Síncope e Tilt Test: tudo que você precisa saber

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Conteúdo atualizado em: 15/05/2026 – Existe uma diferença entre síncope e o tilt test. A síncope é uma perda transitória da consciência causada por hipoperfusão cerebral global transitória, com início rápido, curta duração, recuperação espontânea e sem déficit neurológico persistente. 

Trata-se de queixa frequente em pronto-socorro, ambulatório e enfermaria, com importância clínica porque pode variar de condição benigna, como síncope reflexa, até manifestação de doença arrítmica ou estrutural com maior risco de morte súbita.

O tilt test ou teste de inclinação é um exame complementar útil quando a história clínica sugere síncope reflexa ou hipotensão ortostática, mas o diagnóstico permanece incerto após avaliação inicial. Seu papel é reproduzir a resposta hemodinâmica anormal em ambiente controlado, e não substituir a anamnese, o exame físico e o eletrocardiograma de 12 derivações.

Definição da síncope

A síncope pertence ao grupo das perdas transitórias da consciência, mas não é sinônimo de convulsão, hipoglicemia, intoxicação, psicogênese ou queda sem perda real de consciência. O diagnóstico correto começa por diferenciar síncope de outras causas de perda transitória da consciência, porque a conduta e o prognóstico são completamente diferentes.

Do ponto de vista etiológico, as diretrizes classificam a síncope em três grandes grupos:

  • síncope reflexa ou neurorreflexa
  • síncope por hipotensão ortostática
  • síncope cardíaca, por arritmias ou cardiopatia estrutural/pulmonar

Fisiopatologia da síncope

A fisiopatologia da síncope sempre envolve redução transitória do fluxo sanguíneo cerebral. Isso pode ocorrer por queda abrupta do débito cardíaco, vasodilatação periférica importante, bradicardia, taquiarritmias, obstrução ao fluxo ou falha da resposta autonômica ao ortostatismo.

Na síncope reflexa há um reflexo autonômico inadequado, com graus variáveis de vasodilatação e cardio inibição. Na prática, o paciente pode apresentar:

  • predomínio vasodepressor
  • predomínio cardioinibitório
  • resposta mista

Na hipotensão ortostática, a queda pressórica ocorre após assumir a posição ortostática por falha autonômica, hipovolemia ou efeito medicamentoso. 

Já na síncope cardíaca, o mecanismo costuma estar ligado a arritmia ou cardiopatia com repercussão hemodinâmica, situação de maior gravidade prognóstica.

Etiologia da síncope

As principais causas de síncope são:

  • reflexa, dentre elas:
    – Vasovagal (principal): Ortostática (em pé) ou emocional (medo, dor, procedimentos médicos)
    – Situacional: Tosse, micção, deglutição, pós-exercício
    – Síndrome do seio carotídeo: Hipersensibilidade do seio carotídeo
  • hipotensão ortostática
  • arritmias
  • doença cardíaca estrutural
  • causas menos comuns relacionadas a doença cerebrovascular ou situações específicas, que devem ser interpretadas com cautela diagnóstica

A síncope vasovagal é a forma mais frequente na população geral. Ela costuma ocorrer com pródromos como sudorese, náusea, turvação visual, calor, fraqueza ou tontura, especialmente em ortostatismo prolongado, emoção intensa, ambiente quente ou dor.

Já sinais de alerta para síncope cardíaca incluem:

  • síncope durante esforço
  • síncope em posição supina
  • palpitações imediatamente antes do episódio
  • cardiopatia estrutural conhecida
  • história familiar de morte súbita
  • ECG anormal: Alterações isquêmicas agudas, BAV Mobitz II ou 3º grau, bradicardia persistente, pausas sinusais, taquiarritmias ventriculares ou supraventriculares

Quadro clínico

A anamnese é a ferramenta mais importante na investigação da síncope. Devem ser pesquisados:

  • posição corporal no momento do evento
  • gatilhos
  • pródromos
  • duração
  • recuperação
  • traumatismo associado
  • antecedentes cardíacos
  • medicações
  • recorrência
  • história familiar de morte súbita

No exame físico, é obrigatória a aferição de:

  • pressão arterial em decúbito e ortostatismo
  • frequência cardíaca
  • exame cardiovascular
  • exame neurológico dirigido

Em provas e na prática, um ponto central é diferenciar síncope de crise epiléptica. Movimentos breves e anormais podem ocorrer na síncope, mas recuperação muito prolongada, confusão pós-ictal sustentada, mordedura lateral de língua e história altamente sugestiva de epilepsia apontam para outro diagnóstico.

Diagnóstico da síncope

Toda avaliação inicial de síncope deve incluir:

  • história clínica detalhada
  • exame físico
  • pressão arterial ortostática
  • ECG de 12 derivações

A partir dessa etapa, o clínico deve responder três perguntas:

  1. Foi realmente síncope?
  2. Existe evidência de alto risco cardiovascular?
  3. A etiologia já pode ser definida com a avaliação inicial?

Exames adicionais são guiados pela suspeita clínica. Nem todo paciente precisa de extensa propedêutica. Exames laboratoriais direcionados (hemograma, eletrólitos, troponina) podem ser úteis em pacientes selecionados, mas não devem ser solicitados rotineiramente em todos os pacientes com síncope. 

Ecocardiograma, monitorização prolongada, teste ergométrico, estudo eletrofisiológico ou imagem neurológica devem ser solicitados apenas quando houver hipótese sustentada pelo quadro clínico.

Tilt test

Indicação

O tilt test está indicado principalmente quando há suspeita de:

  • síncope reflexa e/ou hipotensão ortostática com diagnóstico incerto após avaliação inicial
  • diferenciação entre síncope e pseudosíncope psicogênica em casos selecionados

Como o tilt test é realizado?

O exame consiste em monitorizar pressão arterial e frequência cardíaca enquanto o paciente passa do decúbito para inclinação em mesa apropriada. 

O objetivo é avaliar a resposta autonômica ao ortostatismo em ambiente controlado. Protocolos podem variar entre centros, inclusive com fases passivas e farmacológicas (Isoproterenol ou nitratos sublinguais), o que reforça a necessidade de interpretação por serviço habituado ao método.

Como interpretar o tilt test

O exame é considerado útil quando reproduz sintomas habituais acompanhados de resposta hemodinâmica compatível. Os padrões mais relevantes incluem:

  • resposta vasodepressora, com queda importante da pressão arterial
  • resposta cardioinibitória, com bradicardia marcada ou assistolia
  • resposta mista, com queda pressórica e redução relevante da frequência cardíaca

Tratamento da síncope

O tratamento da síncope depende da etiologia. O objetivo principal é reduzir recorrência, trauma associado e risco cardiovascular, e não apenas suprimir episódios isolados. A maior parte dos pacientes com síncope reflexa responde inicialmente a medidas não farmacológicas.

Tratamento não farmacológico da síncope reflexa

As medidas iniciais incluem:

  • explicar o mecanismo benigno da síncope vasovagal quando apropriado
  • evitar gatilhos conhecidos
  • otimizar hidratação e ingestão de sal quando não houver contraindicação
  • orientar reconhecimento precoce dos pródromos
  • realizar manobras de contrapressão durante os pródromos
  • considerar treinamento ortostático em pacientes selecionados

As manobras de contrapressão incluem contrair musculatura dos membros inferiores, cruzar as pernas, tensionar membros superiores ou agachar, conforme a situação. Sua utilidade prática é maior em pacientes com pródromos preservados, porque ajudam a manter o retorno venoso e retardar a perda de consciência.

Tratamento farmacológico

Quando a síncope reflexa é recorrente, traumática ou refratária às medidas conservadoras, pode-se considerar tratamento farmacológico em casos selecionados. Entre as opções mais citadas nas diretrizes e revisões estão:

  • midodrina
  • fludrocortisona

Tratamento invasivo da síncope

Terapias invasivas são reservadas para perfis específicos. Em pacientes mais velhos, com síncope reflexa recorrente e documentação de componente cardioinibitório importante, o marcapasso pode ser considerado em cenários selecionados.

Prognóstico da síncope

O prognóstico da síncope depende fundamentalmente da causa de base. A síncope reflexa costuma ter bom prognóstico em termos de mortalidade, embora possa comprometer muito a qualidade de vida e gerar trauma por recorrência. Já a síncope de causa cardíaca tem pior prognóstico e exige investigação prioritária.

Em pacientes jovens, com pródromos típicos, exame físico normal e ECG normal, a probabilidade de síncope vasovagal é alta e o risco imediato costuma ser baixo. Mesmo assim, a recorrência pode justificar investigação complementar e medidas preventivas.

Pontos-chave para prova

  • Síncope é perda transitória da consciência por hipoperfusão cerebral global transitória.
  • A avaliação inicial obrigatória inclui anamnese, exame físico, pressão ortostática e ECG de 12 derivações.
  • As três grandes etiologias são reflexa, hipotensão ortostática e cardíaca.
  • Síncope vasovagal é a causa mais comum na população geral.
  • O tilt test é exame complementar, não substitui a história clínica.
  • O exame é mais útil em suspeita de síncope reflexa ou hipotensão ortostática com diagnóstico incerto.
  • O tratamento inicial da síncope reflexa é predominantemente não farmacológico.
  • Midodrina e fludrocortisona têm papel em casos recorrentes selecionados.
  • Sinais de alto risco, como ECG anormal, síncope no esforço ou cardiopatia estrutural, exigem investigação prioritária.

Conclusão

A síncope exige raciocínio clínico estruturado, com prioridade para estratificação de risco e diferenciação etiológica. O tilt test tem grande utilidade quando há suspeita de mecanismo reflexo ou ortostático, mas seu valor máximo ocorre quando interpretado à luz da história clínica e do exame físico.

Para estudo, prova e prática, a mensagem central é objetiva: primeiro confirmar que o evento foi realmente síncope, depois excluir causas cardíacas de maior risco e, por fim, usar exames complementares como o tilt test de forma dirigida. 

Em pacientes com síncope vasovagal, o manejo inicial é geralmente conservador, com educação, hidratação, reconhecimento de pródromos e manobras de contrapressão.

Referências

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Micael Hamra

Micael Hamra

Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway