O espectro da placenta acreta refere-se a uma condição obstétrica grave caracterizada pela aderência excessiva da placenta ao miométrio.
Esta patologia é uma das principais causas de hemorragia puerperal maciça e histerectomia periparto, exigindo diagnóstico precoce e planejamento multidisciplinar.
Definição e fisiopatologia do Espectro da Placenta Acreta
A placenta acreta ocorre devido a uma ausência, deficiência ou alterações estruturais da decídua basal do endométrio. Fisiopatologicamente, essa falha na interface uteroplacentária permite que as vilosidades coriônicas invadam o músculo uterino, podendo atingir a serosa ou órgãos adjacentes.
Esse processo é geralmente desencadeado por cicatrizes uterinas prévias, que impedem a decidualização adequada e resultam em uma placentação invasiva e de alto risco hemorrágico..
Classificação do Espectro de Acretismo Placentário
A gravidade da invasão determina a classificação clínica da patologia:
- Placenta Acreta: As vilosidades estão fixadas diretamente ao miométrio, sem invadi-lo profundamente. Corresponde a cerca de 75-80% dos casos.
- Placenta Increta: Ocorre a invasão das vilosidades para o interior do miométrio.
- Placenta Percreta: A forma mais grave, onde a placenta atravessa todo o miométrio e pode atingir a serosa uterina ou órgãos adjacentes, como a bexiga.
Fatores de risco do Espectro da Placenta Acreta
A identificação precoce de gestantes de alto risco é o primeiro passo para o manejo adequado.
Os principais fatores são:
- Cicatriz de Cesárea Prévia: O risco aumenta exponencialmente com o número de cirurgias, por exemplo, o parto cesárea.
- Placenta Prévia: Quando associada a uma cicatriz de cesárea anterior, o risco de acretismo é superior a 10%.
- Idade Materna Avançada: Especialmente acima dos 35 anos.
- Procedimentos Uterinos: Curetagens repetidas, miomectomias ou síndrome de Asherman.
- Adenomiose: fragiliza a zona juncional do endométrio, facilitando a penetração profunda das vilosidades coriônicas no miométrio.
Diagnóstico e sinais ultrassonográficos
O diagnóstico é predominantemente realizado através da ultrassonografia (USG) obstétrica com Doppler, sendo sua triagem inicial entre a 20ª e 24ª semana de gestação.
Frente ao diagnóstico definitivo de placenta prévia, que se dá às 28 semanas de gestação, inicia-se o processo formal de investigação do nível de adesão placentária ao miométrio.
Sinais ultrassonográficos típicos
- Lacunas placentárias: Áreas anecoicas no interior da placenta com fluxo turbulento ao Doppler (“aparência de queijo suíço”).
- Perda da zona hipoecoica retroplacentária: Ausência do espaço normal entre a placenta e o miométrio.
- Adelgaçamento do miométrio.
- Hipervascularização da interface serosa-bexiga: Sinal de possível placenta percreta.
Nota: A Ressonância Magnética (RM) pode ser utilizada como exame complementar em casos de dúvida diagnóstica ou quando a placenta é de localização posterior, o que dificulta sua avaliação ultrassonográfica. Lembre-se: essa Ressonância é sem contraste!
Manejo clínico e cirúrgico do Espectro da Placenta Acreta
O tratamento padrão-ouro para o espectro da placenta acreta é a histerectomia abdominal total eletiva intraparto, mantendo a placenta in situ para evitar sangramentos catastróficos.
Ou seja, realiza-se o parto e, após o clampeamento do cordão, rafia-se o útero e se prossegue com a histerectomia.
Pontos-chave do planejamento
- Idade Gestacional: O parto é geralmente programado entre 34 e 36 semanas para evitar o início do trabalho de parto espontâneo.
- Equipe Multidisciplinar: Presença de obstetras experientes, urologistas, cirurgiões vasculares e equipe de hemoterapia robusta.
- Manejo Conservador: Em casos selecionados (desejo de prole futura e níveis mais brandos de invasão endometrial), existem pontos hemostáticos endometriais, como a sutura de Cho, B-Lynch e Hayman, por exemplo (suturas que transfixam as paredes anterior e posterior, promovendo a compressão do miométrio e a obliteração do espaço vascular).
Referências Bibliográficas
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Practice Bulletin No. 190: Placenta Accreta Spectrum.
- FIGO classification for the clinical diagnosis of placenta accreta spectrum disorders.
- Conteúdo base: Medway (2026). Placenta Agreta: Um conceito que você precisa conhecer.