Demografia médica no Brasil: como estamos em relação a outros países?

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A Demografia Médica no Brasil 2025, coordenada por Mário Scheffer e seu grupo na Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Ministério da Saúde, é a mais recente edição de um levantamento quinquenal que acompanha há 15 anos a formação, a distribuição e a atuação dos médicos brasileiros.

Esta edição, lançada em abril de 2025, traz pela primeira vez comparativos diretos com mais de 50 países, oferecendo um panorama global para situar o Brasil no contexto internacional.

Apesar de ganhos expressivos na última década, o país ainda patina em indicadores-chave quando confrontado com nações de renda média e alta. A densidade médica per capita, a ecologia etária e de gênero, a relação entre especialistas e generalistas e o acesso efetivo a consultas médicas expõem avanços e gargalos que merecem atenção das políticas públicas de saúde. Confira lendo o conteúdo completo!

O que é a Demografia Médica?

A Demografia Médica no Brasil é um estudo periódico, conduzido desde 2010 pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que mapeia a evolução do contingente médico nacional.

Até 2021, era publicado a cada três anos; a partir de 2022, passou a ter periodicidade bienal para acompanhar com mais agilidade a dinâmica de oferta e demanda de profissionais.

A edição 2025 foi a primeira feita em parceria oficial com o Ministério da Saúde e a OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial de Saúde), ampliando o escopo nacional e inserindo o Brasil num comparativo de 55 países de todos os continentes.

Além de dados estatísticos brutos, o estudo traz análises sobre políticas de formação e regulação profissional, identifica áreas de escassez e propõe projeções de longo prazo para o estoque e a composição da força de trabalho médica até 2040.

Densidade de médicos no Brasil

O indicador “médicos por mil habitantes” é o mais usado para comparar recursos humanos em saúde entre países. Em 2025, o Brasil atingiu 2,01 médicos/1.000 habitantes, desempenho abaixo da média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE (3,60), porém acima da média da América Latina (1,85) e similar ao grupo de países de renda média alta (2,05).

No ranking global, o Brasil ocupa a 65ª posição dentre 195 nações; perde para Chile (3,60), Argentina (3,30) e Uruguai (3,10), mas supera Colômbia (1,25), Peru (1,10) e México (2,00).

Entre os 27 países latino-americanos, está no 15º lugar. Isso indica que, embora tenha elevado sua densidade em 40% na última década (passando de 1,44 /1.000 em 2015 para 2,01 /1.000 em 2025), o ritmo de expansão não foi suficiente para igualar vizinhos de perfil socioeconômico e sanitário semelhante.

Formação de novos médicos

A capacidade formativa brasileira saltou de 23.000 graduados em 2010 para 36.500 em 2024, crescimento de 58% em 14 anos. Mesmo assim, o índice de formação — 1,70 novos médicos por 1.000 habitantes/ano — permanece abaixo da média OCDE (2,50) e do grupo de países de renda média alta (2,00).

Em termos absolutos, só a Índia forma anualmente mais de 70.000 médicos, mas sua relação per capita (1,00) é baixa. Ajustando a população, Chile (2,10), Argentina (2,00) e Turquia (2,20) lideram a América Latina.

No Oriente Médio, países como Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita têm investido fortemente em centros de excelência e atração de estudantes estrangeiros, mas a taxa de formação per capita, até o momento, é pouco documentada.

Israel, por exemplo, mantém uma formação médica altamente seletiva, com foco em qualidade, enquanto países como Iêmen e Síria enfrentam evasão de profissionais e colapso de sistemas educacionais devido a guerras civis.

O grande motor do avanço brasileiro foram as recém-criadas 60 faculdades de Medicina no país nas duas últimas décadas, muitas delas em municípios pequenos, por força de políticas de interiorização do ensino médico.

Perfil dos médicos: idade e gênero

Na última década, o perfil dos médicos brasileiros passou por mudanças marcantes que ajudam a redesenhar o sistema de saúde.

Entre as transformações mais evidentes estão o rejuvenescimento da força de trabalho e a feminização da profissão, fenômenos que acompanham tendências globais, mas ganham características próprias no contexto nacional.

Ao analisar os dados da demografia médica no Brasil 2025, percebemos que essas duas dimensões — idade e gênero — revelam quem são os médicos no Brasil e refletem movimentos mais amplos associados à expansão do ensino médico, à inserção das mulheres nas ciências da saúde e às novas demandas da população.

Esse panorama, comparado com o de outros países, nos ajuda a entender onde estamos e quais caminhos precisam ser percorridos.

Idade

O médico brasileiro vem ficando mais jovem: a proporção de profissionais com menos de 35 anos passou de 22% em 2015 para 31% em 2025, graças ao aumento de vagas nos cursos.

No entanto, a média de idade (45,8 anos) ainda é superior à de países como Reino Unido (40,2) e Canadá (41,5), mas idêntica à de Argentina (45,7) e Uruguai (46,0).

No Médio Oriente, os dados são escassos, mas se sabe que países como Arábia Saudita e Emirados Árabes têm investido no rejuvenescimento da força de trabalho médica por meio de bolsas e programas de residência.

Gênero

Pela primeira vez na série histórica, as mulheres se tornaram maioria entre os médicos no Brasil, somando 50,9% do total em 2025. Em 2010, eram 41%.

A tendência feminina se reflete tanto no quadro geral quanto no corpo discente: as matrículas em Medicina tiveram 61,8% de mulheres em 2023, ante 53,7% em 2010.

No exterior, essa proporção é levemente maior no contexto OCDE (55%), mas inferior a países nórdicos como Suécia (60%) e Noruega (62%).

Contudo, países do Oriente Médio apresentam predominância masculina na profissão médica, sobretudo em contextos mais conservadores. No entanto, Israel, Líbano e Jordânia têm registrado crescimento expressivo na participação feminina, com taxas próximas a 45–50%.

Especialização vs. Generalistas

Os especialistas somam 59,1% do total de médicos registrados no Brasil, percentual ligeiramente abaixo da média OCDE (62,9%) e superior ao de alguns pares latino-americanos, como México (48%) e Colômbia (54%), mas atrás de Argentina (64%) e Chile (66%).

Entre as 55 especialidades regulamentadas no Brasil, sete concentram mais da metade dos especialistas:

Aproximadamente 63,7% desses títulos foram obtidos via residência médica e 36,3% por exames de sociedades científicas vinculadas à Associação Médica Brasileira (AMB).

Essa configuração representa um déficit de médicos de atenção primária (generalistas): enquanto no Brasil 40,9% dos médicos são generalistas, em nações como Reino Unido, Austrália e Canadá esse percentual chega a 55%.

A carência na base do sistema compromete a resolutividade e aumenta custos, pois empurra o atendimento à porta secundária e terciária.

Distribuição geográfica

Internamente, a concentração de médicos por região segue a lógica socioeconômica: Sudeste (24,5 /10.000 hab.), Sul (19,2), Centro-Oeste (14,7), Nordeste (9,8) e Norte (7,3). O Distrito Federal lidera isoladamente com 45,0/10.000, enquanto estados como Amazonas (6,4) e Maranhão (6,0) ficam no fim da fila.

Essa desigualdade regional, embora tenha diminuído de 5,5 vezes em 2015 para 3,7 vezes em 2025 (relação entre melhor e pior cobertura), ainda é maior do que em países europeus, onde o coeficiente raramente ultrapassa 2,0.

O padrão das grandes economias

No comparativo global, o Brasil repete o padrão de outras grandes economias continentais (Índia, China), com centros urbanos adensados e periféricos escassos de médicos.

Em nações menores, como Dinamarca ou Nova Zelândia, a dispersão tende a ser mais uniforme graças a políticas de fixação e incentivos fiscais a médicos que atuam em áreas remotas.

O cenário no Oriente Médio

No Oriente Médio, o cenário é igualmente heterogêneo. Países como Israel, Catar e Kuwait apresentam densidades de 3 médicos por 1.000 habitantes, comparáveis à média da OCDE. Já nações como Síria, Irã, Iraque e Iêmen registram apenas 1 médico por 1.000 habitantes, refletindo os impactos de conflitos prolongados e instabilidade política.

Em regiões como o Iêmen, a situação é crítica: além da baixa densidade médica, há escassez de infraestrutura básica e surtos recorrentes de doenças infecciosas.

Essa comparação evidencia que, embora o Brasil enfrente desafios internos, sua média nacional supera a de diversos países do Oriente Médio em situação de crise. Porém, está atrás de nações da região com alto investimento em saúde e políticas de atração de profissionais, como os Emirados Árabes Unidos e o Catar.

Uso e acessos: consultas médicas

O número de consultas médicas por habitante/ano revela a combinação de oferta e da cultura de procura por serviços. Em 2024, o brasileiro fez em média 3,2 consultas médicas, abaixo da média OCDE (6,7) e similar à de Rússia (3,5) e África do Sul (3,1), mas superior à de países como Índia (0,7) e China (2,5).

Considerando apenas o setor público, o Sistema Único de Saúde (SUS) provê cerca de 2,1 consultas/hab./ano, um avanço em comparação às 1,6 de 2015, mas ainda distante das 4,5 consultas/hab./ano do NHS britânico ou das 3,8 do sistema de saúde canadense.

A baixa frequência de contato primário acaba sobrecarregando emergências e favorece atrasos no diagnóstico de doenças crônicas, especialmente em regiões com baixa densidade médica.

Em suma, conforme apresenta a demografia médica no Brasil, o país vem ampliando seu parque de médicos em ritmo acelerado, com protagonismo feminino e rejuvenescimento do quadro profissional. Mesmo assim, continua atrás de países de perfil socioeconômico e sanitário comparável, seja em densidade médica, seja em acesso efetivo a consultas ou na distribuição interna desses recursos. Para avançar, é fundamental reforçar a formação de generalistas, expandir mecanismos de fixação em regiões carentes e aperfeiçoar redes de atenção primária.

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Alexandre Remor

Alexandre Remor

Foi residente de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) de 2016 a 2018. É um dos cofundadores da Medway e hoje ocupa o cargo de Chief Executive Officer (CEO). Siga no Instagram: @alexandre.remor