Conteúdo atualizado em: 08/06/2026 – A hipertensão intracraniana é uma síndrome neurológica potencialmente fatal, caracterizada pelo aumento da pressão dentro do crânio e pelo risco de redução da perfusão cerebral, lesão secundária e herniação encefálica.
Na prática clínica, a suspeita deve ser imediata diante de cefaleia progressiva, vômitos, alteração do nível de consciência, déficits neurológicos focais, papiledema ou sinais de herniação.
Em emergência, o tratamento não deve aguardar confirmação etiológica completa quando há deterioração neurológica. O objetivo inicial é estabilizar via aérea, ventilação, circulação e reduzir rapidamente o risco de isquemia e herniação.
Hipertensão intracraniana é o aumento sustentado da pressão intracraniana, geralmente acima da capacidade compensatória do conteúdo intracraniano.
Em adultos, a pressão intracraniana normal costuma ficar em torno de 5 a 15 mmHg. Em pacientes neurocríticos, valores sustentados acima de 20 a 22 mmHg são considerados clinicamente relevantes, especialmente no traumatismo cranioencefálico grave. As diretrizes da Brain Trauma Foundation recomendam tratamento quando a pressão intracraniana ultrapassa 22 mmHg, pois valores acima desse limite se associam a pior prognóstico. A meta terapeutica será manter a PIC abaixo desse valor.
A pressão de perfusão cerebral é calculada pela fórmula:
PPC = PAM – PIC
Onde:
Na prática, não basta reduzir a PIC. É necessário manter perfusão cerebral adequada, evitando hipóxia, hipotensão e hipercapnia.
A fisiopatologia da hipertensão intracraniana é explicada pela doutrina de Monro-Kellie.
O crânio é uma estrutura rígida que contém três componentes principais:
Como o volume intracraniano total é praticamente fixo, o aumento de um desses componentes precisa ser compensado pela redução de outro. Quando os mecanismos compensatórios se esgotam, pequenas elevações de volume passam a causar grandes aumentos da pressão intracraniana.
A doutrina de Monro-Kellie afirma que o volume intracraniano é a soma dos volumes de cérebro, sangue e líquor.
Inicialmente, o organismo compensa o aumento de volume por:
Quando a reserva compensatória se esgota, ocorre aumento abrupto da PIC. Esse ponto de descompensação é crítico, pois pequenas lesões expansivas podem causar rápida deterioração neurológica.
A velocidade de instalação do processo é decisiva.
Uma lesão expansiva de crescimento lento, como alguns tumores, permite maior adaptação dos mecanismos compensatórios. Já um hematoma intracraniano agudo, edema cerebral pós-traumático ou hemorragia volumosa pode elevar a PIC rapidamente, com risco precoce de herniação.
Esse conceito é muito importante em prova: o mesmo volume adicional pode ter impacto clínico diferente conforme o tempo de instalação.
O edema cerebral é um dos principais mecanismos de hipertensão intracraniana.
O edema vasogênico ocorre por disfunção da barreira hematoencefálica, permitindo extravasamento de plasma para o espaço extracelular.
É comum em:
Corticosteroides podem ser úteis no edema vasogênico associado a tumores, mas não devem ser usados de rotina em traumatismo cranioencefálico ou hemorragia intracerebral espontânea.
O edema citotóxico ocorre por falência energética celular, com disfunção da bomba de sódio e potássio e entrada de água no interior das células.
É típico de:
O edema intersticial ocorre principalmente na hidrocefalia, quando há transudação de líquor através do epêndima para a substância branca periventricular.
Muitas condições neurocríticas apresentam mecanismos combinados. No traumatismo cranioencefálico grave, por exemplo, podem coexistir edema vasogênico, citotóxico, alterações do fluxo sanguíneo cerebral, hematomas e distúrbios da autorregulação.
O cérebro mantém fluxo sanguíneo relativamente constante dentro de determinada faixa de pressão arterial. Esse mecanismo é chamado de autorregulação cerebral.
Quando a autorregulação falha, o fluxo cerebral torna-se mais dependente da pressão arterial sistêmica. Nessa situação, hipotensão pode agravar isquemia cerebral, enquanto hipertensão pode aumentar edema e sangramento em contextos específicos.
No traumatismo cranioencefálico grave, a Brain Trauma Foundation recomenda manter a pressão de perfusão cerebral entre 60 e 70 mmHg, individualizando o alvo conforme a autorregulação e o risco de isquemia ou hiperemia.
A hipertensão intracraniana pode resultar de aumento do volume cerebral, sanguíneo, liquórico ou de lesões expansivas.
As principais etiologias incluem:
A hipertensão intracraniana idiopática é uma entidade específica, caracterizada por aumento da pressão intracraniana sem lesão expansiva, hidrocefalia ou infecção intracraniana.
É mais comum em mulheres jovens com obesidade e se manifesta com cefaleia, papiledema, obscurecimentos visuais transitórios, diplopia por paresia do VI par e zumbido pulsátil.
Embora compartilhe o aumento da PIC, sua abordagem é diferente da hipertensão intracraniana aguda por lesão estrutural. O risco principal é perda visual progressiva, não herniação aguda na maioria dos casos.
O quadro clínico da hipertensão intracraniana varia conforme a causa, a velocidade de instalação e a presença de herniação.
Os sintomas mais frequentes incluem:
A tríade cefaleia, vômitos e papiledema é clássica, mas não está presente em todos os pacientes.
Podem ocorrer:
O papiledema é edema do disco óptico por aumento da pressão intracraniana.
É mais comum em hipertensão intracraniana subaguda ou crônica. Pode estar ausente em quadros agudos, como traumatismo cranioencefálico grave ou hemorragia intracraniana de instalação rápida.
Na fundoscopia, podem ser observados:
A ausência de papiledema não exclui hipertensão intracraniana aguda.
A tríade de Cushing é um sinal tardio de hipertensão intracraniana grave.
É composta por:
Ela sugere comprometimento iminente do tronco encefálico e risco de herniação. Apesar de ser muito cobrada em prova, não deve ser aguardada para iniciar tratamento.
Sinais de herniação indicam emergência neurológica.
Devem ser reconhecidos rapidamente:
O giro do cíngulo desloca-se sob a foice cerebral.
Pode comprimir a artéria cerebral anterior e causar infarto em seu território.
O uncus do lobo temporal desloca-se através da incisura tentorial.
Achados típicos:
Há deslocamento descendente do diencéfalo e tronco encefálico.
Pode causar deterioração progressiva da consciência, alterações pupilares bilaterais e padrões respiratórios anormais.
As tonsilas cerebelares deslocam-se pelo forame magno.
É uma das formas mais graves, podendo causar compressão bulbar, apneia, instabilidade cardiovascular e morte.
O diagnóstico da hipertensão intracraniana é clínico em situações de emergência, mas a definição etiológica depende de neuroimagem e, em pacientes selecionados, monitorização invasiva.
A avaliação deve seguir uma lógica de emergência:
A escala de coma de Glasgow deve ser documentada e reavaliada seriamente.
Também devem ser avaliados:
A tomografia computadorizada de crânio sem contraste é o exame inicial mais importante na suspeita de hipertensão intracraniana aguda.
Pode identificar:
A neuroimagem não deve atrasar medidas imediatas em paciente com sinais de herniação.
A ressonância magnética tem maior sensibilidade para algumas etiologias, mas geralmente não é o primeiro exame em pacientes instáveis.
Pode ser útil em:
A punção lombar pode medir a pressão de abertura e auxiliar no diagnóstico de meningite, hemorragia subaracnoidea com tomografia negativa em contexto apropriado e hipertensão intracraniana idiopática.
No entanto, é contraindicada quando há suspeita de lesão expansiva com efeito de massa, desvio de linha média, obstrução liquórica ou risco de herniação.
Antes da punção lombar, deve-se realizar neuroimagem quando houver:
A monitorização invasiva permite medir a pressão intracraniana continuamente em pacientes neurocríticos selecionados, especialmente no traumatismo cranioencefálico grave.
A Brain Trauma Foundation recomenda o uso de informações da monitorização da PIC para reduzir mortalidade intra-hospitalar e após duas semanas em pacientes com traumatismo cranioencefálico grave.
Os principais dispositivos incluem:
O cateter ventricular externo tem a vantagem de permitir drenagem terapêutica de líquor, além da medida da pressão.
A ultrassonografia point-of-care da bainha do nervo óptico pode ser usada como ferramenta complementar à beira-leito.
O aumento do diâmetro da bainha se correlaciona com hipertensão intracraniana, mas o método depende de técnica, treinamento e contexto clínico. Não substitui tomografia, avaliação neurológica nem monitorização invasiva quando estas são indicadas.
Na prática, é útil como ferramenta auxiliar em pacientes instáveis, especialmente quando o transporte para neuroimagem envolve risco.
O tratamento da hipertensão intracraniana deve ser iniciado de forma escalonada e simultânea à investigação etiológica.
A prioridade é evitar lesão cerebral secundária por hipóxia, hipotensão, hipercapnia, hipoglicemia, hipertermia, convulsões e herniação.
As medidas iniciais incluem:
A intubação orotraqueal deve ser considerada quando houver:
Durante a intubação, devem ser evitadas hipóxia e hipotensão, pois ambas pioram o prognóstico neurológico.
A ventilação deve buscar normocapnia na maioria dos casos. Hiperventilação profilática prolongada não é recomendada no traumatismo cranioencefálico grave, especialmente com PaCO2 muito baixa, porque pode reduzir o fluxo sanguíneo cerebral e agravar isquemia.
A hiperventilação pode ser usada temporariamente em deterioração neurológica aguda com suspeita de herniação, enquanto se implementam terapias definitivas.
Deve ser encarada como medida de ponte, não como tratamento prolongado.
O objetivo é reduzir rapidamente o volume sanguíneo cerebral por vasoconstrição induzida pela queda da PaCO2. O risco é reduzir excessivamente o fluxo sanguíneo cerebral.
O posicionamento adequado ajuda a melhorar drenagem venosa cerebral.
Recomenda-se:
Essas medidas são simples, rápidas e devem ser aplicadas precocemente.
Dor, agitação, tosse, assincronia ventilatória e estímulos excessivos podem aumentar a PIC.
A sedação e analgesia devem ser individualizadas, com objetivos claros:
Em pacientes intubados, sedativos de curta ação podem ser úteis para permitir reavaliação neurológica quando apropriado.
A terapia hiperosmolar é uma das principais intervenções para redução aguda da PIC.
As opções mais utilizadas são:
As diretrizes da Neurocritical Care Society sugerem soluções salinas hipertônicas em vez de manitol como opção inicial para manejo de PIC elevada ou edema cerebral em traumatismo cranioencefálico, embora a qualidade da evidência seja baixa. Também reconhecem o uso de terapia hiperosmolar em outras condições neurocríticas, como hemorragia subaracnoidea, AVC isquêmico, hemorragia intracerebral e encefalopatia hepática.
Durante o uso dessas terapias, deve-se monitorar:
A solução salina hipertônica aumenta a osmolaridade sérica e promove deslocamento de água do parênquima cerebral para o intravascular.
Também pode melhorar volemia e pressão arterial, o que é relevante em pacientes com risco de hipotensão.
Na prática, diversas concentrações são empregadas: 3%, 7,2%, 7,5%, 10% e 23,4%, sem evidência definitiva sobre a concentração ou método de administração ideal. No Brasil a apresentação padrão é o NaCl 20% em ampolas de 10 mL ou 20 mL. A partir dessa solução-mãe, preparam-se as concentrações desejadas por diluição em soro fisiológico (SF 0,9%) ou água destilada. A solução de NaCl 3% é a concentração mais estudada e mais utilizada na prática neurocrítica para manejo de PIC elevada. A dose em bolus é de 50-250 mL (2-5 mL/kg) infundida em 10-20 minutos e podendo ser repetida a cada 4-6h dependendo da PIC e clínica do paciente.
O manitol é diurético osmótico e pode reduzir a PIC por efeito osmótico e melhora reológica transitória. Administração deve ser em bolus (não em infusão contínua) — o efeito inicial depende da administração rápida.
Deve ser usado com cautela em:
No traumatismo cranioencefálico grave, a Brain Trauma Foundation descreve manitol como efetivo para controle de PIC elevada em doses de 0,25 a 1 g/kg, mas recomenda restringir seu uso antes da monitorização da PIC a pacientes com sinais de herniação transtentorial ou deterioração neurológica progressiva sem outra explicação extracraniana.
A drenagem de líquor por cateter ventricular externo pode reduzir a PIC, especialmente em hidrocefalia ou quando há necessidade de monitorização invasiva.
É útil em:
A decisão é neurocirúrgica e depende da etiologia, anatomia ventricular, coagulopatia e risco do procedimento.
A cirurgia pode ser definitiva em causas estruturais de hipertensão intracraniana.
Pode incluir:
A craniectomia descompressiva pode reduzir PIC em casos refratários, mas sua indicação depende de etiologia, gravidade, prognóstico neurológico e avaliação especializada.
A hipotensão deve ser evitada.
No neurocrítico, queda de pressão arterial pode reduzir a pressão de perfusão cerebral e agravar isquemia. A meta de pressão deve ser individualizada conforme idade, diagnóstico, presença de sangramento, autorregulação e monitorização.
No traumatismo cranioencefálico grave, o objetivo é manter PPC adequada, em geral na faixa de 60 a 70 mmHg, evitando tanto hipoperfusão quanto intervenções excessivas com risco de complicações.
Febre aumenta metabolismo cerebral e pode piorar lesão secundária.
Devem ser corrigidos:
Soluções hipotônicas devem ser evitadas em pacientes com risco de edema cerebral.
Corticosteroides não são tratamento geral da hipertensão intracraniana.
Podem ser indicados em:
Não devem ser usados de rotina em:
Na hemorragia intracerebral espontânea, diretrizes da AHA/ASA não recomendam corticosteroides profiláticos para melhora de desfechos, e o tratamento deve focar controle clínico, neuroimagem, manejo da pressão arterial, reversão de anticoagulação quando indicada e suporte neurocrítico.
Crises epilépticas aumentam demanda metabólica cerebral e podem elevar a PIC.
A conduta inclui:
O tratamento envolve:
A abordagem inclui:
O edema maligno, especialmente no território da artéria cerebral média, pode causar hipertensão intracraniana grave.
A craniectomia descompressiva deve ser considerada precocemente em pacientes selecionados, conforme idade, território acometido, tempo de evolução e prognóstico funcional esperado.
O tratamento pode incluir:
A hidrocefalia aguda pode exigir drenagem ventricular externa de urgência.
Causas incluem:
O tratamento busca preservar visão e controlar sintomas.
Pode incluir:
Essa condição deve ser diferenciada da hipertensão intracraniana aguda com efeito de massa, em que punção lombar pode ser perigosa.
O prognóstico da hipertensão intracraniana depende da causa, velocidade de instalação, idade, comorbidades, tempo até tratamento, presença de herniação e ocorrência de lesão cerebral secundária.
Fatores associados a pior prognóstico incluem:
A intervenção precoce reduz risco de morte e sequelas neurológicas. Em pacientes sobreviventes, podem ocorrer déficits cognitivos, motores, visuais, epilepsia pós-lesão, alterações comportamentais e dependência funcional.
A hipertensão intracraniana é uma emergência neurológica que exige reconhecimento clínico rápido e tratamento imediato quando há deterioração neurológica ou sinais de herniação.
A compreensão da doutrina de Monro-Kellie, da relação entre PIC e pressão de perfusão cerebral e dos mecanismos de edema cerebral permite raciocínio clínico seguro em emergências, UTI e provas.
A abordagem inicial deve priorizar oxigenação, ventilação, pressão arterial, posicionamento, controle de crises, terapia hiperosmolar quando indicada e neuroimagem precoce. O tratamento definitivo depende da causa, podendo incluir drenagem liquórica, cirurgia, controle de edema, reversão de anticoagulação, manejo infeccioso ou tratamento oncológico.
O ponto essencial é não aguardar sinais tardios. Na suspeita de hipertensão intracraniana grave, especialmente com rebaixamento de consciência, anisocoria ou sinais de herniação, a intervenção deve ser imediata.
Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway