Como é residência em Medicina Preventiva e Social na USP

A Medicina nem sempre precisa ter um papel reativo, né? É possível atuar na prevenção, na gestão, no desenvolvimento de políticas e de programas e no cuidado com a saúde desde o princípio. Para se especializar, uma das possibilidades é a residência em Medicina Preventiva e Social na USP.

Essa residência médica tem a duração de 2 anos e acontece na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com passagem no Hospital das Clínicas (HCFMUSP) e outras instituições. Mas será que essa é a alternativa certa para você?

Sem mais delongas, conversamos com Natália e Leandro, ambos do segundo ano de especialização, e eles contaram um pouco mais da experiência.

Venha conhecer tudo sobre a residência em Medicina Preventiva e Social na USP!

João Vitor: Para começar, uma pergunta que sabemos que é bem pessoal: qual é o melhor estágio da residência em Medicina Preventiva e Social da USP?

Residência em Medicina Preventiva e Social na USP tem estágios na Secretaria de Estado da Saúde
Residência em Medicina Preventiva e Social na USP tem estágios na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Natália: A residência em Medicina Preventiva e Social mudou seu formato de currículo. Até 2017, na entrevista, havia duas opções de escolha: a Medicina Preventiva e Social ou o PROAHSA (Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde).  A partir de 2018, os residentes ficam um ano no departamento da Medicina Preventiva e Social e, posteriormente, fazem a escolha.

Dessa forma, nos oito primeiros meses, o estágio de epidemiologia (CEInfo – Coordenação de Epidemiologia e Informação, NUVE HCFMUSP Núcleo de Vigilância Epidemiológica, FOSP Fundação Oncocentro de São Paulo, CVS Centro Vigilância Sanitária) foi o melhor, pois tivemos um pouco mais de contato com uma área não muito explorada na graduação médica. E acredito que a epidemiologia é uma ferramenta importante para os gestores de saúde.

Após a escolha do PROAHSA, o melhor estágio até o momento foi em saúde pública, que aconteceu na Secretaria de Saúde de São Paulo. Foi durante o momento da pandemia, em que se precisavam de informações sobre os casos internados, leitos e novas internações para tomada de decisões. E participamos da implantação e manutenção do sistema que permitiu otimizar a gestão de leitos e insumos.

Além disso, percebi o quanto o sistema público tem muitos pontos de melhoria, o que me estimula cada vez mais a continuar na residência médica em Medicina Preventiva e Social da USP.

Leandro: Essa é uma pergunta difícil de responder, pois a residência tem cerca de 17 estágios, os quais podem mudar de um ano para outro a depender dos convênios e parcerias vigentes à época. Essas mudanças ocorrem anualmente e com frequência. Alguns dos estágios podem até deixar de existir ou serem substituídos de uma hora para outra, pois depende bastante da conjuntura do setor de saúde.

A resposta varia, ainda, de acordo com o perfil, os interesses e os objetivos do residente. Alguns residentes são mais orientados para cargos no setor privado, outros para o setor público.

O fator comum é: a residência médica em Medicina Preventiva e Social na USP não tem mesmice e, em geral, todos gostam bastante, principalmente dos estágios realizados externamente ao HCFMUSP.

João Vitor: Tem algum médico assistente que você admira muito e considera um exemplo para você?

Natália: A residência em si tem a maior parte da sua carga horária teórica. Mas, fazendo um paralelo do médico assistente para os professores titulares, durante o período na Medicina Preventiva e Social, tivemos quase nenhum contato com eles. Algo que senti falta e que agregaria para nossa formação.

Já no PROAHSA, o contato com alguma pessoa de referência aumentou um pouco, mas é algo que precisa ser melhorado também. Dentro desse contexto, a professora Ana Maria Malik é uma médica que promove discussões e reflexões interessantes, por meio de Journal Club, sobre o papel da gestão dentro do contexto dos serviços de saúde.

Leandro: Não tenho nenhum, pois nossa formação e carreira não é voltada para atuação na assistência, e sim para atuação na gestão. Temos pouquíssimo contato com médicos assistentes.

João Vitor: Conta um pouco sobre onde vocês rodam ao longo de toda a residência.

Leandro: A residência em Medicina Preventiva e Social da USP é composta de dezenas de estágios, dezenas de visitas técnicas e muitas disciplinas teóricas.

No R1, o principal cenário de prática é o Centro de Saúde-Escola do Butantã. Mas frequentamos, também, a sede da Faculdade de Medicina da USP. Em ambos os locais temos estágios e disciplinas.

Residência em Medicina Preventiva e Social na USP tem várias atividades no Hospital das Clínicas
Assim como outros programas, a residência em Medicina Preventiva e Social na USP tem várias atividades no Hospital das Clínicas

Entre as disciplinas, temos Introdução à Saúde Coletiva e Comunicação em Saúde, no CSEB, e, na FMUSP, Práticas de Prevenção e Promoção da Saúde, Educação Interprofissional e Práticas Colaborativas, História das Políticas Públicas da Saúde (no Museu da FMUSP), Avaliação de Desempenho de Serviços de Saúde da APS e Atenção Secundária, Ciências Sociais em Saúde, Metodologia de Pesquisa Qualitativa em Saúde, Metodologia de Pesquisa Quantitativa em Saúde e Desenhos de Estudos Epidemiológicos.

Entre os estágios, temos Organização do Trabalho na APS (CSEB), Movimentos Sociais e Saúde (CSEB e sedes dos mais diversos movimentos sociais do município de São Paulo), Território e Saúde (FMUSP e bairro do Butantã), Vigilância e Informação em Saúde (FMUSP, Núcleo de Vigilância Epidemiológica/HCFMUSP, CEInfo/SMS-SP, FOSP, Centro de Vigilância Sanitária/SES-SP), Estágio em Saúde Mental (CSEB) e Ações em Saúde Coletiva (CSEB + visitas técnicas a diversos equipamentos da rede de saúde).

Temos ainda um Estágio Específico para Médicos, no CSEB, que é assim chamado porque os 8 primeiros meses do Programa de Residência em Medicina Preventiva e Social na USP são cursados conjuntamente com o Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva e Atenção Primária à Saúde. Há alguns períodos no cronograma que são reservados aos estágios específicos para cada profissão de saúde.

Os 4 últimos meses do R1 são cursados no PROAHSA, que é o Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde do HCFMUSP. O cenário de prática é exclusivamente o HCFMUSP.

Esses 4 meses são distribuídos em dois blocos e um período para realização de projeto ao final de cada bloco.

1) Bloco de Apoio Técnico

  •     Estágio observacional na Divisão de Nutrição e Dietética;
  •     Estágio observacional na Divisão de Farmácia;
  •     Estágio observacional no Hemocentro (PRÓ-SANGUE);
  •     Estágio observacional na Divisão de Laboratório Central e
  •     Estágio observacional no Instituto de Radiologia.

2) Bloco de Assistência

  •     Estágio observacional em Ambulatório;
  •     Estágio observacional em Unidade de Emergência Referenciada;
  •     Estágio observacional em Unidade de Internação e
  •     Estágio observacional em Centro Cirúrgico.

Ao fim do R1, o residente pode optar por cursar o R2 em área de concentração em Gestão em Saúde (PROAHSA)* ou área abrangente em Medicina Preventiva e Social propriamente dita.

Para os que optarem pelo PROAHSA, é obrigatório ter iniciado, ainda no R1, o CEAHS Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde, fornecido pela EAESP/FGV, com 18 meses de duração e aulas no período noturno.

O R2 na área de concentração em Gestão em Saúde (PROAHSA) é composto por estágios predominantemente externos ao HCFMUSP, no intuito de o residente adquirir visão sistêmica e networking. Em todos os estágios o residente deve elaborar projeto e apresentar às partes interessadas ao final do estágio.

Entre os estágios do R2 estão o estágio na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), o  estágio observacional nos núcleos gerenciais do HCFMUSP, os estágios em Diretoria Executiva de Instituto do HCFMUSP, em Hospital Privado, em Empresa de Saúde, em Operadora de Saúde, em Indústria da Saúde, em Consultoria em Saúde, os estágios temáticos (Inovação e Tecnologia em Saúde, Tecnologia da Informação em Saúde), e os estágios eletivos.

O R2, na área abrangente em Medicina Preventiva e Social propriamente dita, tem programação diversa, com aprofundamento em Vigilância em Saúde, Saúde do Trabalhador, Ciências Sociais em Saúde, Redes de Atenção à Saúde e módulos de Gestão em Saúde.

No Centro de Saúde-Escola do Butantã são realizados vários estágios da residência em Medicina Preventiva e Social na USP
No Centro de Saúde-Escola do Butantã são realizados vários estágios da residência em Medicina Preventiva e Social na USP

João Vitor: Existem estágios eletivos na sua residência? É possível (e comum) fazer um estágio fora do país?

Natália: Sim. O último estágio do R2 é eletivo. Pode ser feito no local de preferência, sendo possível ser fora do país. Das turmas anteriores, conheço somente 1 pessoa que fez. A maioria é dentro do país.

João Vitor: Sua residência, de uma forma geral, respeita as 60 horas semanais?

Natália e Leandro: Sim.

João Vitor: E qual é a carga máxima de plantão que vocês têm? Existe algum período de descanso pré ou pós-plantão?

Natália: Não há plantão na residência em Medicina Preventiva e Social na USP. Temos atividades da residência médica de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. E, concomitantemente e por 1 ano e meio, temos o Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde na FGV (CEAHS), que acontece de segunda a quarta-feira, das 19h às 22:40.

João Vitor: De 0 (nada) a 10 (demais), o quanto sua residência foca em parte teórica? Conta um pouco sobre as principais atividades teóricas que vocês têm.

Natália: 8. No R1, como estágio teórico-prático, tivemos: organização do trabalho na atenção primária à saúde, território e saúde, movimentos sociais e saúde, ações em saúde coletiva, vigilância e informação em saúde, saúde mental, e um estágio específico para médicos no CSE Butantã que pode ser desde atendimento até projetos de gestão.

Como matérias teóricas, na FMUSP, tivemos: introdução à saúde coletiva, práticas de prevenção e promoção à saúde, história das políticas públicas em saúde, educação interprofissional e práticas colaborativas, ciências sociais em saúde, e avaliação em saúde.  Tudo foi complementado pelo conteúdo da FGV.

Leandro: 10. Temos disciplinas diurnas da residência em Medicina Preventiva e Social na USP, que mencionamos anteriormente, e as disciplinas do CEAHS da FGV.

João Vitor:  E quanto à parte acadêmica? De 0 (nada) a 10 (demais), o quanto vocês acham que a residência médica foca nisso?

Natália: 7.

Leandro: O nosso R1 é quase 100% teórico, já o R2 tem menos, mas ainda tem o MBA da FGV, que é só teoria também. Acho que daria 8 para o R1 e 4 para o R2. Fazendo a média, diria que minha nota para a residência toda é 6.

João Vitor: Quais são os pontos fortes da residência em Medicina Preventiva e Social da USP?

Natália: Como pontos fortes, considero a boa consolidação no mercado, sendo referência na área de gestão de serviços de saúde, o convênio com a FGV, com a possibilidade de um MBA em gestão de saúde, a iniciativa da integração da Medicina Preventiva e Social com o PROAHSA, o que possibilita ter uma visão mais ampla para nossa formação, e a boa base teórica e estágios externos com os possíveis campos de atuação.

Leandro: Boa base teórica, possibilidade de executar metodologia de gestão de projetos e realizar entregas durante os estágios, consolidação no mercado, ampla rede de relacionamentos e networking. Nossa residência médica trata a gestão em saúde com a seriedade que deve ser tratada.

João Vitor: E tem algum ponto que você acha que poderia melhorar?

Natália: A integração entre a Medicina Preventiva e Social com o PROAHSA poderia ser mais explorada, pois no nosso departamento temos muitas referências em saúde pública do Brasil. Outro ponto seria ter maior aplicabilidade do conteúdo teórico que é exposto no PROAHSA. Além da criação de grupos de mentoria, visto que seria uma forma de contato com os residentes que se formaram e já atuam no mercado de trabalho. E, por último, maior presença do preceptor no R2.

Leandro: Sim, mais convênios e parcerias com os diversos atores do setor saúde. Os estágios observacionais frequentemente são passivos demais, fora que ficam à mercê da disponibilidade de agenda dos atores que vão nos receber. Com frequência são teóricos em excesso e o residente chega inexperiente e com poucas dúvidas, pois muitas vezes é a primeira (e última) aproximação com o campo.

João Vitor: Para vocês, tem como conciliar a residência com plantões externos? A maioria faz isso?

Natália: Sim. Não temos plantões da residência em Medicina Preventiva e Social na USP e as atividades são de segunda a sexta-feira. Os finais de semana são livres para colocar a matéria em dia, descansar ou dar plantões externos.

Leandro: Plenamente possível. A maioria faz, mas não todos.

João Vitor: Quais “comodidades” a sua residência disponibiliza?

Natália: Alimentação gratuita, tanto para o almoço quanto jantar, processo de seleção para moradia, bilhete único de estudante, estacionamento na faculdade a partir de determinado horário, além de programas de fidelidade com determinadas lojas e restaurantes. Tudo é explicado no momento da matrícula do residente.

João Vitor: Leandro, no seu caso, que não é natural de São Paulo, você pretende voltar para sua cidade de origem após a residência? Você conhece quem tenha voltado? Acha que é possível se inserir bem?

Leandro: Não pretendo voltar. Não conheço quem tenha voltado. Tudo depende dos contatos na cidade de origem e das portas que não se fecharam…

João Vitor: Tem mais alguma coisa que vocês acham importante dizer sobre a residência em Medicina Preventiva e Social da USP?

Natália: No momento, é a única residência médica que tem parte voltada para administração hospitalar e serviços de saúde.

Leandro: Não, mas como não é uma residência comum, e como desejo que mais pessoas se interessem pelo programa, me coloco à disposição para aprofundamentos, esclarecimentos e demais necessidades.

Gostou de saber mais sobre essa residência médica?

A residência em Medicina Preventiva e Social na USP envolve muitos conhecimentos teóricos e mais de uma dezena de estágios. Se você tiver vontade de atuar em uma área voltada para a gestão da saúde, essa é uma ótima oportunidade de se especializar!

Ficou com alguma dúvida? Curtiu a sugestão do Leandro? Deixa sua pergunta aqui embaixo que te respondemos!

Aproveita e conheça o nosso canal do YouTube! Lá temos postado várias aulas explorando temas importantes, que caem nas grandes áreas das provas de residência médica das principais instituições de São Paulo. Dá uma olhada nesse aqui, em que o Micael falou sobre um tema importante que sempre cai em Clínica Médica na prova de residência médica da USP:

E se você está se preparando para a prova de residência médica da USP ou de qualquer outra das principais instituições de São Paulo, estamos aqui para te ajudar! No nosso blog, contamos tudo sobre como é a prova de residência médica da USP! Ainda separamos para você um material interessante, direto da Academia Medway: o e-book de 20 questões de Preventiva que caíram na prova teórica de residência da USP nos últimos anos.

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João Vitor

Capixaba, nascido em 90. Graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e com formação em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e Administração em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Apaixonado por aprender e ensinar.