Diagnóstico da esquizofrenia: conheça mais sobre esse transtorno

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Bora, meu povo! Sejam muito bem-vindos ao segundo texto da nossa série sobre esse transtorno mental! Em nosso primeiro texto falamos sobre os sinais e sintomas. Hoje falaremos sobre o diagnóstico da esquizofrenia! 

Será possível diagnosticar esquizofrenia de forma rápida, assertiva e fácil?

A resposta é NÃO! Como falamos em nosso primeiro texto e como repetiremos até o final, os transtornos mentais são sempre desafiadores não apenas na Psiquiatria, mas na Medicina na totalidade! 

Devemos lembrar, sobretudo nos campos da mente, do pensamento, dos comportamentos, que não estamos tratando doenças, estamos tratando pessoas! Cada uma delas tem suas vidas, seus problemas, seus desafios e tudo isso deve ser considerado na hora do diagnóstico da esquizofrenia e o tratamento desses pacientes.

Enfim, o que causa a esquizofrenia?

Há evidências de que fatores genéticos e ambientais agem em conjunto no estabelecimento do transtorno. Os indivíduos predispostos geneticamente, quando influenciados por fatores ambientais estressantes (epigenéticos), por exemplo, trauma na infância e uso de drogas na adolescência, se tornam mais vulneráveis ao desenvolvimento do fenótipo característico desse transtorno. 

A participação de fatores genéticos é com certeza muito importante na esquizofrenia. Indivíduos sem nenhum familiar com o transtorno têm 1% de chance de desenvolverem a doença. Enquanto isso, em indivíduos com um familiar direto acometido, o risco é de 10%.

É importante ainda que a gente saiba que, dentre as bases biológicas, a hipótese dopaminérgica tem grande importância na literatura. O estímulo dopaminérgico excessivo no córtex cingulado anterior (via mesolímbica) provoca os sintomas positivos, enquanto baixos níveis de estímulo de dopamina no lobo frontal dorsolateral (via mesocortical) provoca sintomas negativos e comprometimento cognitivo.

Calma! Se você se perdeu com essa informação de sintomas positivos e negativos, lembre que falamos um pouco mais sobre eles no primeiro artigo sobre o quadro clínica da esquizofrenia, entre lá para aprofundar!

Embora as primeiras manifestações do transtorno apareçam na parte final da adolescência ou no início da vida adulta, múltiplas evidências indicam que sua patogenicidade começa no início do neurodesenvolvimento.

Mas, atenção! Há evidências de que o uso de maconha esteja associado ao início precoce do transtorno. Num primeiro episódio de psicose e nas pessoas com diagnóstico da esquizofrenia, é muito comum encontrarmos o uso de maconha na história.

E o diagnóstico da esquizofrenia?

O diagnóstico é essencialmente clínico e, por isso, é importante ser feita uma anamnese cuidadosa, além de realizar o exame do estado mental. 

Devemos avaliar o paciente no geral, com sua aparência e também suas posturas e atitudes, principalmente suas atitudes em relação ao entrevistador no momento do exame. O paciente é cooperante, indiferente, passivo, fóbico, agressivo, petulante, cabisbaixo, dissimulado, inseguro, histriônico, sedutor, dentre outros…

Depois disso, avaliamos: nível de consciência, estado cognitivo, pensamento, linguagem, sensopercepção, humor/afeto, psicomotricidade. E, claro que não podemos deixar de lado a avaliação das funções psicofisiológicas, como sono, apetite/dieta, sexualidade…

FUNÇÕES MENTAIS CARACTERÍSTICAS E FUNÇÕES MENTAIS A SEREM AVALIADAS
Nível de consciência Estado de lucidez em que a pessoa se encontra. Inclui o reconhecimento da realidade externa ou de si mesmo em determinado momento e a capacidade de responder a estímulos.
Vígil: abertura ocular espontânea, estado alerta e responsivo.
Sonolência: lentificação dos processos ideacionais.
Torpor: dormindo, exceto quando estimulado.
Coma: não pode ser acordado.
Estado cognitivo Orientação Orientação autopsíquica: em relação à pessoa.
Orientação alopsíquica: em relação ao tempo e espaço.
Atenção Capacidade de centrar-se em uma atividade.
Vigilância: compreende a manutenção de um foco de atenção para estímulos externos. Pode estar aumentada (hipervigilante) ou diminuída (hipovigilante).
Tenacidade: capacidade em manter-se em uma tarefa específica.
Concentração: capacidade de manter a atenção voluntária, em processos internos de pensamento ou em alguma atividade mental.
Memória Capacidade de registrar, fixar ou reter, evocar e reconhecer objetos, pessoas, experiências ou estímulos sensoriais.
Memória imediata: que cobre os últimos 5 minutos.
Memória recente: engloba os últimos dias e horas.
Memória remota: desde os primeiros anos de vida.
Inteligência Conjunto de habilidades cognitivas resultante dos diferentes processos intelectivos. Inclui raciocínio, planejamento, resolução de problemas, pensamento abstrato, compreensão de ideias complexas, aprendizagem rápida e aprendizagem a partir da experiência. Para avaliação, utiliza-se a comparação com a média esperada para o grupo sócio-culturas e para a faixa etária do indivíduo.
Raciocínio lógico.
Capacidade de fazer contas.
Dificuldades em estudar.
Capacidade de abstração: de formar conceitos e ideias, compará-los, relacioná-los.
Capacidade de generalização: perguntar sobre grupo de coisas, animais.
Juízo crítico: capacidade de perceber e avaliar adequadamente a realidade externa e separá-la dos aspectos do mundo interno ou subjetivo. Inclui a aptidão para autoavaliação adequada e uma visão realista de si mesmo.
Pensamento Conjunto de funções integrativas capazes de associar conhecimentos novos e antigos, integrar estímulos externos e internos, analisar, abstrair, julgar, concluir, sintetizar e criar.
O pensamento é avaliado, por meio da linguagem, nos seguintes aspectos:
FORMA: relação e nexo das ideias entre si.
Coerência: construção das frases em relação à sintaxe.
Logicidade: pensamento fundado na realidade.
Circunstancialidade: alteração na qual há expressão do pensamento por meio de detalhes irrelevantes e redundantes, porém o paciente consegue chegar ao objetivo.
Tangencialidade: o objetivo nunca é alcançado, ou não é claramente definido; embora o paciente fique sempre próximo ao que seria sua meta.
Fuga de ideias: associações tênues ou livres
FLUXO: velocidade com que as ideias passam pelo pensamento (acelerado, lentificado, adequado, ou bloqueado).
CONTEÚDO: neste item investigam-se os conceitos emitidos pelo paciente e sua relação com a realidade.
Conteúdo predominante.
Preocupações.
Obsessões.
Ideação suicida ou homicida.
Presença de delírios (falsa crença não compartilhada por membros do grupo sócio-cultural). Nestes casos, deve ser elucidado o conteúdo do delírio.
Linguagem É o modo de se comunicar. Envolve linguagem verbal, gestos, olhar, expressão facial e escrita. A linguagem falada é o principal ponto de observação.
Quantidade: pode demonstrar um indivíduo em mutismo, monossilábico, prolixo, não espontâneo, etc.
Velocidade: pode ser rápida, lenta, hesitante, latência para iniciar respostas.
Qualidade: conteúdo do discurso (pobre, elaborado), alterações na articulação das palavras, neologismo (criação de novas palavras), ecolalia (repetição da última ou das últimas palavras dirigidas ao paciente).
Volume: alto ou baixo.
Sensopercepção Designa a capacidade de perceber e interpretar os estímulos que se apresentam aos órgãos dos cinco sentidos. Quando alterada pode manifestar-se mediante:
Ilusões: ocorrem quando os estímulos sensoriais reais são confundidos ou interpretados erroneamente. Ex.: confundir a imagem de uma pessoa com outra.
Alucinações: ocorrem quando há percepção sensorial na ausência de estímulo externo (percepção sem objeto). Ex.: ouvir vozes sem que haja estímulo auditivo.
Obs: estar atento a sinais sugestivos de alucinações, mesmo quando o cliente as nega.
Despersonalização: alteração na percepção de si próprio, manifestada por sentimentos de estranheza ou irrealidade.
Desrealização: alteração na percepção do meio ambiente.
Humor/afeto HUMOR: estado emocional de longa duração, interno, não dependente de estímulos externos. É a tonalidade de sentimento predominante. Pode influenciar a percepção de si mesmo, e do mundo ao seu redor.
AFETO: experiência imediata e subjetiva das emoções sentidas em relação à situação. Inclui a manifestação externa da resposta emocional do paciente a eventos. Avalia-se o humor/afeto pela expressão facial, gestos, tonalidade afetiva da voz, conteúdo do discurso e psicomotricidade, choro fácil, risos imotivados, etc. Avaliar:
Qualidade do afeto: tristeza, culpa, alegria, vergonha, etc.
Modulação do afeto: hipermodulação, hipomodulação, embotamento, rigidez.
Tonalidade afetiva: hipotimia (sintomas depressivos), hipertimia (euforia), disforia (tonalidade afetiva desagradável, mal-humorada).
Psicomotricidade Integração das funções motrizes e mentais sob o efeito da educação e do desenvolvimento do sistema nervoso. Avaliar: –
Velocidade e intensidade da mobilidade geral na marcha, quando sentado e na gesticulação.
Agitação ou retardo.
Acatisia (movimento de “amassar barro”).
Maneirismos (movimentos involuntários estereotipados).
Tiques (movimentos involuntários e espasmódicos).
Presença de sinais de catatonia (obediência automática, flexibilidade cérea).

Fonte:https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3596396/mod_resource/content/1/ORIENTACOES_PARA_EXAME_PSIQUITRICO.pdf.

O DSM-5 define os critérios diagnósticos para esquizofrenia: são necessários pelo menos seis meses de sinais contínuos de perturbação. Durante ao menos um mês desse período, pelo menos dois dos seguintes sintomas estão presentes e pelo menos um dos sintomas deve ser: delírios, alucinações ou discurso desorganizado. Veja como podemos perguntar ao paciente para identificar os sintomas:

  1. Delírios: alguém está tentando te machucar? Quando você está lendo um livro ou assistindo TV, você chega a pensar que há mensagens destinadas somente para você? Você tem poderes ou capacidades especiais?
  2. Alucinações: quando acordado, você já ouviu uma voz diferente do que seus próprios pensamentos e que as outras pessoas não conseguem ouvir? Quando acordado, já viu coisas que outras pessoas não podem ver?
  3. Discurso desorganizado com incoerências frequentes.
  4. Comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico.
  5. Sintomas negativos, como expressão emocional diminuída ou abulia.

Aprendeu sobre o diagnóstico da esquizofrenia?

Calma!!! Esse é assunto para nosso próximo (e último) texto! Ansiosos? Espero que sim. Mas, enquanto isso, não fiquem sem conteúdo! Aproveitem nosso Blog e os vários conteúdos que temos por lá! Espero que tenham gostado, nos vemos bem em breve para falar do tratamento da esquizofrenia!

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LarissaMenezes

Larissa Menezes

Nascida em Franca/SP, em 92, formou-se em medicina pela PUC-Campinas, em 2018. Especialista em Clínica Médica pela UNICAMP e completamente apaixonada por essa área cheia de detalhes e interpretações. Filha de professora e de um ávido leitor, cresceu com muito amor pelo ensino também, unindo essa paixão à medicina.