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Coqueluche: uma velha conhecida dos pediatras em foco novamente

Fala, galera! Hoje nós vamos trazer para vocês um pouquinho sobre uma doença que, até pouco tempo atrás, estava mais restrita aos livros e não era tão comum encontrarmos na prática médica, principalmente na pediatria: a coqueluche.

Recentemente, observamos um aumento do número de casos, e lógico que isso virou um assunto muito cobrado nas provas de residência país afora. Neste post, vamos entender também por que isso vem acontecendo. Bora?

Para começar bem: revisando conceitos gerais de fisiopatologia 

Tenho certeza de que vocês já sabem, mas não custa relembrar. A coqueluche é uma doença de alta transmissibilidade que atinge o trato respiratório e é causada pela Bordetella pertussis, uma bactéria Gram-negativa transmitida através de aerossóis expelidos por indivíduos doentes

Tradicionalmente, a doença acomete lactentes, mas os casos em adolescentes aumentaram nas últimas décadas por conta da diminuição da cobertura vacinal de doses de reforço nos adultos jovens. Aqui no Brasil, o aumento dos casos vem se tornando mais expressivo desde 2008. Segundo dados do DATASUS, entre 2008 e 2014, quase 20.000 casos foram notificados em todo o país. Em 2010, na Califórnia, uma epidemia de coqueluche registrou aproximadamente 9.000 casos, com 70 óbitos em lactentes. 

Tanto a infecção quanto a vacinação geram imunidade duradoura, porém não permanente. Por isso, as doses de reforço são necessárias para bloquear a cadeia de transmissão e, consequentemente, diminuir o número de casos. 

Fases da coqueluche: apresentação clínica e peculiaridades

O tempo de incubação pode variar entre 7-10 dias, enquanto os sintomas variam de 15 dias a 4 semanas. A coqueluche é uma daquelas doenças que têm apresentação clínica clássica – e podem ter certeza que o quadro clínico é bem explorado nas questões de provas. 

Podemos dividir a coqueluche em três fases clínicas, com características bem marcantes em cada uma delas. Veja!

1. Fase catarral

Assim como qualquer infecção de vias aéreas superiores, nessa fase temos rinorreia, febre baixa, tosse seca e astenia

É a fase de maior transmissibilidade. Por seus sintomas serem confundidos com outras doenças respiratórias, o diagnóstico se torna mais complexo. Essa fase pode durar até 7 dias. 

2. Fase paroxística

Temos aqui a fase mais emblemática da coqueluche, justamente porque temos o sintoma mais marcante da doença: a tosse! Quem já teve a oportunidade de examinar um paciente com coqueluche, jamais esquece da tosse. 

A febre desaparece ou se torna mais branda, e surge a famosa “tosse comprida”. São acessos paroxísticos de tosse seca, com um guincho inspiratório alto, causado pelo esforço durante a inspiração, na tentativa de recuperar o fôlego. 

Na fase de maior intensidade dos sintomas, os pacientes chegam a apresentar até 30 crises de tosse ao dia, com predominância dos sintomas no período noturno. A tosse pode ser seguida de vômitos, dada a intensidade do sintoma. 

Ainda, durante as crises de tosse, podemos notar lacrimejamento, dispneia, hipoxemia, pletora facial e até cianose central. Em lactentes, podem surgir episódios de apneia, um sintoma muito grave e que demanda hospitalização imediata. 

3. Fase de convalescença

Nota-se a diminuição gradual dos paroxismos de tosse, bem como da intensidade dos sintomas. Geralmente, dura cerca de duas semanas até o desaparecimento dos sintomas, porém uma tosse leve residual pode durar até 6 semanas. 

Como fazer o diagnóstico da coqueluche

Apesar de ter um quadro clínico com características muito marcantes, não é difícil confundir a coqueluche com laringites ou traqueítes, principalmente na fase catarral. Dessa forma, a confirmação do diagnóstico pode ser feita através do PCR ou cultura de secreção nasofaríngea para Bordetella pertussis

Exames complementares como hemograma e provas de atividade inflamatória não são específicos, porém hemograma com leucocitose e predomínio de linfócitos é um achado frequente nos doentes. 

Vale lembrar: uma vez que você suspeitar de coqueluche, não perca tempo esperando o resultado do exame para iniciar o tratamento, visto o risco de desfecho desfavorável, principalmente em lactentes. Se existe a possibilidade, é mandatório iniciar o tratamento prontamente!

Um detalhe muito importante tanto na vida real quanto na prova: coqueluche é uma doença de notificação compulsória

Como é o tratamento de coqueluche

As recomendações mais recentes da Sociedade Brasileira de Pediatria estabelecem a azitromicina como primeira escolha. A dose geralmente é de 10 mg/kg por 5 dias. Em caso de indisponibilidade da primeira opção, claritromicina e eritromicina são alternativas. Já se o paciente for alérgico ou não tolerar macrolídeos, o sulfametoxazol + trimetoprim é a medicação recomendada. 

O tratamento também compreende avaliação cuidadosa do quadro clínico apresentado pelo paciente. Recém-nascidos, lactentes prematuros, com patologias cardíacas ou pulmonares devem ser hospitalizados para acompanhamento pelo risco de apresentarem quadros mais graves. 

Vale lembrar também que hipóxia, alteração do nível de consciência, sinais de má perfusão periférica, dispneia ou taquipneia com frequência respiratória são sinais clínicos de gravidade. Logo, pacientes que apresentarem esses sintomas devem ser hospitalizados para monitorização rigorosa.

Prevenção é o caminho para conter a coqueluche

A vacina para prevenção de coqueluche faz parte do Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde. Então, estamos diante de uma doença cuja prevenção primária é oferecida gratuitamente.

A vacina Pentavalente (Difteria, Tétano, Pertussis, Haemophilus B e Influenza) é ofertada aos 2, 4 e 6 meses de idade. Dois reforços são preconizados através da vacina DTP (Difteria, Tétano e Pertussis), administrada aos 15 meses e 4 anos. 

Para gestantes, o Ministério da Saúde instituiu a aplicação de uma dose da vacina DTPa (Difteria, Tétano e Pertussis acelular) após a 20ª semana de gestação, visando a proteção do recém-nascido até que seja imunizado de forma ativa. 

Estudos mostram que a não vacinação ou calendário vacinal incompleto é fator de risco para quadros mais graves. Então, não podemos bobear quando o assunto é vacinação! 

Recado final sobre a coqueluche

Galera, trouxemos informações bem resumidas pra vocês sobre essa doença que é muito frequente nas provas de residência. Diferentemente da vida real, as questões de prova que envolvem coqueluche trazem o quadro clínico característico. Então, sem desculpa para não dominar esse assunto. 

A mensagem final que nós queremos deixar para vocês é sobre algo que falamos bem no começo desse post. A coqueluche, assim como muitas outras doenças, é prevenível através de vacinas ofertadas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde no calendário nacional de imunizações. Garantir uma cobertura vacinal adequada é o caminho para a prevenção e diminuição no número de casos. 

Se quer saber mais sobre vacinação, temos um apanhado geral sobre o calendário na pediatria! Todos esses e outros temas bem mais aprofundados vocês encontram no nosso Extensivo para Residência Médica e no Intensivo São Paulo!

Tamo junto, rumo ao único lugar possível! 

Referências

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde. 2019.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento de Infectologia. Recomendações atuais sobre coqueluche. 2013.

YEH, Sylvia; MINK, ChrisAnna M. Pertussis infecction in infants and children, clinical features and diagnosis. UpToDate, 16 dez. 2020. Acesso: 10 out. 2021.

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