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Celulite bacteriana: indo além da comparação com a erisipela

Fala, galera! Tudo certo? Hoje vamos falar de um tema que é muito comum na prática médica, e que com certeza vocês presenciarão muitas vezes no pronto-socorro: a celulite bacteriana.

E, na prova, é um tema que, geralmente, cai por meio de um diagnóstico diferencial com a erisipela, o qual pode ser conferido nesse post aqui.

Bom, mas vamos lá…

Como é o acometimento da celulite bascteriana?

Tanto na celulite quanto na erisipela existem os clássicos sinais flogísticos: edema, eritema e aumento de temperatura local. Ambas são geralmente unilaterais e em extremidades. Além disso, os pacientes, em geral, queixam-se de bastante dor no local. 

Sinais sistêmicos como febre e prostração podem ocorrer. Na celulite, eles geralmente demoram mais para aparecer do que na erisipela.

Principais diferenças entre a celulite bacteriana e a erisipela 

Primeiro, podemos falar do grau de acometimento: a celulite acomete a derme profunda e o tecido celular subcutâneo.  Isso fica bem claro nesta figura aqui embaixo.

Deem uma olhada também no abscesso, em que a principal diferença é a presença de pus!

Outras características podem aparecer no exame físico

Outras características que podem ser observadas no exame físico são: 

  • sinais de linfangite e linfonodomegalia;
  • edema ao redor dos folículos pilosos pode causar um aspecto de “casca de laranja”, ou (“peau d’orange”);
  • outras alterações cutâneas, tais como vesículas, bolhas, equimoses, petéquias;
  • lembrem-se sempre de investigar porta de entrada: intertrigo e sinais de maceração da pele entre os pododáctilos.

Achados laboratoriais

Eles são  bastante inespecíficos: aumento de VHS, PCR e leucocitose (que podem aumentar em qualquer estado inflamatório, não é mesmo?).

Parecem doenças “tranquilas”, mas não se enganem, pois podem ter complicações graves, como:

  • bacteremia evoluindo para sepse;
  • endocardite infecciosa;
  • artrite séptica;
  • osteomielite;
  • síndrome do choque tóxico;
  • e cuidado com infecções envolvendo o triângulo central da face, entre o nariz, olhos e boca, pois devido a drenagem venosa podem complicar com trombose séptica de seio cavernoso.

Diagnóstico da celulite bacteriana

Com tudo isso, o diagnóstico acaba sendo clínico. Mas existem alguns casos em que é relevante coletar cultura do local, além de hemoculturas (que são positivas em menos de 10% dos casos). 

São os seguintes casos:

  • celulites extensas;
  • sinais sistêmicos, como febre, taquicardia;
  • história de múltiplos abscessos recorrentes;
  • falha da antibioticoterapia inicial;
  • extremos de idade: crianças pequenas ou idosos.
  • presença de comorbidades: neoplasias, neutropenia, esplenectomia, imunodeficiência, diabetes, linfedema.

É necessário fazer o exame de imagem?

Geralmente, não. Porém, nos casos que citamos acima, por terem maior potencial de complicações, podemos solicitar alguma imagem. Por exemplo: a ultrassonografia para avaliar a extensão do acometimento. Mas também não é regra!  

Fatores de risco que podem predispor a doença 

Os mesmos que valem não só à celulite, mas a outras infecções de pele, como abscessos também. São eles:

  • quebra da barreira cutânea por trauma: abrasão, uso de drogas injetáveis;
  • inflamação da pele, como ocorre na psoríase, eczemas, e até tratamentos com radioterapia;
  • edema secundário a drenagem linfática;
  • obesidade;
  • edema local secundário a insuficiência venosa crônica;
  • obesidade;
  • imunossupressão: diabetes, HIV;
  • intertrigo (lesões entre os dedos dos pés: famosa “frieira”);
  • infecções de pele pré existentes, como impetigo, varicela;
  • safenectomia, por exemplo no paciente que precisa de revascularização cardíaca.

Quando existem fatores de risco, é possível afirmar que a parcela da população que será mais acometida é composta pelos idosos.

Agentes etiológicos

Os agentes etiológicos são os Streptococcus beta-hemolíticos, em geral, sobretudo os do grupo A e, dentre eles, o Streptococcus pyogenes.

Lembrem-se de que, aqui na celulite, o Staphylococcus aureus é frequente, mas não é o mais comum! Ele vai ser o mais comum em casos de abscessos cutâneos.

Por fim, em menor porcentagem, aparecem os bacilos Gram-negativos.

Existem, também, outros agentes, mas bem mais incomuns: 

  • Haemophilus influenzae type b (ocorre mais em celulite oral); 
  • Clostridium e outros anaeróbios;
  • Streptococcus pneumoniae (celulite orbitária); 
  • Neisseria meningitidis.

A Pseudomonas aeruginosa é usual quando há celulite após um trauma penetrante. Já a Pasteurella multocida é dada quando ocorre a mordedura de cães.

Tratamento da celulite bacteriana

Em primeiro lugar, podemos dizer que a duração do tratamento é mais prolongada, levando de 10 a 14 dias. Além disso, em casos leves e/ou moderados, o tratamento pode ser ambulatorial, podendo-se utilizar os seguintes antibióticos:

  • cefalexina VO 500 mg VO de 6 em 6 horas;
  • clindamicina VO 300 a 450 mg VO de 6 em 6 horas;
  • amoxicilina 500 mg VO de 8 em 8 horas;
  • penicilina V 250-500 mg VO de 12 em 12 horas.

Os casos graves, por sua vez, requerem a internação e antibioticoterapia endovenosa. Então, podemos usar algum desses como exemplo:

  •        oxacilina 2g IV de 4 em 4 horas
  •        cefazolina 1g IV de 8 em 8 horas
  •        ceftriaxona 1g EV de 12 em 12 horas

Se a celulite bacteriana apresentar aspecto purulento

É fundamental tomar cuidado, pois, nessas situações, teremos que pensar em Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA). No entanto, nem sempre esses pacientes precisam ser internados: tudo vai depender do perfil de sensibilidade e da gravidade. 

E tem como tratar o S. aureus MRSA em casa? Tem, sim! 

Podemos usar clindamicina, sulfametoxazol + trimetoprima ou até doxiciclina. Mas, se forem casos mais graves, é preciso internação para fazer vancomicina ou linezolida por via endovenosa.

Se as infecções nos pacientes forem recorrentes

Nesse caso, podemos fazer profilaxia com uso contínuo dos antibióticos. A posologia, então, fica mais fácil. 

  • cefalexina 250 mg VO de 12 em 12 horas;
  • eritromicina 250 mg VO de 12 em 12 horas;
  • azitromicina 250 mg VO 1 vez ao dia;
  • claritromicina 500mg VO 1 vez ao dia.

Se as infecções recorrentes forem por Estafilococos, podemos usar clindamicina 150 mg VO 1 vez ao dia, ou Bactrim 800/160mg de 12 em 12 horas.

É isso…

Se apareceu alguma dúvida durante a leitura do artigo, é só mandar para a gente ou deixar um comentário aqui embaixo! Será um prazer respondê-los!

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REFERÊNCIAS

  1. Denis Spelman, MBBS, FRACP, FRCPA, MPHLarry M Baddour, MD, FIDSA, FAHA. Cellulitis and skin abscess: Epidemiology, microbiology, clinical manifestations, and diagnosis.  Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/cellulitis-and-skin-abscess-epidemiology-microbiology-clinical-manifestations-and-diagnosis. Julho de 2021. Acesso em 05 de outubro de 2021.

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IsabellaSilvestre Ignarro

Isabella Silvestre Ignarro

Nascida em Ourinhos, interior de São Paulo em 1992. Formada em medicina em 2018, pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Atualmente residente do segundo ano de Clínica Médica na Universidade Estadual de Campinas.