A Surviving Sepsis Campaign publicou, a nova atualização de suas diretrizes para manejo da sepse e do choque séptico: o Guideline Sepse 2026. O documento que serve como principal referência global para médicos que atuam em pronto atendimento, enfermarias e unidades de terapia intensiva.
A nova versão atualiza o manejo da sepse e do choque séptico em adultos e reforça uma mensagem central: sepse continua sendo uma emergência médica tempo-dependente, mas o cuidado de qualidade vai muito além de administrar antibiótico e volume.
O documento traz recomendações desde o reconhecimento inicial até transições de cuidado e recuperação pós-alta, com uma abordagem mais refinada, mais centrada no risco clínico e mais preocupada com stewardship antimicrobiano e uso racional de recursos.
A diretriz mantém a definição de sepse como disfunção orgânica aguda com risco de vida decorrente de infecção e de choque séptico como o subgrupo com disfunção circulatória associada a maior risco de morte.
Ao mesmo tempo, deixa claro que o diagnóstico continua sendo clínico e deve ser adaptado ao contexto local, sem depender exclusivamente de um escore, biomarcador ou teste isolado.
Continue a leitura para conferir as principais atualizações do documento!
CONFIRA O GUIDELINE NA ÍNTEGRA
A Surviving Sepsis Campaign (SSC) reúne especialistas internacionais para elaborar recomendações baseadas em evidências sobre o cuidado de pacientes com sepse. Esses guidelines são amplamente utilizados como base para:
A atualização de 2026 mantém o compromisso com medicina baseada em evidências, mas avança ao incorporar também aspectos de organização do cuidado, um ponto que ganha protagonismo nesta versão.
Uma das mensagens mais importantes do SSC 2026 é que hospitais e sistemas de saúde devem ter programas estruturados de melhoria de desempenho para sepse, com triagem, protocolos assistenciais e estratégias de qualidade.
A diretriz também passa a sugerir o uso de “code sepsis” ou “sepsis huddle”, isto é, uma resposta multidisciplinar organizada para acelerar diagnóstico e tratamento. Na prática, isso se aproxima bastante da lógica do time de resposta rápida, que muitos alunos já conhecem do plantão e da enfermaria.
No ambiente hospitalar, a diretriz reforça que o SOFA não deve ser usado como ferramenta única de triagem. Em vez disso, recomenda utilizar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS como ferramentas de screening em pacientes hospitalizados.
O qSOFA continua com utilidade para sinalizar deterioração clínica, mas tem baixa sensibilidade para triagem de sepse quando usado isoladamente.
Em outras palavras: o SOFA ajuda a caracterizar disfunção orgânica e o qSOFA pode chamar atenção para gravidade, mas nenhum dos dois deve ser a única ferramenta de screening.
Outro ponto forte é o alerta contra o uso excessivamente simplificado de biomarcadores. O guideline afirma explicitamente que sepse é diagnóstico clínico e não deve ser confirmada nem excluída por um único biomarcador ou teste.
Também não há recomendação formal para uso rotineiro dos novos testes rápidos de resposta do hospedeiro, porque ainda falta evidência robusta de impacto em desfechos clínicos relevantes.
O tema antibiótico continua central, mas o SSC 2026 ficou mais sofisticado. O documento diferencia melhor cenários de choque séptico, sepse provável/definida sem choque e sepse apenas possível sem choque.
Essa é, provavelmente, a parte que mais tem chance de aparecer na prova.
Para facilitar:
Além disso, para pacientes com baixa probabilidade de infecção e sem choque, a diretriz sugere adiar antibiótico, desde que haja reavaliação clínica próxima.
Na prática, isso ajuda a reduzir dois erros clássicos: atrasar antibiótico em pacientes graves e, no extremo oposto, antibiótico indiscriminado em qualquer paciente instável com possibilidade remota de infecção. É uma diretriz que tenta equilibrar rapidez com stewardship.
O documento reforça que hemoculturas devem ser colhidas o mais rápido possível, idealmente antes do antibiótico, desde que isso não atrase o tratamento. Também sugere dosar lactato em adultos com sepse possível ou provável.
Nos casos já claramente definidos, o lactato segue relevante no monitoramento e na avaliação da hipoperfusão, mas a recomendação enfatiza sua utilidade principalmente na fase de suspeita clínica e estratificação inicial.
Além disso, a diretriz mantém o princípio de que sepse e choque séptico são emergências médicas e que ressuscitação e tratamento devem começar imediatamente.
Na parte hemodinâmica, a diretriz mantém a sugestão de administrar pelo menos 30 mL/kg de cristalóide intravenoso nas primeiras 3 horas em adultos com hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico.
Mas agora o texto enfatiza mais fortemente que esse volume deve ser interpretado à luz do contexto clínico, com reavaliações frequentes para evitar tanto sub-ressuscitação quanto ressuscitação excessiva.
O SSC 2026 também reforça que os cristalóides são o fluido de primeira linha. Entre eles, sugere usar cristalóides balanceados em vez de soro fisiológico 0,9% na ressuscitação inicial, exceto em situações específicas, como traumatismo cranioencefálico, nas quais o soro fisiológico pode ser preferível.
Além disso, sugere usar cristalóides isoladamente em vez de associá-los rotineiramente à albumina suplementar, embora a albumina possa ser considerada em cenários selecionados, como pacientes que já receberam grandes volumes de cristalóide ou pacientes com cirrose. E mantém recomendação contra o uso de amidos.
Outro ponto importante é a relação entre fluidos e vasopressores. O SSC 2026 sugere começar com bolus de cristalóide e adicionar vasopressor se a hipotensão persistir. Mas admite que, em choque instável, a administração precoce e concomitante de vasopressor pode ser necessária caso a caso.
Além disso, a diretriz sugere iniciar vasopressor por acesso periférico, em vez de atrasar o início aguardando acesso venoso central. Isso tem grande implicação prática: diante de choque séptico, o atraso para “esperar o central” não é desejável.
A norepinefrina segue como vasopressor principal. Se a necessidade de suporte aumentar, o documento sugere adicionar vasopressina e, se a PAM seguir inadequada, adicionar epinefrina. Caso a vasopressina não esteja disponível, a epinefrina pode ser adicionada diretamente à norepinefrina.
A recomendação principal segue sendo a meta inicial de PAM de 65 mmHg em adultos com choque séptico. Mas a novidade é que o guideline agora também sugere uma faixa inicial de 60–65 mmHg para adultos com 65 anos ou mais, com base em evidências recentes sugerindo possível benefício de alvos mais baixos nesse grupo.
Isso não significa aceitar hipoperfusão, e sim reconhecer que perseguir pressões mais altas com mais vasopressor nem sempre traz benefício e pode até gerar dano.
O SSC 2026 reforça que o paciente com sepse ou choque séptico deve ser rapidamente avaliado quanto à necessidade de controle de foco anatômico. Quando houver foco drenável ou passível de intervenção, a diretriz sugere source control o mais rápido possível, idealmente de forma emergente e após ressuscitação inicial adequada.
O documento enfatiza urgência, mas sem fixar o mesmo alvo rígido de 6 horas usado para admissão em UTI. Esse detalhe importa: o timing de 6 horas aparece de forma mais clara na recomendação de admissão à UTI, e não como regra formal única para todo controle de foco.
Quanto à escolha do esquema antimicrobiano, a diretriz explicita melhor a lógica baseada em risco. Para pacientes com alto risco de um patógeno multirresistente específico, sugere-se cobertura empírica contra esse agente.
Para pacientes com baixo risco, sugere-se não ampliar empiricamente só por precaução. O mesmo raciocínio vale para anaeróbios: não usar cobertura anaeróbia rotineiramente sem fatores de risco, mas incluí-la quando houver contexto típico, como infecção intra-abdominal, ginecológica/obstétrica profunda, infecção necrosante de partes moles, infecção de cabeça e pescoço ou empiema/abscesso de SNC.
Também sugere contra antifúngico empírico universal, reservando seu uso para pacientes selecionados com maior risco de infecção fúngica.
Talvez uma das áreas em que o SSC 2026 mais amadureceu seja fora da fase aguda. A diretriz dedica capítulos específicos a objetivos de cuidado, transições assistenciais e desfechos de longo prazo.
Recomenda que equipes envolvam pacientes e familiares no planejamento de alta, forneçam resumo verbal e escrito da internação, expliquem sequelas comuns pós-sepse e planejem seguimento para novos déficits físicos, cognitivos e emocionais.
Também orienta triagem de necessidades sociais e econômicas e reconciliação medicamentosa nas transições de cuidado, idealmente com participação do farmacêutico quando possível.
Além disso, o guideline sugere que sobreviventes de sepse tenham oportunidade de receber acompanhamento pós-hospitalar e, em pacientes que permaneceram em ventilação mecânica por mais de 48 horas, sugere oferta de reabilitação física após a alta. Esse é um dos pontos mais modernos da diretriz: sobreviver à sepse não encerra o problema. Muitos pacientes evoluem com limitações físicas, ansiedade, sintomas de TEPT, readmissões e perda funcional prolongada.
O Surviving Sepsis Campaign 2026 não rompe com os princípios clássicos do tratamento da sepse, mas refina vários deles.
A nova diretriz reforça que:
Também aprofunda o raciocínio sobre cobertura antimicrobiana, controle de foco, stewardship e, principalmente, recuperação após a internação.
Resumindo, o SSC 2026 deixa a abordagem da sepse mais individualizada, mais pragmática e mais longitudinal. Para a prática clínica, isso significa cuidado mais inteligente.
Para as provas de 2026/2027, o examinador tende a cobrar justamente essa diferenciação de conduta baseada na probabilidade clínica e na gravidade, e não mais uma conduta única em formato de “receita de bolo” para todos.
Gostou do conteúdo? Continue acompanhando nosso blog para mais atualizações. Aproveite também para fazer o teste grátis dos Extensivos Medway e ter acesso aos recursos que levaram a mais de 20 mil aprovações em todo o país!
Entusiasta de café, formado pela Universidade de Taubaté em 2020, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Ipiranga (2023-2025). Atualmente, residente de Reumatologia no IAMSPE.