Úlcera genital: as principais doenças e os sintomas

Conteúdo / Medicina de Emergência / Úlcera genital: as principais doenças e os sintomas

Fala, moçada! Hoje vamos falar sobre os sintomas da úlcera genital. Vamos começar definindo: o que é uma úlcera? A ulceração é a perda completa da cobertura epidérmica com invasão para a derme subjacente. Já a erosão é a perda parcial da epiderme sem penetração da derme, distinguidas pelo exame físico.

Primeiro vamos ao básico — o que é importante na anamnese e exame físico das úlceras genitais? 

  • tempo e forma de evolução da úlcera;
  • localização precisa;
  • aspecto: Tamanho, profundidade, grau de inflamação;
  • presença de linfadenomegalia regional e/ou à distância;
  • aparecimento concomitante de outras lesões pelo corpo e na boca.

Lembrando que toda úlcera que não melhora após 30 dias de tratamento, deve ser biopsiada para descartar outras causas (não infecciosas)!

Já as úlceras genitais infecciosas representam síndrome clínica produzida por agentes infecciosos sexualmente transmissíveis e que se manifestam como lesões ulcerativas erosivas, precedidas ou não por pústulas e/ou vesículas, acompanhadas ou não de dor, ardor, prurido, drenagem de material mucopurulento, sangramento e linfadenopatia regional. 

Vamos com calma, ver cada sintomatologia das principais úlcera genital infecciosa…

Sífilis

A sífilis é uma infecção que pode ter evolução crônica e sistêmica, se não for tratada de forma correta. Ela é causada pela bactéria Treponema pallidum, especialmente nas fases iniciais da doença, quando a transmissibilidade é maior, pois há maior número de treponemas nas lesões. 

A sua transmissão pode ser sexual ou vertical, quando a mãe transmite a bactéria para o feto. Sua incidência aumentou nos últimos anos, pois a população reduziu o uso de preservativo e porque grande parte das pessoas com sífilis não tem sintomas, o que contribui para a manutenção da transmissão da bactéria. 

No Brasil, a prevalência é de cerca de 0,5% na população geral e é mais elevada nas populações vulneráveis.

A sífilis pode ser classificada de acordo com o tempo de evolução da infecção. Quando a infecção ocorreu até um ano, classificamos a doença como sífilis recente (primária, secundária ou latente recente). No entanto, se a infecção ocorreu há mais de um ano, a sífilis é classificada como tardia (latente tardia ou terciária).

A sífilis primária é a apresentação da doença que se manifesta com úlcera genital, portanto é, na maioria das vezes, a sífilis que o ginecologista atende no pronto-socorro. O sintoma clássico é uma úlcera genital única, indolor, com bordas bem definidas, regulares, com fundo limpo e seco. 

Ela também pode ser chamada de cancro duro. O período de incubação é de até noventa dias, mas costuma ser em média de 3 semanas. Ela pode ter linfadenopatia regional sem fistulização característica. Muitas vezes, a sífilis primária não é percebida pelo paciente, pois ela não causa dor e a úlcera pode desaparecer com ou sem tratamento.

Lesão de sífilis primária. Note a úlcera, com bordos bem delimitados e fundo limpo característica das lesões associadas à penetração do Treponema pallidum. Fonte: http://saude.sp.gov.br/resources/crt/eventos/transmissao-vertical-da-sifilis/3-webinar-14042021/sifilisadquiridaparao3webinar14deabril2021ccdfinal.pdf

A sífilis secundária pode se manifestar de forma muito variável e ela costuma ocorrer entre 6 semanas a 6 meses depois da cicatrização da úlcera genital. A manifestação mais característica dessa fase da sífilis é o eritema máculo-papular, predominantemente no tronco, que evolui para as regiões palmo-plantares. 

Nessa fase também podem haver lesões de mucosa e podem aparecer condilomas planos anogenitais. Além disso, pode ocorrer na sífilis secundária sintomas e sinais inespecíficos, como febre baixa, mal-estar, linfadenopatia, cefaleia e adinamia. 

Exantema máculo-papular difuso característico da sífilis secundária. Fonte: Wikimedia.

A sífilis terciária é o estágio final da doença e ela pode ocorrer após 1 a 40 anos da infecção primária que não foi tratada. Nesse ponto, podemos ter acometimento cardiovascular, cutâneo, ósseo e neurológico. O acometimento neurológico, a neurossífilis, pode ocorrer em qualquer estágio da doença.

Cancro mole

Gente, o cancro mole causado pela bactéria Haemophilus Ducreyi e se manifesta com múltiplas úlceras dolorosas, de bordas irregulares com fundo sujo e heterogêneo. As úlceras no cancro mole podem ser recobertas com exsudato necrótico de odor fétido e são muito friáveis.

O Haemophilus Ducreyi pode afetar os linfonodos inguino-crurais, formando uma tumefação dolorosa que pode fistulizar por orifício único. 

Úlcera peniana de cancro mole, note os bordos irregulares, o fundo sujo e a associação com linfonodomegalia inguinal à direita. Fonte: UpToDate, 2021.

Herpes genital

Pessoal, o herpes genital cursa com úlceras genitais dolorosas causadas por um vírus,  o herpes simplex vírus tipo 2 (HSV 2). A transmissão ocorre por via sexual, podendo também ser transmitida por pacientes assintomáticos e o período de incubação é de aproximadamente 6 dias. 

O quadro infeccioso desse vírus inicia com o surgimento de lesões eritemato-papulosas pequenas, que evoluem para vesículas agrupadas muito dolorosas, que após alguns dias se rompem e formam ulcerações dolorosas.

Lesão típica de herpes genital inicial. Note a presença de múltiplas vesículas agrupadas. Fonte: Wikimedia.

A primeira infecção geralmente causa sintomas sistêmicos também, como febre, mal estar, disúria e linfonodomegalia inguinal bilateral. 

Posteriormente, o vírus migra pela raiz nervosa até se alojar em um gânglio neural, onde permanece quiescente até ser reativado em algumas situações, como estresse, privação de sono, imunodeficiência, quimioterapia, corticoterapia e traumas locais. As recidivas causam sintomas mais leves que a primoinfecção.

Linfogranuloma venéreo

Gente, essa infecção sexualmente transmissível se apresenta clinicamente com linfadenopatia inguinal unilateral que fistuliza por múltiplos orifícios e as provas de residência adoram cobrar isso. Ela é causada por subtipos da Chlamydia Trachomatis que possuem tropismo pelo tecido linfático. 

A história natural da infecção ocorre em três fases: inoculação (pápula, pústula ou exulceração indolor que desaparece sozinha); disseminação linfática regional (linfadenopatia inguinal); supuração e fistulização por orifícios múltiplos, que, na verdade, são linfonodos individualizados fundidos em uma grande massa. 

Ela também pode causar sintomas constitucionais como febre, sudorese e mal-estar. 

Linfogranuloma venéreo. Fonte: Wikimedia.

Donovanose

Galera, essa doença é complicada. Felizmente ela é super rara, ocorre mais em tropicais e é a única infecção sexualmente transmissível crônica. O agente etiológico é a bactéria Klebsiella granulomatis. A donovanose se inicia com uma úlcera única, indolor, friável, de bordas hipertróficas, bem delimitada e com fundo granuloso. 

Essa ulceração evolui bem lentamente e, aos poucos, se torna uma lesão úlcero-vegetante. Posteriormente as lesões são numerosas e podem aparecer em espelho. Dificilmente essas úlceras evoluem com adenite.

Úlcera extensa, crônica, causada pela bactéria K. granulomatis, agente causador da donovanose. Fonte: Wikimedia.

E aí, curtiu saber mais sobre os sintomas das úlceras genitais?

É muito importante o conhecimento  de cada particularidade das doenças que cursam com úlcera genital para facilitar o diagnóstico clínico e  instituir o tratamento mais rápido possível. 

Agora você conhece mais sobre os sintomas das diferentes causas de úlceras genitais! Então, confira outros conteúdos que publicamos aqui no blog. Eles foram feitos especialmente para você mandar bem no seu plantão e vida profissional, além de ficar por dentro dos mais variados assuntos.

Está a fim de ser o novo residente? Então, venha conhecer os nossos Extensivos, que darão todo suporte que você precisa para conseguir a tão sonhada aprovação. Teste o Extensivo Medway por 7 dias totalmente gratuitos e conheça todos os benefícios e as ferramentas que vão fazer a diferença nos seus estudos!

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
DanielGodoy Defavari

Daniel Godoy Defavari

Paulista, nascido em Americana em 1995. Formado pela Universidade de Brasília em 2019. Residência em Ginecologia e Obstetrícia no HC-FMUSP. Sucesso é o acúmulo de pequenos esforços repetidos dia a dia. Siga no Instagram: @danielgodamedway