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Episódio hipomaníaco: tudo que você precisa saber

Uma das discussões que não poderiam ficar de fora do nosso blog é sobre o hipomaníaco. Esse tema é essencial para a Psiquiatria e para o entendimento do diagnóstico da hipomania. 

Esse tópico é muito mais complexo do que se imagina. Um dos principais motivos para aprofundar-se nos conceitos de hipomania e transtorno bipolar do tipo II está na possibilidade de evitar suicídios. Então, a seguir, veja como é o comportamento de um hipomaníaco e descubra mais sobre esse transtorno. 

Critérios de diagnósticos para transtornos mentais

Para iniciar os estudos sobre o hipomaníaco, é importante entender quais são os critérios diagnósticos. Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª Edição), de forma resumida, há as seguintes categorizações:

  • transtorno bipolar do tipo I: presença de episódio de mania, com ou sem episódios depressivos;
  • transtorno bipolar do tipo II: presença de episódio de hipomania com episódios depressivos maiores;
  • transtorno depressivo maior: presença de episódio depressivo maior sem episódios de mania ou hipomania.

Depois de entender essa divisão, é hora de ler sobre a perigosa correlação entre transtorno bipolar do tipo II e suicídio. Pessoas com transtorno bipolar (do tipo I ou II) apresentam um risco 15 vezes maior de suicídio que a população geral. De fato, acredita-se que 25% de todos os casos de suicídio ocorram em pessoas com transtorno bipolar. 

A prevalência de tentativas de suicídio ao longo da vida é semelhante (por volta de 33%) entre pessoas com transtorno bipolar do tipo I e II. Porém, a letalidade pode ser maior em pacientes com transtorno bipolar do tipo II.

Alguns estudos ainda indicam que as pessoas que apresentam hipomania, sem episódios de mania, tendem a consumar o suicídio de forma mais frequente. Isso torna o tema mais preocupante.

Importância de identificar a hipomania

É importante saber identificar episódios de hipomania, pois os de mania são mais difíceis de deixar passar, tendo em vista a extravagância das ações de alguém em tal estado. 

A urgência vem do fato de que tratar um episódio depressivo em uma pessoa com transtorno bipolar do tipo II do mesmo jeito que alguém com transtorno depressivo maior gera alguns problemas graves.

Primeiro, porque os antidepressivos são pouco eficazes no tratamento de depressão no contexto de bipolaridade. Além disso, essa classe de medicamentos pode induzir à manifestação de um episódio de mania ou hipomania, caso a pessoa sofra, na verdade, de transtorno bipolar. 

Diante do exposto sobre hipomania e suicídio, tendo em mente que o transtorno bipolar do tipo II não é um transtorno do tipo I mais leve, vamos seguir aos pontos essenciais do diagnóstico de um episódio de hipomania. 

Semelhanças entre mania e hipomania

Segundo o DSM-5, há características comuns entre um episódio de mania e um de hipomania. Em ambos os casos, há um período de humor elevado, expansivo e irritável. Além disso, ocorre aumento da atividade ou da energia. Três ou mais desses sintomas aparecem: 

  • autoestima inflada ou grandiosidade;
  • redução da necessidade de sono;
  • mais falante do que o habitual;
  • fuga de ideias ou sensação de que os pensamentos estão acelerados;
  • distrabilidade;
  • aumento da atividade dirigida a objetos (no trabalho, na escola ou no sexo) ou agitação psicomotora;
  • envolvimento excessivo em atividades arriscadas (como investimentos insensatos ou indiscrições sexuais).

Vale lembrar que o episódio em questão não é atribuível aos efeitos de uma substância ou uma condição médica. Em resumo, tanto a mania quanto a hipomania definem-se por um humor hipertímico, ou seja, modulado para cima. 

Esse humor hipermítico está associado a um aumento da energia ou da atividade e é somado a alguns sintomas específicos, que manifestam essas alterações, como redução da necessidade de sono e ideias de grandiosidade. 

Para configurarem um quadro de episódio maníaco ou hipomaníaco, tais comportamentos devem fugir ao padrão daquele indivíduo, acontecendo de modo consistente e patológico por um certo período.

Outros sintomas

O segundo critério pede quatro sintomas no caso de humor exclusivamente irritável, porque a irritabilidade é uma característica tanto de um episódio depressivo quanto de um episódio maníaco ou hipomaníaco. O humor elevado ou expansivo é típico dos episódios maníacos ou hipomaníacos. 

Por “atividade dirigida a objetos”, o DSM refere-se à realização em excesso. Por exemplo, estudar por horas e, em seguida, emendar mais de 36 horas de plantão, escrever ou desenhar com intensidade, por tempo muito maior que o habitual, etc. 

Virada maníaca

Atualmente, entende-se que um quadro de mania/hipomania que surge durante o tratamento com antidepressivos ou eletroconvulsoterapia, mas cujos efeitos se estendem após o tempo de ação usual desses tratamentos é evidência de episódio maníaco ou hipomaníaco. 

Ou seja, se uma pessoa com um quadro depressivo usa um inibidor seletivo de recaptação de serotonina e começa a ter um comportamento compatível com mania/hipomania, ela será diagnosticada com um dos transtornos se esse comportamento for mantido após a suspensão do antidepressivo. 

Essa é a famosa virada maníaca. Ela é chamada assim porque alguém tido como unicamente depressivo, como no exemplo anterior, “vira maníaco”, ou seja, demonstra ser bipolar, de fato. 

Imagens de mania e hipomania

É difícil trazer ilustrações de mania/hipomania que não sejam estigmatizantes. A personagem Alegria, do filme Divertidamente, apresenta algumas características de mania/hipomania, como:

  • euforia constante;
  • excesso de energia;
  • fala excessiva;
  • atividade aumentada, sempre com ideias e ação de alguma coisa.

A alteração de humor na mania/hipomania pode ser elevada ou expansiva e irritável. Enquanto um paciente pode estar disfórico, criticando tudo o que faz, outro pode estar superanimado. 

Aqui, cabe uma correção em relação às imagens empregadas: como as personagens Alegria e Raiva comportam-se dessa maneira (humor elevado ou irritável) continuadamente, elas não cumprem critérios para o diagnóstico de episódio maníaco ou hipomaníaco. Isso porque não se trata de algo episódico. 

O que é mania?

Geralmente, um episódio de mania produz histórias inusitadas. Alguns exemplos são comprar quantidades grandes de um mesmo produto, cometer uma traição e apresentar quadro psicótico. 

Apesar dos casos serem engraçados para alguns, é algo que traz implicações negativas para a pessoa. Ela pode contrair uma dívida, terminar um relacionamento amoroso ou perder o emprego. 

A pessoa não está agindo dessa forma com plena consciência dos atos, já que está, como diriam os advogados, inimputável em decorrência do transtorno mental. 

Para definir o que é mania, além dos critérios apresentados anteriormente para episódio maníaco ou hipomaníaco, é necessário preencher um dos requisitos abaixo:

  • duração do quadro por sete dias ou mais, presente quase todos os dias, ou necessidade de hospitalização;
  • prejuízo significativo no funcionamento social ou profissional;
  • sintomas psicóticos.

Os sintomas por sete ou mais dias, sem gravidade maior, sem psicose e sem necessidade de hospitalização, não configuram episódio maníaco por si só. Portanto, observe-os atentamente. 

Diagnóstico de um episódio hipomaníaco

Além de saber as semelhanças entre os dois transtornos, é essencial conhecer como diagnosticar e entender o que é hipomania. Segundo o DSM-5, um episódio hipomaníaco é caracterizado por:

  • duração mínima de quatro dias, quase todos os dias;
  • quadro associado a uma mudança clara no funcionamento usual da pessoa;
  • perturbação do humor e do funcionamento observável por outras pessoas;
  • não há prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional, nem necessidade de hospitalização ou características psicóticas.

Uma pessoa com humor expansivo, redução da necessidade de sono, conversa em excesso e ideias de grandiosidade por sete dias ou mais não apresenta um episódio de mania, mas de hipomania. Lembre-se que tempo não é critério suficiente para diagnóstico de episódio maníaco.

Transtorno bipolar do tipo II

Já no caso do transtorno bipolar do tipo II, é preciso relembrar os requisitos do diagnóstico do transtorno bipolar do tipo I. Também é necessário preencher os critérios para um ou mais episódios maníacos e seguir os seguintes requisitos para o diagnóstico:

  • preencher critérios para um ou mais episódios hipomaníacos;
  • jamais haver um episódio maníaco;
  • ocorrência de episódios hipomaníacos e depressivos maiores não melhor explicados por outro transtorno mental;
  • quadro depressivo ou alternância entre períodos de depressão e hipomania que cause sofrimento ou prejuízo na vida do indivíduo.

Assim, para diagnosticar um caso de transtorno bipolar do tipo II, é necessário observar a combinação de: quadro de hipomania, episódio depressivo maior, sofrimento sem prejuízo grave e hipótese mais provável. 

Geralmente, a maioria dos pacientes com transtorno bipolar do tipo II procura atendimento médico por sintomas depressivos, não reconhecendo os sinais de hipomania como patológicos. Os pacientes com transtorno bipolar do tipo I tendem a apresentar mais episódios hipomaníacos que pacientes com transtorno bipolar do tipo II. 

Por fim, não importa quão frequentes ou graves sejam os episódios depressivos de uma pessoa, se ela apresentou um único episódio maníaco ou hipomaníaco, será considerada alguém com transtorno bipolar dali em diante. 

Como proceder em uma consulta?

Nos atendimentos, é importante que os sintomas de hipomania e mania sejam investigados em todo o quadro de depressão, pois a presença pode alterar o diagnóstico e o tratamento.

Uma pergunta essencial na investigação é sobre a necessidade reduzida de sono, já que essa manifestação é comum em episódios de mania ou hipomania. Quando sintomas depressivos forem mencionados, outra pergunta é se a pessoa já se sentiu do modo oposto. 

Um dado interessante: os familiares de um paciente depressivo costumam afirmar os mesmos sintomas que o paciente aponta sozinho. Enquanto os parentes de alguém com transtorno bipolar costumam descrever o dobro dos sintomas que o paciente aponta sozinho.

Então, além de fazer a anamnese com o paciente com sintomas depressivos, é importante entrevistar os familiares. No exame psíquico, esteja atento ao humor, à psicomotricidade, ao fluxo do pensamento e à atenção, dividida em tenacidade e vigilância.

A primeira pergunta diz respeito à capacidade de manter o foco em uma conversa, por exemplo. Já a segunda aponta para a capacidade de detectar alterações no ambiente. Um indivíduo em episódio maníaco ou hipomaníaco apresenta-se hipotenaz e hipervigil, ou seja, não consegue manter o foco na conversa, mas fica superatento a cada mínimo detalhe ao redor. 

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MateusFranco

Mateus Franco

Sou médico e clínico geral formado pela UNIFESP. Gosto de ler, de conversar sobre política e de trabalhar com educação.