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Calcificação do anel mitral: o que é isso?

Você já ouviu falar sobre a calcificação do anel mitral? Este processo crônico e degenerativo pode avançar e causar a estenose mitral calcífica. Essa condição pode parecer complexa, mas ao final do artigo, você vai entender tudo sobre ela.

Continue a leitura para saber o que é calcificação do anel mitral, assim como quais são as principais causas, repercussões clínicas e tratamentos médicos. Com a nossa explicação, você vai se sentir ainda mais preparado para os diagnósticos no plantão. Confira!

O que é a calcificação do Anel Mitral?

Como o próprio nome sugere, a calcificação do anel mitral (MAC) é uma condição em que há depósito de cristais de cálcio na estrutura acima descrita, podendo ter diversas causas subjacentes. Para compreender a doença, primeiro, você precisa entender a anatomia da estrutura, conforme a ilustração abaixo. 

Classificação do anel mitral - saiba mais

  Aparato da valva mitral. Disponível em http://echoboardsacademy.com/mitral-valve-anatomy-transesophageal-echo/

Tradução: Comissura anterior (AC), apêndice atrial esquerdo (LAA), comissura posterior (PC)

O anel mitral é uma estrutura fibrosa, que constitui o aparato valvar atrioventricular esquerdo. Ele serve como marco anatômico para a divisão entre as câmaras esquerdas e é o local de inserção dos folhetos valvares.

A deposição de cálcio nessa estrutura, por qualquer motivo, é danosa por ocasionar redução da mobilidade dos folhetos valvares. Isso impacta de forma significativa a dinâmica da sístole ventricular, podendo levar à diminuição progressiva da fração de ejeção, que, muitas vezes, já se mostra alterada pela presença de causas subjacentes.

O acometimento tende a ser mais predominante na parte posterior do anel, podendo se estender ao folheto posterior. Além disso, tem como característica poupar a porção anterior, o que diferencia essa condição do acometimento mitral reumático, por exemplo, que tende a acometer tanto os folhetos valvares quanto a porção anterior.

Quais são as principais causas?

Durante muito tempo, acreditou-se que a calcificação do anel mitral era algo idiopático, sem fatores de risco identificáveis, decorrente principalmente de alterações degenerativas.

Atualmente, sabe-se que essa calcificação é decorrente de um processo fisiopatológico ativo, muito similar ao que é visto na aterosclerose. O fator desencadeante do processo é, primordialmente, a lesão endotelial, que pode ser ocasionada por:

  • hipertensão arterial;
  • tabagismo;
  • obesidade;
  • doença renal crônica;
  • diabetes;
  • hipertrigliceridemia.
Processo de lesão endotelial aterosclerótico. A base fisiopatológica para a calcificação do anel mitral é similar.

Processo de lesão endotelial aterosclerótico. A base fisiopatológica para a calcificação do anel mitral é similar. Disponível em http://www.nature.com

Tradução: Blood monocyte (monócito sanguíneo); Monocyte adhered to epithelium (monócito aderido ao epitélio); Adhesion molecule VCAM-1 (molécula de adesão VCAM-1); Monocyte migrating into intimal (monócito migrando para a íntima); Monocyte becoming intimal macrophage (monócito se tornando macrófago da íntima); Modified lipoprotein particle (partícula de lipoproteína modificada); Macrophage foam cell (célula espumosa macrofágica); Lipid droplets (gotículas lipídicas); Cytokines (citocinas); Tissue factor (fator tissular); Apoptotic bodies (corpos apoptóticos); Dying macrophage (macrófago morto)

Perceba que os fatores de risco são praticamente os mesmos de todas as doenças cardiovasculares. Distúrbios relacionados ao metabolismo ósseo e mineral também se relacionam com a doença.

Qual é a importância dessa temática?

A razão pela qual você deve, pelo menos, conhecer essa patologia deriva das repercussões clínicas e das condições associadas. A começar pelo mais evidente: a calcificação do anel mitral pode levar tanto à estenose da valva mitral quanto à insuficiência mitral, bem como respectivas complicações associadas. 

Outras condições clínicas associadas são a calcificação aórtica, haja vista a semelhança fisiopatológica entre as doenças e as arritmias de maneira geral, incluindo doenças do sistema de condução cardíaco (possivelmente por extensão dos depósitos de cálcio ao nó atrioventricular e ao feixe de his). 

Mais uma associação é a fibrilação atrial (pelo aumento do átrio esquerdo decorrente da diminuição do gradiente transvalvar). Também é descrito o aumento do risco de endocardite infecciosa nos pacientes portadores de calcificação do anel mitral.

Diagnóstico, tratamento e prognóstico

O diagnóstico da MAC é feito primordialmente pelo ecocardiograma, transtorácico ou transesofágico. Além de possibilitar a visualização da calcificação propriamente dita, o exame discrimina se há estenose ou insuficiência valvar associada.

Caso haja necessidade de uma avaliação anatômica mais precisa para planejar uma intervenção percutânea ou cirúrgica, por exemplo, é possível lançar mão da tomografia computadorizada ou do cateterismo de câmaras esquerdas. Assim, você obtém uma mensuração mais acurada da hemodinâmica intracardíaca. 

No que diz respeito à prevenção e ao tratamento da calcificação do anel mitral, não há nada estabelecido com base em evidências sólidas. Sendo assim, o manejo se resume ao tratamento de condições clínicas subjacentes, bem como de fatores de risco potencialmente modificáveis.

Intervenções cirúrgicas são raramente indicadas, sendo reservadas principalmente para pacientes com sintomas graves decorrentes de estenose mitral ou insuficiência mitral secundária.

Por fim, uma breve pincelada no prognóstico: esses pacientes possuem aumento da probabilidade de desenvolver eventos cardiovasculares. Inclusive, alguns estudos apontam a MAC como um fator independente na predição de AVC isquêmico.

Prepare-se para os plantões com a gente!

Esperamos que este texto tenha te ajudado a compreender a calcificação do anel mitral, condição pouco falada, mas relativamente prevalecente em cerca de 10% da população geral. 

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DanielCosta

Daniel Costa

Médico formado pela Escola Bahiana de Medicina, residente de clínica médica pelo HC-FMUSP. Apaixonado por marketing e por ensino, gosta de ler bons livros nas horas vagas.