de saúde de populações historicamente vulneráveis.

Origem escolar

O ingresso a partir de escolas privadas, até o presente momento, tem dominado o cenário: 68,5% dos matriculados vêm de colégios pagos, e apenas 31,5% de redes públicas.

Nas federais, entretanto, 55% dos ingressantes são egressos de escolas públicas, resultado de cotas sociais e de programas de ação afirmativa.

Já nas particulares, esse índice despenca para 18%, sinalizando a concentração de acesso em camadas de renda mais alta.

Por região, o Sul apresenta o menor percentual de egressos da rede pública (28%), enquanto o Centro-Oeste atinge 38%, fruto de políticas estaduais de inclusão.

O fato de 91% das vagas serem preenchidas via ENEM reforça a importância desse exame como instrumento de abertura de oportunidades, mas também aponta para a necessidade de fortalecer a base do ensino médio público em todo o país.

Perfil socioeconômico dos estudantes de Medicina e acesso a apoio financeiro

Do total de alunos, 72,8% pertencem às classes A e B, 18,6% à classe C e apenas 8,6% às classes D/E. A mensalidade média na rede privada gira em torno de R$ 8.950, 00, o que torna a Medicina um curso de elevado custo de oportunidade. Para atenuar esse obstáculo, 42% dos estudantes utilizam financiamento estudantil (FIES, ProUni, bolsas integrais ou parciais).

No setor público, 15% dos alunos contam com auxílios de permanência para deslocamento e moradia, enquanto no privado 55% negociam descontos institucionais por mérito ou necessidade.

Programas de mentoria, estágio remunerado em clínicas-escola e acordos com prefeituras para residência profissional têm se mostrado estratégias eficazes para garantir a continuidade dos estudos entre aqueles que apresentam condições financeiras menos vantajosas.

Expansão e interiorização dos cursos de Medicina no Brasil

Entre 2000 e 2025, o número de cursos de Medicina saltou de 71 para 412, uma expansão de 480%. A interiorização desse processo é marcante: em 2010, apenas 20% das vagas estavam em municípios não capitais. Em 2025, essa proporção subiu para 53%, respondendo à demanda de regiões historicamente carentes de profissionais.

Os estados que mais criaram novos cursos na última década foram Pará (16), Bahia (14), Maranhão (12), São Paulo (10) e Minas Gerais (8).

O pico de autorizações ocorreu em 2019, com 37 instituições aprovadas num único ano, impulsionado por políticas de incentivo do Ministério da Educação e programas estaduais de saúde primária.

Essa descentralização amplia a oferta de médicos em áreas remotas e favorece a fixação desses profissionais junto ao SUS, sobretudo em estratégias de Medicina de Família e Comunidade.

Porém, desafios permanecem: promover infraestrutura adequada nos campi e articular programas de residência médica regionalizados são prioridades para manter a qualidade do ensino.

O panorama dos estudantes de Medicina em 2025 mostra uma profissão mais plural em gênero e raça, mas ainda marcada por fortes desigualdades socioeconômicas e territoriais.

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Marina Pereira

Marina Pereira

Professora da Medway. Formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com residência em Medicina Preventiva e Social na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Siga no Instagram: @marina.ulp